6 mulheres negras refletem sobre o legado de Marielle Franco e desafios em um mundo mais igualitário

Foto: Márcia Foletto/Agência O Globo
Foto: Márcia Foletto/Agência O Globo

Em 12 de maio de 2017, Donna decidiu lançar um posicionamento. Depois de muita reflexão sobre o que a revista desejava anunciar às suas leitoras, chegamos aos dizeres #SouDonnadeMim: uma forma de estimular cada mulher a ser quem ela quiser, com decisões independentes em relação ao que ela deseja falar, o corpo que deseja habitar, por quais causas lutar, quem amar, no que trabalhar e todo um universo de possibilidades que, hoje, desejamos que seja infinito para qualquer mulher. Naquela edição, perguntamos a cinco delas em que momento da vida elas se tornaram donas de si.

E se perguntássemos a Marielle Franco?

Ela poderia escolher a conclusão do Ensino Superior, privilégio de apenas 10,4% das brasileiras da sua raça. A socióloga Marielle, 38 anos, foi além: em um universo de 48,5 milhões de brasileiras negras, está entre as 0,05% que cursaram um mestrado, em Administração Pública. É possível que ela lembrasse o episódio anterior a tudo isso, apontado por ela mesma como o determinante para transformar uma jovem dançarina em militante: a morte de uma amiga por bala perdida na favela da Maré, em 2000. Após 16 anos, sua eleição como vereadora no Rio de Janeiro seguiu desafiando estatísticas: esteve entre os 3,9% de vereadoras negras eleitas no Brasil inteiro. Representava uma minoria dentro de outra: já que as mulheres compõem apenas 13,5% dos legislativos municipais.

e nós vamos lutar com você

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Quem sabe Marielle não apontasse nada disso. Lembrasse algo pessoal, como a chegada da única filha, aos 18 anos, ou a descoberta do amor por outra mulher, “a primeira que beijou”, segundo suas redes sociais. Namorada e filha foram suas companheiras até a morte, em 14 de março.

O assassinato de Marielle – cuja brutalidade também vitimou o motorista Anderson Gomes, deixando mulher e um bebê de um ano – nos toca por representar um “não” violento e covarde àquilo de mais fundamental que decidimos propagar em Donna, especialmente desde maio passado: a liberdade de uma mulher de fazer o que ela quiser da própria vida. Liberdade que inclui o direito de desafiar uma série de negativas ao seu gênero e à sua origem racial e social.

A luta continua #mariellefranco #mariellepresente

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Independentemente do quanto a revista ou suas leitoras simpatizem com as bandeiras de Marielle, é inadmissível calar diante de uma mulher assassinada por suas escolhas. Os próximos relatos não são apenas uma homenagem. Ao convidar outras mulheres negras a falaram na revista suas manifestações sobre a morte de Marielle, desejamos exatamente isso: que, ao tentarem calar a voz dela ou de qualquer outra mulher, outras a multipliquem. Que a mantenham presente.

MULHER PRETA É O ALVO MAIS FÁCIL

Solidão da mulher negra. Você já ouviu falar? Mulher negra tem cara de periferia. Somos maioria, mas não somos o “padrão”. Nos é dito que não temos “o perfil “ para ocupar os espaços pra além da periferia do mundo. Mulher preta é sozinha. É assim desde a escravidão. Somos quem cuida, quem serve, quem dá, recebendo nada em troca além da morte por mãos tão covardes. O sistema nos exclui de possibilidades comuns como amar e ser amadas, e nos mata cotidianamente pela violência do preterimento e desumanização, perversamente imperceptíveis à população branca e a homens negros. A preta de qualquer classe e posição é violentada. Nenhuma escapa.

Marielle morreu como prova de que a ascensão social não nos protege de nada. Mulher preta é o alvo mais fácil. Recado dado. Mas dado a todos nós. A desigualdade deixa marcas, e, diante de tudo que vem acontecendo, vale uma única resposta: engajamento. Um convite a participar de qualquer coisa que nos coloque para além da nossa própria vida e prazer. Sem entender mais sobre o mundo do outro, seguiremos assim: incapazes de empatia. De nada adianta sermos todos humanos se só cuidamos dos humanos eleitos. O combate à dupla racismo+machismo é prioridade máxima e inadiável, e o Brasil faz renascer Marielle saindo nas ruas para pedir mais coerência e humildade. Respeito pela dor e condição do outro. Você precisa entender que o outro e você são um só. Não haverá paz enquanto não for para todos e todas. Nossa solidão acaba também com a sua paz.

Como disse Bia Ferreira, “Nasce milhares dos nossos cada vez que um nosso cai”. E como sempre, pelas nossas ancestrais, pelas nossas irmãs e pelas filhas que virão, seguimos! Convidamos você a seguir com a gente. Porque a gente já segue com vocês há muito tempo.

Foto: Raul Krebs/Divulgação

Foto: Raul Krebs/Divulgação

ANAADI, cantora e compositora, com BETINA CÂMARA, filósofa e terapeuta, CAMILA TOLEDO, cantora, ELBA GAMINO, pedagoga, FERNANDA FRANCISCA DA SILVA, psicóloga, e MARLETE OLIVEIRA, terapeuta ocupacional

BRANCOS SEJAM NOSSOS ESCUDOS

Minha filha, uma ativista, intelectual brilhante, pesquisadora, feminista e amiga de Marielle Franco, ao saber do convite para que eu escrevesse este texto, disse: “Nunca lembram de nós pra nada, nunca nos chamam para pôr nossa cara bonita e fora do padrão em revistas. Só se lembram da gente quando é para falar da dor”. E completou: “Todos os dias, eu me arrasto porque executaram a minha maior esperança, todos os dias eu me arrasto porque podia ser eu. A mídia, que nunca pensa nos nossos corpos negros, quer que a gente agora fale? Que se virem. Eu estou cansada de brancos, muito cansada”.

E eu chorei, como ainda não tinha me permitido. Nós, mulheres negras, temos nossa percepção sobre o que aconteceu com Marielle e com todos os assassinatos de mulheres negras. A violência contra as mulheres brancas diminuiu, mas contra as negras aumentou, e isso está comprovado em dados e pesquisas que não são reverberados em políticas públicas em nossa defesa. Não reverberam em apoios efetivos que nos sirvam de escudo contra a violência estrutural que nos mata diariamente na invisibilidade que o mundo branco nos coloca.

Marielle ocupava o espaço na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, espaço de representatividade. Espaço que nos tem sido negado, e, quando ousamos ocupá-lo, somos abatidas. Marielle foi abatida com as balas de todos os golpes engendrados pelo sistema colonialista, patriarcal, misógino, utilizados para invisibilizar a maior mazela que sustenta esse país. Marielle foi executada pelo racismo. Marielle foi executada, mas defenderemos seu legado com nossa própria luta, pois estamos cansadas de servir como escudos. Se for para nos incluir em pautas “somos todos iguais”, que haja troca de lugares nesta luta pela igualdade, pois estamos cansadas de enterrar as nossas. Portanto, brancos, sejam nossos escudos. Venham para a luta e sejam antirracistas.

Foto: Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

IYÁ SANDRALI DE OXUM, psicóloga especialista em criminologia, servidora pública e secretária Executiva do Conselho do Povo de Terreiro do Estado do RS

QUE TIRO FOI ESSE?

Estamos perdendo vidas para a violência. Falamos de um país que mata suas mulheres e seus jovens e dissemina a violência. Estamos indo muito mal. Na mesma semana, além da Marille e do Anderson, perdemos Ítalo aqui em Porto Alegre, ele dentro de um ônibus, e Benjamim, menino de dois anos morador do Complexo do Alemão (idade dos meus aluninhos da educação infantil) e tantos outros. Disparos certeiros que levaram a vida de pessoas significativas do meu universo. Não estou bem, me senti perdida, vendo a vida se esvair em um suspiro. Vi e ouvi choros e lágrimas e uma gigantesca sensação de impotência. Somos alvos, mas, mesmo vulneráveis, precisamos reagir.

Não estamos fazendo barulho em vão. Estamos reivindicando a vida de centenas, ativistas de direitos humanos ou não, famosos, anônimos nas periferias brasileiras que ousam, resistem e cobram. Sem vida digna para todos, não teremos paz. Somos a base de tudo, mãos e pernas deste país. Os efeitos já sabemos, a causa é a falta de qualidade de vida para a maioria negra e pobre. A violência tem o berço aí: racismo, machismo e homofobia são braços da desumanização que nos vê apenas como mão de obra, peças de uma grande engrenagem movida a suor e sangue.

Desde que o Brasil é Brasil, trocamos nomenclaturas e uniformes, e nossa situação permanece com pouca mudança, não é mesmo sexagenário?! Precisamos combater a polícia violadora de direitos, a cultura do racismo, o racismo estrutural, o feminicidio e, principalmente, o extermínio da juventude negra. A situação está sufocante e é urgente respirar!

Foto: Carlos Macedo/ Agência RBS

Foto: Carlos Macedo/ Agência RBS

NEGRA JAQUE, cantora e compositora

ELA ESTÁ PRESENTE. EM TODAS NÓS, POR TODAS NÓS

Escrevo para nós mulheres. Acredito que a ausência da Marielle é uma perda para todos, lógico, mas para nós, mulheres, é uma falta sem precedentes. Quando vivemos numa sociedade que nos estimula a competir por tudo – por espaços, por beleza, pelos homens –, perceber o valor da outra mulher é ainda um desafio enorme e que nem todas conseguem. Como a morte de Marielle nos atinge? Como mulheres talvez pareça óbvio, mas é preciso olhar para além de nós mesmas. Olhar para quem ela representava, escutar as vozes pelas quais ela falava, entender a realidade que ela lutava para mudar. É bastante fácil para as que não são atingidas pela realidade de pobreza, abandono, fome e inferiorização que ela procurava mudar, se sentir distante ou só se apegar nas questões políticas. Mas o que é fazer política se não pensar o bem social? Ou pelo menos deveria ser… Sentir a Marielle presente é prestar atenção que a realidade é muito diferente entre nós mulheres, que temos necessidades diferentes e que é papel de todas nós lutarmos por voz. Voz de todas. Porque o silenciamento de uma é a inferiorização de todas, a falta de oportunidade de todas, a perda do emprego para um homem pelo simples fato de ser mulher, o espancamento de uma não denunciado pelos vizinhos porque “ela mereceu, afinal andava sozinha até tarde e não metemos a colher”. Entender a perda da voz e da luta da Marielle é um passo fundamental para a compreensão de que todas nós, cuidando, escutando e lutando umas pelas outras é fundamental e urgente. Marielle presente… Em mim todo dia, e em ti, minha amiga?

Foto: Carlos Macedo/ Agência RBS

Foto: Carlos Macedo/Agência RBS

CAROL ANCHIETA, jornalista, repórter da RBS TV

ELA USAVA SUA VOZ PARA DAR VALOR À MULHER

Passei a quinta-feira seguinte ao assassinato de Marielle Franco o mais calada possível, recuada e inconformada. Impossível alguém não se comover e ficar atento à real situação em que vivemos. Parece que não tem fuga, não tem tempo. Não existe amor. Uma frase que li entre as inúmeras resume um pouco do meu sentimento: “Se você não está com medo, você não entendeu”. Nossas vidas são vulneráveis, o racismo e a impunidade parecem muito mais fortes do que a gente pode imaginar.

Perdemos uma grande pessoa, que usava sua voz, sua luta e todos os espaços para dar valor à mulher, aos jovens negros, à causa LGBT e ao morador da periferia, que abraçou a responsabilidade coletiva e priorizou isso em sua vida. Perdemos alguém que estava em um ambiente que sabemos que é hostil, mas que estava disposta a enfrentar tudo por nós.

“Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?” Essa frase foi dia por Marielle Franco um dia antes de ser brutalmente executada. Mulher, negra, mãe, feminista, socióloga, “cria da favela”, como ela mesma se intitulava. Marielle nasceu no Complexo da Maré, zona norte do Rio de Janeiro, no dia 27 de julho de 1979. Foi mãe jovem, aos 19 anos. Graduou-se em ciências sociais e tornou-se mestre em administração pública. Referencia na luta pelos direitos humanos, Marielle já coordenou a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da assembléia do Rio de Janeiro, um dos seus primeiros cargos públicos. Em 2016, foi eleita vereadora, com 46.502 votos, sendo a 5ª mais votada. Mulher, negra e ‘favelada’. Há duas semanas, assumiu a função de relatora da Comissão da Câmara de Vereadores do Rio, criada para acompanhar a atuação das tropas durante a intervenção. Em 10 de março, 4 dias antes de seu assassinato, Marielle denunciou, através de suas redes sociais, indícios de abuso de autoridade e violência por parte de policiais do 41º Batalhão da Polícia Militar contra moradores do bairro Acari. Aos 38 anos ontem, dia 14 de março de 2018, foi EXECUTADA com cerca de 4 tiros no crânio, no centro do Rio de Janeiro, enquanto voltava do evento Jovens Negras Movendo Estruturas do qual participou, na Lapa. Segundo testemunha ocular, há poucos metros do local dos disparos, havia uma viatura da Polícia Militar. Marielle Franco era mãe, irmã, filha, mulher, negra, feminista, periférica e cidadã brasileira. Era representatividade política. Era defensora dos direitos humanos. É inspiração. É sinônimo de força. É resistência e ainda vive. “Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?” . . . #marielle #mariellefranco #mariellevive #mariellepresente #mariellefrancopresente #artenegra #25amazingwomen #25aw #psol #naofoiassalto #marçodasmulheres #gagmarco #girlsartistgang #manasartistas #representatividade #feminista #feminismonegro #ilustração #arte #ocuparte #aquarela #lutopormarielle

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É um momento de se discutir a vida negra. O direito de viver do negro. Uma pessoa precisou morrer para que a gente entenda que nada mudou, que não evoluímos, que continuamos à margem da sociedade. Fica a questão abordada por Marielle dois dias antes da morte: “Quantos mais vão precisar morrer para que essa Guerra acabe?”.

O silêncio parece o caminho mais fácil. Mas quem disse que queremos o mais simples? Marielle não morreu, virou multidão. Uma multidão forte que está extremamente disposta a mudar o curso do que está acontecendo em nosso país. Milhares de pessoas nas ruas em dezenas de cidades do Brasil naquela noite de quinta-feira confirmam que a voz da “cria da Maré” – como Marielle se autointitulava – nunca irá se calar.

Foto: Arquivo Pessoal

Foto: Arquivo Pessoal

DUDA BUCHMANN, autora do blog Negra e Crespa e colunista de Donna

GENOCÍDIO SEM NOMES

Marielle Franco era uma mulher negra da periferia, acadêmica, intelectual, que lutava e apoiava o empoderamento da mulher, denunciando a violência contra a população negra. No Brasil, a cada dia morrem 63 negros – 33 deles são crianças entre 12 e 18 anos, segundo a Unicef. Há um genocídio acontecendo no Brasil totalmente silenciado. Se há um dito popular dizendo que “bandido bom é bandido morto”, até onde um negro bom é um negro morto? Porque, quando um negro é morto, a maioria da população pensa: “Ah, devia ser bandido”.

O negro sequer tem a oportunidade de ser inocente, de ser visto como vítima. A mídia educa crianças a ver os negros como serviçais ou criminosos. Acredito muito no poder do audiovisual para reverter isso: vê-los em papéis de governadores, médicos, juízes que existem, mas são invisíveis. Quando um negro circula nesses ambientes, precisa sempre “mostrar o pedigree”, porque as pessoas não estão acostumadas. O Brasil tem um potencial enorme, mas precisa se olhar por dentro e não continuar essa mentira de uma democracia racial. Não podemos falar em crise econômica, por exemplo, sem falar em desigualdade.

Por tudo isso, a morte de Marielle Franco, uma mulher importante e reconhecida pela população, tornou-se um símbolo. Mas não adianta o luto. Adianta a luta. Temos que enxergar o quanto estamos em um país em que sobrevive um apartheid por meio da favela. Fiquei emocionada em ver a morte de Marielle despertar interesse da comunidade internacional. Para falar sobre esse genocídio sem nomes que a mídia não relata e ninguém quer assumir.

Foto: Marcus Steinmeyer/Divulgação

Foto: Marcus Steinmeyer/Divulgação

ALEXANDRA LORAS, ex-consulesa da França em São Paulo, empresária, consultora de empresas e autora de livros

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