Viviane Bevilacqua: verdade e mentira, cada coisa no seu tempo

Maria foi visitar uma amiga que acabou de ter um bebê. Levou junto a filha Lala, de cinco anos. Fez mil recomendações de como ela deveria se comportar, porque conhece bem a figura. Cabelos vermelhos, pele clara e cheia de sardas, a menina parece irmã gêmea do Pimentinha, inclusive no gênio indomável e arteiro. Ao chegar, Lala entrou na casa correndo e já perguntando:
– Cadê o nenê?
Estava ansiosa para conhecê-lo. A mãe da criança, com cara de quem não dormia havia séculos, aponta para o carrinho, no canto da sala, e diz para Lala:
– Ele está lá, pode ir olhar. Só não mexe nele, porque o bebê acabou de dormir.
Foram todas admirar o bebê, rosadinho e bochechudo. Lala achou muito engraçado o cabelo todo arrepiado do guri. Até aquele dia ela só tinha visto bebê carequinha.
– Olha mãe, que engraçado. Parece um pica-pau!
As duas riram, meio sem graça, daquele comentário ao mesmo tempo tão inocente e tão verdadeiro.
– Eu achei que ele fosse mais bonito. É… Mais ou menos – completou a garotinha, que não estava nem aí para o constrangimento da mãe.
A dona da casa ofereceu bolo de chocolate para mudar de assunto. Não queria mais ouvir comentários sobre o filho que – óbvio – para ela é o nenê mais lindo do mundo. Difícil mãe que ache seu rebento feio, mesmo que ele seja.
Lala foi a primeira a sentar-se à mesa.
– Quero o pedaço maior – avisou.
A mãe, àquela altura, achou melhor fazer de conta que nem ouvia. A menina colocou um pedação de bolo na boca e não engolia nunca. Tomou um gole de suco para ajudar a descer e disse:
– Tia, foi o pior bolo que eu já comi. O da minha vó é muito melhor. Até o da minha mãe, que não é bom, é mais gostoso do que este.
Maria não sabia onde se enfiar de vergonha. Comeu o bolo meio a contragosto (porque Lala falara a verdade), deu uma desculpa esfarrapada e despediu-se logo da amiga. Quando entrou no carro com a Lala, furiosa, disse à menina que ela era muito mal educada, que ela não devia falar assim, blablablá…
Lara, que de boba não tem nada, disse calmamente:
– Mãe, você é muito confusa. Um dia, me manda dizer a verdade, só porque eu quebrei um vaso e disse que não fui eu. Aí, quando eu não minto, você fica braba porque eu digo a verdade. Assim não dá.
Maria ficou sem ter o que dizer. Como explicar a uma menininha de cinco anos que às vezes pequenas mentirinhas sociais são necessárias e que nem sempre falar a verdade é a melhor solução?
Pensaria sobre isso mais tarde. Melhor mudar de assunto.

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