Donna da minha carreira: “A cobrança sobre si mesma é a primeira grande diferença entre mulheres e homens no trabalho”

Foto: Omar Freitas
Foto: Omar Freitas

O segundo capítulo desta série de depoimentos sobre grandes questões da mulher brasileira contemporânea deveria se chamar Donna do meu dinheiro. A advogada Liane Bestetti, todavia, pediu para que o nome fosse trocado:

Sinto um ranço preconceituoso nessa expressão. Existe uma máxima igualmente preconceituosa que diz que o dinheiro da mulher é só dela. Um dinheiro para a mulher “ter as coisas dela”. O do homem é de ambos. Ora, não. O dinheiro da mulher é também para cuidar da comida, da casa, dos filhos. Para tudo isso, ela tem a carreira dela.

Essa lógica de atentar para o significado de cada palavra permeia a fala da profissional que deixou para trás o cargo de vice-presidente residente do Citibank, no início da década de 1990, para exercer o sonho de atuar como advogada no direito de família. Liane fala sobre mulher e trabalho. Os trechos em negrito no depoimento de Liane são seguidos de dados e avaliações de especialistas.

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“Quero deixar claro, antes de mais nada, que a minha história não é uma história de superação. Ou pelo menos não é mais do que a de nenhuma outra mulher que teve as devidas oportunidades. Eu tive oportunidades, e pessoas que me ajudaram.

O que não me impede de falar desse assunto – mulher e carreira – com bastante orgulho, porque minha fala faz justiça às mulheres da minha família. Sou descendente de imigrantes italianos e me criei ouvindo as dificuldades que os homens enfrentaram. Mas e as mulheres dessa história? Por certo, foram extremamente corajosas e desbravaram os caminhos tanto quanto seus pais e maridos.

Colocar o homem como o protagonista de uma história é um cacoete que vai das histórias de família às telas de cinema. O Instituto Geena Davis de Gênero na Mídia divulgou um estudo com base em filmes lançados no cinema entre 2006 e 2009 de censura até 13 anos. E, neles, apenas 29,3% dos personagens femininos tinham falas. As causas mais apontadas por profissionais da indústria do cinema foram o direcionamento dos filmes ao público masculino (43,7%) e a maior presença de homens nos bastidores da indústria (32%).

Cresci ouvindo minha mãe dizer: “estuda e trabalha, estuda e trabalha, estuda e trabalha”. Ela que sempre foi uma pessoa talentosa, mas que, por ter tido cinco filhos, deixou de lado sua carreira, abandonando o magistério para se dedicar, com exclusividade, à família. Assim, ter filhos e carreira era um paradigma interno que eu tinha o compromisso de quebrar.

Não se pode esquecer que a mulher ingressou no mercado de trabalho com as grandes guerras do século 20, isso faz o que, 100 anos? Isso, historicamente, é nada. E é tudo. Ainda hoje, apesar do tempo transcorrido desde então, não é difícil perceber resquícios do preconceito, algo como uma desconfiança velada (quando não aberta) da capacidade feminina.

A advogada Liane Bestetti comanda escritório de Direito Civil, Família e Sucessões que leva seu nome (Foto: Omar Freitas)

A advogada Liane Bestetti comanda escritório de Direito Civil, Família e Sucessões que leva seu nome (Foto: Omar Freitas)

E, da parte da mulher, vê-se uma cobrança exacerbada sobre si mesma. Na minha experiência, percebi que começam aí as grandes diferenças entre homens e mulheres no mercado de trabalho. Enquanto os homens encaram os erros como parte da vida, as mulheres tendem a superdimensioná-los. Não sei se as mulheres fazem isso porque a cobrança que lhes é endereçada é maior ou se são elas que não se permitem errar. Tudo fica resumido ao significado que o erro tem e com as escolhas de cada um.

A habilidade da mulher em ser multitarefa é uma realidade, mas nem tudo sairá perfeito, conforme explica Sheryl Sanderg, COO (Chief Operating Officer) do Facebook, em Faça Acontecer, livro em que investiga a ausência de mulheres em cargos de liderança. Ela cita a economista Sharon Poctzer: a retórica antiquada do “ter tudo” desconsidera a base de toda relação econômica: a ideia do perder aqui para ganhar ali. O segredo, segundo a especialista, é ser perfeccionista só no que é importante.

Isso é algo que observo demais no escritório, como advogada de família. As escolhas têm impacto futuro nas nossas vidas, e muitas vezes esquecemos desta verdade. Por exemplo, quando um casal decide que a mulher deixará de trabalhar fora para cuidar dos filhos, também deveria decidir como fariam no caso de um divórcio.

Mas não o fazem. Então, se o relacionamento termina, a mulher se vê sem renda, sentindo-se injustiçada. Já o marido, por ter de pagar-lhe pensão até que consiga retornar ao mercado, sente-se, também, injustiçado. Ambos esqueceram que tudo foi uma escolha. Dizem “não é justo!”, mas o conceito de justiça, normalmente, é o que vem ao encontro das nossas vontades, não é mesmo?

No meu caso, decidi que eu era uma profissional liberal e não iria deixar de exercer meu ofício por ter engravidado. Fiquei apenas dois meses afastada do escritório. Não estou recomendando que se faça isso, mas foi a minha decisão e tem sido a de muitas mulheres. Não foi fácil, mas foi possível. Claro que isso tem um preço. Eu não seria a Mãe do Ano, mas acredito que mais importante para o filho do que ter Mãe do Ano é ter mãe feliz. E, olha, eu sou uma profissional muito melhor depois de ter dado à luz. Mal consigo mensurar.

De acordo com Luciana Adegas, supervisora de recursos humanos da Metta Capital Humano, quanto mais obrigações a mulher tem fora do trabalho, como a chegada de um filho, melhor ela consegue organizar seu tempo, o que pode por vezes torná-la uma profissional ainda melhor do que antes do bebê.

Acho que vem de fábrica, na mulher, esse chip de fazer mil coisas ao mesmo tempo. Lembro de uma foto na Zero Hora, certa vez, que me marcou muito: era a Lya Luft trabalhando, olhando para a janela do escritório, e em meio à papelada, estava uma mamadeira. Quando se vê uma mamadeira na foto do escritório de um homem?

Reconheço que recebi muita ajuda, a começar por meu marido que foi sempre meu parceiro, dividindo a vida por igual. Já imaginou decidir trabalhar e ouvir do seu companheiro diariamente: “Está abandonando teu filho!”, “Mas que tempo tu vais ter para estudar?”. Tenho um respeito enorme por mulheres que superam relacionamentos assim, porque elas enfrentam o mundo dentro e fora de casa. 

No livro Opting Out (Escolhendo Sair), de 2007, a americana Pamela Stone apresenta um estudo sobre por que mulheres qualificadas deixam o mercado de trabalho: 60% das pesquisadas alegaram como principal motivo a falta de apoio do cônjuge na criação dos filhos e nas tarefas domésticas.

Não é à toa a enorme quantidade de famílias monoparentais do Brasil, lideradas por mulheres e auxiliadas por uma rede de outras mulheres: mães, filhas mais velhas, vizinhas, mães das coleguinhas dos filhos…

Segundo dados do IBGE divulgados em 2014, entre 2000 e 2010 o número de famílias chefiadas por mulheres cresceu de 24,9% para 38,7%. Entre todas as composições de família, as monoparentais formadas por uma mulher com filhos somam 12,2%. Apenas 1,8% das famílias é composta por um homem com filhos.
Outro dado que chama atenção é quando duas famílias dividem o mesmo teto. Nesses casos, 54,4% dessa segunda família é composta por uma mulher com filhos e sem cônjuge.

Por outro lado, justiça seja feita: há uma mudança em curso. Há uma década, a cada 10 processos de divórcio que passavam pela minha mão, em nove não se questionava a guarda a ser exercida pela mãe. Hoje, em cada 10, em seis há algum tipo de questionamento, pois o pai também quer participar ativamente da vida dos filhos, sendo presente em sua criação. Essa é, portanto, uma geração que vai criar filhos melhores e mais fortes. E mulheres, eu espero, com melhor autoestima e visão mais equilibrada sobre seus casamentos.

Mas, sabe, há uma palavra que eu ainda ouço muito das mulheres: medo. E cada vez que eu ouço essa palavra da boca de uma mulher, me arrebata um sentimento estranho, na medida em que as vejo, na maioria das vezes, muito corajosas, com histórias de luta e superação. As mulheres não se dão conta da coragem e da capacidade de resistência que elas têm. Quer mais coragem do que acordar quatro filhos às 5h da manhã para deixá-los em uma creche, pegar dois ônibus e estar no trabalho às 7h com disposição para trabalhar o dia inteiro? Que coragem enorme esta mulher tem!

Quanto a mim, decidi sair do mercado financeiro e voltar à advocacia quando me dei conta de que, naquela economia maluca do início dos anos 1990, por mais que eu trabalhasse, não detinha qualquer controle no resultado final. Mas o que pesou mesmo foi me dar conta de estar longe do que sentia como minha vocação. Hoje, vejo o quanto ter sido coerente comigo fez sentido e só me trouxe realização.”

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Acompanhe a série Donna do Meu, que discute grandes questões femininas contemporâneas por meio de depoimentos pessoais.

Conheça  a história de Giovana Grando, a primeira personagem da série, em Donna da minha beleza:

:: “Por que eu estar fora de um padrão de beleza é uma questão tão forte para você?”

 

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