Short, camiseta e vestido vetados: especialistas debatem o papel e os limites do dress code

Ainda que você trabalhe em um ambiente informal e frequente lugares mais alternativos, onde não existem regras sobre roupas – expressas ou não -, provavelmente já foi submetida a algum código de vestimenta na vida. No pé do convite daquele casamento, por exemplo, estava a mensagem em letras miúdas: dress code passeio completo. Mas e quando os códigos sobre o que vestir ganham status de lei e fazem com que mulheres sejam advertidas ou até impedidas de adentrar seu ambiente de trabalho ou de estudo?

Foi isso que aconteceu em três ocasiões nas últimas semanas em Porto Alegre, no Rio de Janeiro e em Palmas. No mais recente, uma vereadora da Capital foi criticada por usar uma camiseta durante a sessão plenária. Na semana anterior, uma advogada, grávida, não pode entrar em um fórum no Tocantins porque seu vestido estava mais de três centímetros acima do joelho. O comprimento da roupa também foi o motivo de uma aluna da pós-graduação da Fundação Getúlio Vargas, no Rio, não poder assistir à aula do MBA – por estar usando um shorts. Os episódios serviram para reacender o debate: afinal, qual o papel do dress code nos dias de hoje, em pleno 2017?

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Sobre o caso da vereadora Karen Santos (PSOL), que recebeu críticas ao final da reunião no plenário do presidente da Câmara de Vereadores de Porto Alegre, Valter Nagelstein (PMDB), por vestir uma camiseta, a jornalista e consultora de moda Patrícia Pontalti, d’As Patrícias, é categórica:

— É ridículo perder tempo ali (no plenário) para falar sobre isso. Ela estava usando uma peça que hoje é inclusive considerada prêt-à-porter (em referência à estreia de Maria Grazia Chiuri à frente da Dior, no desfile em Paris que abriu com uma camiseta onde se lia “We should all be feminists”, ou todas nós deveríamos ser feministas, em tradução livre). A camiseta hoje ganhou um status de luxo, e transita por vários ambientes que nada tê1m a ver com o esportivo — explica Patrícia Pontalti, que também é colunista de moda de Donna. — A camiseta que Karen usava tem a ver com o discurso dela. A peça funciona como um outdoor dos nossos pensamentos e, como Malcolm-X é uma pessoa na qual ela provavelmente se inspira, ela estava adequada dentro do discurso.

Confira o relato da vereadora Karen Santos após a sessão

Marta Hoffmann, consultora de imagem pessoal e dress code, lembra que os códigos de vestimenta com regras definidas sobre o que se pode ou não usar nem sempre são claros ou existem de fato. Para ela, nestes casos, “o bom senso deveria ser seguido”:

— Não há certo e errado, e sim oque é adequado ou não — pondera. — A melhor forma para lidar com este assunto em ambientes que se preocupam com a maneira que as pessoas se vestem, ao frequentar o local, é deixar claro o dress code a ser seguido. Se não existe a regra, não se pode cobrá-la.

Para a colunista de Donna Roberta Weber, que também atua como consultora de moda e stylist, a adequação é o segredo para estar bem vestida, mas é preciso estar aberta (e se adaptar também) a mudanças próprias do tempo em que vivemos.

— Se vestir de acordo com o dress code do local é fundamental, mas as regras se tornaram flexíveis e peças que antes tinham seu uso limitado a ambientes informais já encontram seu espaço em momentos mais solenes — explica. — Nossa vestimenta é uma mensagem (ou deveria ser) de quem somos ou de como queremos ser percebidas. Pensando nisso, é importante, sim, que a liberdade de escolha pessoal seja respeitada, mas que ao mesmo tempo não interfira nos regimentos ou códigos do seu ambiente de trabalho.

Mauren Motta, consultora de moda e autora do livro Socorro! Com que roupa eu vou?, acredita que não há como abrir exceções para as normas sobre vestimentas contando apenas com o bom senso das pessoas. Sobre o caso da profissional de marketing Camila Tavares, barrada na entrada da Fundação Getúlio Vargas, no Rio, Mauren opina:

— É uma questão complicada. Imagino que a regra contra o shortinho exista para evitar que o pessoal vá para a faculdade como vai para a praia. A peça dela é elegante, o comprimento também não é problema, mas o fato é que não se pode flexionar a regra contando com o bom senso de cada um. Nem todo mundo tem bom senso — afirma. — Mas mais ridículo do que barrar o shortinho seria deixar o porteiro decidindo caso a caso, com uma fita métrica.

Camila Tavares, barrada antes da aula do MBA na FGV, no Rio, por usar bermuda

Camila Tavares, barrada antes da aula do MBA na FGV, no Rio, por usar short

Dress codes x preconceito por gênero

Fundadora da ONG Empoderamento da Mulher, de Porto Alegre, a ativista Estela Rocha levanta outro ponto: os problemas que as três mulheres citadas enfrentaram por conta das roupas que usavam têm a ver, também, com o fato de serem mulheres. Para ela, os códigos de vestimenta, além de poderem ser considerados antiquados sob determinadas óticas, ainda fazem “distinção de gêneros e são exclusores em diversos aspectos”.

 Não acredito que o que tenha ocorrido na Câmara com a vereadora Karen Santos, com Camila Tavares na FGV e com Priscila Martins em um fórum de Palmas tenha somente a ver com dress code, porque nenhuma delas estava nua, com roupas “insinuantes” ou com partes “íntimas” à mostra. Nenhuma das vestimentas feria a “moral e os bons costumes” da família tradicional brasileira nem aqui nem em Palmas. Acredito que essas reações mais tenham a ver com o machismo intrínseco na nossa sociedade, com a objetificação do corpo feminino que transforma qualquer pedaço de pele em agressão e atentado ao “pudor” e com o controle social — afirma.

 

Antiquados ou não?

Em um momento que a moda segue cada vez menos padrões e começa a (finalmente) deixar as regras de lado, poderia até parecer antiquado seguirmos cartilhas que nos dizem o que usar em determinadas ocasiões. Para Patrícia Pontalti, é justamente neste cenário em que tudo vira opção e nada é “errado” que o dress code pode ajudar, principalmente em situações como casamentos ou até em ambientes formais de trabalho:

— O dress code deve ser uma orientação e não uma proibição — argumenta. — Mas precisa acompanhar as mudanças. O dress code correto conversa com o tempo em que ele está inserido. Em casos como o da vereadora, acho que precisa de uma atualização urgente.

Para a consultora de moda, estar consciente dos códigos de vestimenta do ambiente que você frequenta ou vai frequentar – como um casamento, por exemplo – pode ser, inclusive, uma demonstração de respeito com quem te convida a estar ali.

— Em casamentos, seguir o dress code é um carinho com as pessoas que te convidaram. No trabalho também: ninguém vai de microssaia e decote profundo em um fórum, por exemplo. Pode ser estiloso, mas não é elegante — pondera. — Por outro lado, é cafona não aceitar camiseta nos dias de hoje, por exemplo. Assim como tênis, que homens não podem usar em algumas boates. Hoje o tênis é como a camiseta, considerado um item de moda, e muitas vezes custam mais do que um terno de alfaiataria. O dress code não é contra alguém, é a favor de te ajudar a se vestir melhor para estar em um determinado ambiente.

A advogada Priscila Martins, barrada no Fórum em Palmas por causa do comprimento do vestido

A advogada Priscila Martins, barrada no Fórum em Palmas por causa do comprimento do vestido

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