Casamento e traição: é possível um relacionamento sobreviver à infidelidade?

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Por Jane E. Brody, The New York Times

Há vários motivos para o fracasso de um casamento, mas um dos mais comuns e mais difíceis de superar é a descoberta de que um parceiro “traiu” o outro.

Coloco a palavra entre aspas porque a definição de infidelidade pode variar muito. Embora quase sempre envolva atos sexuais explícitos com outra pessoa além do cônjuge ou companheiro, há casais que se separam por causa do consumo clandestino de pornografia, uma relação puramente emocional sem nenhum contato sexual, casos virtuais ou mesmo flerte ou admiração por outra pessoa.

A infidelidade não é um fenômeno novo e, segundo alguns conselheiros matrimoniais, ela pode ocorrer até mesmo em relacionamentos felizes.

Segundo a Associação Norte-Americana para a Terapia Matrimonial e Familiar, pesquisas nacionais indicam que quinze por cento das mulheres e 25 por cento dos homens têm casos extraconjugais. A incidência é cerca de vinte por cento maior quando são incluídos os relacionamentos emocionais e sexuais sem relações físicas. Conforme mais mulheres foram saindo de casa para trabalhar, as chances de terem um caso aumentaram proporcionalmente.

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Muito já se escreveu e se escreve sobre a perfídia; entre os livros mais recentes, dois títulos excelentes e esclarecedores: “The State of Affairs: Rethinking Infidelity” da psicoterapeuta nova-iorquina Esther Perel, e “Healing From Infidelity”, da psicoterapeuta Michele Weiner-Davis, de Boulder, Colorado. Ambos são baseados na vasta experiência das autoras no aconselhamento de casais cujos matrimônios naufragaram por causa de casos extramaritais.

A boa notícia é que, dependendo do que causou a escapadela e da determinação do casal em ficar junto, a infidelidade não precisa acabar em divórcio. De fato, Perel e outros especialistas concluíram que o casal que escolhe se recuperar e reconstruir após uma traição, geralmente acaba com uma relação mais forte, mais amorosa e mais compreensiva que antes.

“A pessoa traída precisa saber que não é vergonha continuar casada, que não é capacho, e sim uma guerreira. O bem que causa à família superando a dor é incomensurável”, afirma Weiner-Davis.

Perel admite que “algumas traições são um golpe fatal para o relacionamento”, mas escreve: “Há casos que podem estimular uma mudança muito necessária. A traição machuca fundo, mas a ferida pode acabar cicatrizando. Muita gente se preocupa muito com o bem-estar do parceiro, mesmo o tendo enganado e mentido, da mesma forma que quem foi traído pode continuar amando quem lhe mentiu e quer encontrar uma maneira de ficarem juntos”.

Pois foi exatamente nessa situação que uma amiga minha se viu após descobrir o caso do marido. “A princípio só queria expulsá-lo de casa, mas aí percebi que não queria me divorciar. Minha mãe se separou e acabou tendo que criar três filhos sozinha. Não quis repetir minha infância; queria que meu filho, que na época tinha dois anos, tivesse um pai presente, mas também sabia que, se fosse para ficarmos juntos, teríamos que fazer aconselhamento matrimonial.”

Depois de mais ou menos umas doze sessões, ela já tinha desenvolvido uma visão crítica da situação. “Sei que não sou perfeita. Estava muito preocupada com o cuidado do nosso filho e meu marido acabou não recebendo de mim aquilo de que precisava. Todo mundo deveria ter a capacidade de perceber que pode comete erros e por que o faz. Aprendemos como conversar e a ouvir o outro. Eu o amo e o respeito, e fico feliz por não termos nos separado. Ele é um pai maravilhoso, um companheiro que me apoia e, embora nosso casamento não seja perfeito – tem algum que seja? –, cuidamos e damos força um ao outro. Lidar com a traição e superá-la tornou nossa relação mais forte.”

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Como na história da minha amiga, a maioria dos casos extraconjugais é resultado da insatisfação com o relacionamento, estimulada pela tentação e a oportunidade.

Um parceiro, por exemplo, pode passar horas incontáveis no trabalho, cuidando da casa, dedicando-se a atividades externas ou mesmo às redes sociais, negligenciando assim as necessidades emocionais e sexuais do outro. Geralmente o traído não tem noção do que está faltando no relacionamento e nem suspeita do problema que vem crescendo há tempos.

Ou a complicação pode ser resultado de uma questão pessoal, como a incapacidade de lidar com conflitos, medo da intimidade, inseguranças arraigadas ou mudanças nas circunstâncias da vida que roubam da relação conjugal a atenção e o afeto que a sustentavam.

Porém, tirando a incompatibilidade irreversível ou a violência física e/ou emocional, com ajuda profissional e a vontade mútua de preservar o casamento, os terapeutas garantem que o casal tem boas chances de superar o trauma da infidelidade e evitar o que seria um desgaste ainda maior, ou seja, o divórcio.

Weiner-Davis observa que “com exceção de casos extremos, como violência física/psicológica continuada ou vício”, o divórcio mais causa do que resolve problemas, conclusão que a levou a escreveu o livro “Divorce Busting”.

A terapeuta admite que a recuperação de uma infidelidade é um processo árduo e não pode ser apressado. Apesar disso, como escreve em “Healing From Infidelity”, “muitos clientes revelam que, se não fosse pela traição, talvez nunca teriam percebido, discutido e sanado as questões que minavam a base de seu relacionamento”.

Nesse caso, em vez de destruir o casamento, a pulada de cerca age como catalisador de mudanças positivas. Em seu livro, ela destaca as tarefas que tanto o traído quanto o traidor devem realizar para compreender melhor e suprir as necessidades emocionais e físicas um do outro.

Tanto ela como Perel concluíram que, com o benefício de um bom aconselhamento, alguns casais “se divorciam” de seus antigos casamentos para começar um novo relacionamento, mais honesto e amoroso.

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