Artistas da música regional gaúcha recriam o visual da mulher campeira

Shana Müller:
Shana Müller: "Se comparar a forma como eu me visto com o que as gaúchas vestiam de fato no passado, meu visual é mais parecido do que i determinado pelo tradicionalismo". Foto: Andréa Graiz

Um passeio pelo Acampamento Farroupilha deixaria os tradicionalistas de outrora intrigados.
Estão lá, sim, os vestidos com a barra da saia no peito do pé, como manda o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), mas também uma profusão de chapéus, botas e ponchos em cortes, cores e saltos.
O mundo mudou, as mulheres mudaram, terão essas mudanças adentrado também o guarda- roupa das prendas de 2016?

Para melhor falar sobre mulheres e vestes tradicionalistas, a musicista e etnomusicóloga bajeense Clarissa Ferreira puxa da estante uma edição surrada de Nativismo – Um fenômeno social gaúcho, livro escrito pelo escritor e folclorista Barbosa Lessa (1929 – 2002). Trata- se de um testemunho em primeira pessoa do surgimento do MTG, no final da década de 1940. Clarissa cita o autor:

“E como é que é o vestido das moças? Como modelo, aproximado, só havia os vestidos caipiras, das festas juninas de São Paulo, ou as ‘folhinhas’ anuais distribuídas pela Cia. Alpargatas na Argentina. Paixão (Côrtes, folclorista e modelo do Laçador) encasquetou que deviam ser vestidos compridos até os tornozelos; eu argumentei que se nós, rapazes, estávamos trajando nossas costumeiras bombachas, não carecia que as moças se voltassem para tão longe nos antigamentes; isto não chegou a ser posto em votação, mas o bigodudo Paixão nos venceu pelo cansaço…”.

– Repara que, além de o vestido de prenda ser uma tradição inventada, as mulheres não foram consultadas sobre o que vestiriam. Isso, a meu ver, é reflexo do que mais falta à mulher no tradicionalismo até hoje. Um lugar de fala. A roupa, como todo traje, é uma expressão de algo.
Nesse caso, expressa que a mulher é um enfeite – explica Clarissa, estudiosa da cultura gaúcha e autora do blog Gauchismo Líquido, cujo nome faz referência ao sociólogo pós-moderno Zygmunt Bauman.

Paixão Côrtes discorda do termo “ inventada”.

– Não se trata de estilo. De gostar de vermelho ou não gostar de vermelho, disso ou daquilo. Se trata de uma pesquisa cultural. Os trajes se basearam no que tínhamos como referência. Dos registros das pessoas de como se vestiam seus avós, seus antepassados, e quando sequer havia registros fotográficos disso. Se trata de uma pesquisa séria sobre folclores, com a mesma seriedade científica com que eu pesquisava como agrônomo: com documentos e sem achismos – declara o tradicionalista, aos 89 anos.

Clarissa Ferreira

Clarissa Ferreira: “Será que um detalhe no meu calçado é o mais importante para uma tradição?” Foto: Bruno Alencastro

Violinista, Clarissa tem longa trajetória em eventos nativistas. Em uma transição que ainda não deu por terminada após dois anos cursando um doutorado no Rio, a instrumentista optou por não se submeter mais sem resistência a regras de vestimenta, o que a afastou um bocado da música regional:

– É complicado, porque para mim, musicista, é um mercado forte que posso estar fechando. Mas, sabe, agora em julho, por exemplo, fui ao Juvenart (Concurso Estadual de Danças Tradicionais Categoria Juvenil, em Santa Maria) e questionaram se a minha sapatilha estava de acordo com as regras. Será que um detalhe do meu calçado é o mais importante para uma tradição?

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Desse rigor dos trajes em eventos a cantora e jornalista Shana Müller entende bem. Frequentadora de festivais e CTGs desde a infância, chegando à Primeira Prenda juvenil do Estado em 1993, aos 13 anos, ela obedeceu a normas como “a barra corte godê, meio- godê, franzido, pregueado, com ou sem babados”, listadas nas Diretrizes para a Pilcha Gaúcha, documento oficial do MTG. Até que, por volta de 2000, Shana decidiu que não se apresentaria mais vestida de prenda.

– Sou uma artista antes de uma tradicionalista. Primeiro, tentei me apresentar de bombacha, mas eu sou baixinha e ancuda. Também não era um visual que me favorecia. Então, resolvi construir um estilo próprio para os shows – conta Shana.

Começou, então, uma busca por referências. Das viagens à Argentina, vieram alguns palas e ponchos que remetiam à cantora Mercedes Sosa. Da dança flamenca, a saia longa, mas solta, sem armação.
De culturas indígenas latino-americanas, a faixa de cores fortes que, na cintura, se torna uma espécie de corselete. E, por fim, chapéus e botas que tivessem como inspiração o próprio vestuário gaúcho, mas o masculino. Em 2004, quando lançou o primeiro álbum solo, a transformação visual da artista estava completa e começou a chamar a atenção no meio nativista. Embora Shana fosse respeitada pela trajetória desde a infância no movimento, houve dissabores. Como ser barrada em um festival em Dom Pedrito por não estar vestida de acordo.

– Fiz um bafão na época. Com o tempo, fui me incomodando menos. Lá pelas tantas, comecei a ver as gurias na plateia se vestirem como eu. O que acho mais curioso é que, no final das contas, se comparar a forma como eu me visto com a forma com que as mulheres gaúchas se vestiam de fato no passado, o meu visual é mais parecido do que o determinado pelo tradicionalismo – analisa a artista.

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A comparação vem ao encontro de outra crítica às vestes oficiais das prendas: a de que elas rejeitam elementos da verdadeira origem gaúcha, especialmente as culturas indígena e negra. Avessa aos vestidos desde criança e residente em São Luiz Gonzaga, a cantora e instrumentista Marianita Ortaça incorporou ao seu visual elementos que remetessem aos índios da região missioneira. Ganharam espaço a vincha – tira para adornar os cabelos, feita de couro ou palha –, as penas nos brincos e acessórios e os ombros à mostra.

Marianita Ortaça

Marianita Ortaça: “Um cuidado que tenho é de tornar o simples chique, pois a mulher gaúcha é simples por natureza” Foto: Juliana Dall Acqua, divulgação

– Mas não encontrei pronto. Sempre desenhei juntamente com minha mãe todas as roupas que uso. Um cuidado que temos é de tornar o simples chique, pois a mulher gaúcha é simples por natureza. E uso bastante roupas brancas, porque, além de transmitir paz e se destacar no palco, é uma espécie de marca registrada da nossa família – relata Marianita, filha do músico Pedro Ortaça.

Em 2014, depois de ouvir já há algum tempo lojas anunciando em rádios do Interior “roupas da Shana Müller”, a própria Shana resolveu lançar uma grife assinada, de fato, em seu nome. Com o tempo, espera que peças femininas relacionadas à cultura gaúcha sejam incorporadas ao dia a dia. Algo que, diz ela, com bombachinhas e vestidões, é impossível e termina por segregar ainda mais a mulher identificada com a cultura gaúcha:

– Gostaria de ver o mesmo que já acontece com outros elementos gaúchos. Hoje, eles nos parecem naturais, mas foram introduzidos da mesma forma. O chimarrão no escritório, as bombachas que os guris começaram a usar nos anos 1980, as alpargatas…

Buscar vias de integrar em vez de segregar. Defender uma miscigenação de estilos que pode fazer mais bem do que mal, no sentido de trazer mais mulheres e dar- lhe mais voz. E se equilibrar na difícil tarefa de respeitar um movimento, mas sem deixar de questioná- lo. Todos esses elementos ebulem na mesma chaleira quando se trata de mulheres e tradicionalismo. Em um programa Galpão Crioulo recentemente gravado e que ainda não foi ao ar, isso fica bastante claro. A apresentadora do programa, desde 2012, é a outrora “transgressora” Shana Müller (hoje em licença-maternidade). Uma das instrumentistas convidadas foi Clarissa Ferreira, a violinista do início desta reportagem. Na companhia de outros músicos, homenagearam o ali presente Paixão Côrtes, citado como o grande responsável pela concepção dos trajes femininos. Nenhum dos três perdeu o respeito e a admiração um pelo outro. Devagar, como uma milonga, as coisas evoluem.

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