Cinco mulheres incríveis contam o momento em que declararam: #SouDonnaDeMim

Seja Donna de si mesma.

Da sua origem, do seu corpo, do seu trabalho, do seu tempo, do seu prazer, dos seus gostos, das suas (im)perfeições. Seja donna de suas escolhas. Donna assim mesmo, com “nn”. Nesta edição especial de final de semana, a Revista Donna lança a campanha #SouDonnaDeMim e reafirma o direito e a delícia de cada mulher ser quem realmente é e buscar a melhor versão de si mesma. Convidamos cinco mulheres que fazem parte de nossa história – quatro delas já estamparam nossa capa – para contar o momento em que assumiram o comando da própria história.

A cantora Negra Jaque abraçou com o hip hop sua identidade e sua missão como mulher negra e porta-voz da periferia. Bia Kern vestiu o capacete rosa e fundou uma ONG, a Mulheres em Construção, para quebrar o tabu de que há trabalhos que só homens sabem e podem fazer. A modelo plus Arantxa aprendeu a dizer ao mundo: sou uma mulher gorda bonita, parem de se preocupar com o meu peso! Diante de um diagnóstico de câncer, Flavia Maoli descobriu-se senhora do próprio tempo e agora dedica parte dele a pacientes que enfrentam a mesma doença. E a escritora Carol Teixeira percebeu logo cedo que a sexualidade feminina vai muito além do prazer – é empoderamento.

Esses depoimentos contam um pouco da história, das vontades e dos desafios de cada uma de nós.

Donna do meu trabalho, por Bia Kern

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Difícil saber em que momento exatamente me tornei dona de mim, porque é um processo que cresce dentro da gente em vários pequenos episódios. Então, digo o seguinte: o momento em que me tornei dona do meu nariz foi aquele em que quebrei a primeira regra sem sentido.

A mulher é cercada delas: dizem o que ela pode ou não pode vestir, quem ela pode ou não pode namorar, no que ela pode ou não trabalhar. Eu decidi, a começar por mim mesma, a desrespeitar a regra das regras: a de que há coisas de homens e coisas de mulheres. Resolvi mostrar que mulheres não são coitadinhas. não há nada que elas não possam fazer. O projeto Mulheres em Construção, claro, veio dessa convicção. Uma mulher não pode ser pedreira? Por quê? Por que não pode carregar peso. Ué, mas e se duas mulheres carregarem juntas, não pode?

Então, foi isso. Começamos a capacitar mulheres para a construção civil em 2006, quando todos me diziam que eu era louca. Mais de 10 anos depois, nosso principal problema é o excesso de demanda. A ideia vai além de dar emprego. É dar à mulher independência, dignidade, renda para sustentar os filhos, tenha ou não marido. E a essa palavra da moda, a sororidade, unir uma outra: oportunidade.

*Bia Kern comanda a ONG Mulheres em Construção, que capacita mulheres para a construção civil desde 2006. Em 10 anos, o projeto já formou mais de 4 mil profissionais. Em 30 de setembro de 2012, Bia foi capa de Donna.

Donna da minha origem, por Negra Jaque

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Eu me tornei dona de mim conforme fui me entregando a fundo para o hip hip. Porque o movimento te dá uma construção de identidade e de autoestima fora de série. É começar a se enxergar. Eu sou uma mulher. Eu sou uma mulher negra. Eu sou uma mulher negra que é mãe. Eu sou uma mulher negra que é mãe e professora.

Isso me trouxe para um lugar no mundo e me deu noção da minha responsabilidade. O hip hop começou para mim lá em 2006, decolou em 2012 e se tornou a minha vida desde o ano passado. A partir desse lugar do mundo, de cima do palco, a mulher negra enxerga os dois lados. Por um lado, a gente se revolta. Porque se pergunta: ué, por que a marca chamou aquela garota e não eu? Por que ela tem patrocínio e eu não? Qual das duas tem cara de periferia?

Mas tem o lado emocionante. Imagina a sensação de um dia ser professora e no outro ver as aluninhas recortando uma foto tua na revista para o dia da consciência negra. Te marcar no Facebook pra mostrar que ela arrancou a capa da revista e fez de pôster no quarto. Comemorar que te viu na TV. Que assistiu ao teu videoclipe. Vir te perguntar como ela deixa o cabelo dela igual ao teu. Poder olhar no olho dela e dizer: tu é forte, guria, tu é bonita, tu é uma negona como eu.

*Jaqueline Trindade Pereira, a Negra Jaque, é rapper, mãe de Erick, de nove anos, professora na Escola Rei Arthur e moradora do Morro da Cruz. Ela ilustrou a capa de Donna sobre feminismo negro em 23 de julho de 2016.

Donna da minha beleza, por Arantxa Von Appen

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Tenho a impressão de que, antes de ser uma modelo plus size, eu não havia encontrado o meu papel no mundo. Não sabia bem quem eu era, para que servia. Desde 2012, quando a dona da marca Chica Bolacha, de Porto Alegre, se interessou por mim em vez da menina que deveria ser a modelo de um ensaio, comecei a perceber que eu era uma mulher gorda, bonita, e que outras meninas e mulheres gordas poderiam se inspirar em mim.

Hoje, percebo que a sociedade é movida a dinheiro, e, por isto, nos é imposto um padrão de beleza impossível de propósito, para que muita gente lucre em cima da frustração das mulheres que nunca conseguirão aquele corpo ‘perfeito’. É um exercício para toda mulher olhar para o espelho e enxergar a beleza: a curva, o sorriso, e não aquilo que impõem como defeito: o peso, a estria, a celulite.

Viver de bem com o meu corpo é uma luta diária, porque a gordofobia é mais do que um preconceito, é um dogma: ‘ser gordo é errado, não é saudável’. Há pouco, fui à médica e ela adiantou que preciso perder peso. Todos os exames estavam excelentes, mas igual ela recomendou uma nutricionista. Meu peso é minha característica e está tudo bem comigo, gente, fiquem tranquilos.

*Arantxa Von Appen desfila e posa para diferentes publicações e para marcas plus size desde 2012. A pelotense foi uma das estrelas do ensaio Meu Corpo de Verão, um manifesto pela aceitação e diversidade publicado na Revista Donna de 21 de janeiro deste ano.

Donna do meu tempo, por Flavia Maoli

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Quando a gente é jovem, se sente como se estivesse ensaiando viver. Não refletimos muito se nossas escolhas são realmente nossas ou fruto da expectativa alheia. Aos 23 anos descobri que tinha câncer. Em um primeiro momento, essa notícia me caiu como uma sentença de morte. Mas logo percebi que a morte sempre foi uma certeza da vida – o câncer foi apenas um ‘aviso prévio’, um lembrete de que a vida é curta e de que não temos garantias.

Durante o tratamento, entramos em um modo de sobrevivência, focando as energias na cura. Mas, passada essa fase, sofremos uma pressão social para voltar ao nosso estilo de vida anterior, como se o câncer tivesse sido um resfriado. Não é. Depois que descobrimos que temos prazo de validade nesse mundo, queremos usar nosso tempo da melhor maneira possível. Gastar tempo e saúde com assuntos que não nos acrescentam nem nos fazem feliz é um desperdício de vida. E é muito difícil ir contra esse padrão social.

Eu me tornei dona de mim quando percebi que meu tempo é só meu, de mais ninguém. Ter tido câncer duas vezes antes dos 30 anos me fez focar no que eu quero ser, e no que eu quero deixar no mundo. Retomei paixões antigas, como a escrita, que hibernava em mim há anos. Hoje, meu trabalho com o blog e a ONG é, acima de tudo, ajudar pessoas com câncer a viver melhor, aproveitar seu tempo e tornar-se donas de si.

*Flavia Maoli deu início ao blog Além do Cabelo e à ONG Projeto Camaleão, que neste mês conseguiu recursos para sua sede via financiamento coletivo. Ela foi finalista do Prêmio Donna Mulheres que Inspiram deste ano.

Donna do meu prazer, por Carol Teixeira

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*Arte de Élin Godois com finalização de Michel Fontes

Desde muito cedo, entendi que eu era dona da minha história. Cresci em um ambiente matriarcal, liderado por uma mãe fortíssima com mais três irmãs. Ambiente totalmente feminino, meu pai morreu cedo. Por isso, para mim, o poder feminino não era passível de questionamento: a mulher podia tudo e pronto. Com o tempo fui descobrindo minha própria maneira de me apropriar da vida.

Descobri que o empoderamento feminino se dá muito também por meio da posse da nossa sexualidade. Escrevo há muitos anos sobre sexo, estudo há muito tempo o assunto justamente por achar que o domínio do nosso prazer, a posse do próprio corpo e a liberdade para sentir nos faz donas da nossa história. Não é um assunto menor: essa busca por nossa sexualidade arquetípica nos leva a níveis muito profundos de compreensão de nós mesmas e de força e poder.

Curiosamente, isso ainda desafia a visão do senso comum. O prazer feminino sempre foi tabu. Mas concordo com Lacan quando ele diz: “o corpo, ele devia deslumbrá-los mais”. Nossa sociedade ocidental sempre valorizou muito a racionalidade em detrimento do corpo, mas pra mim a busca está justamente ali, nas descobertas através da sensorialidade, da vivência, do corpo.

*Carol Teixeira é filósofa. Escreve sobre sexo e comportamento na Revista Vip, no site A Obscena Senhorita C e é autora de três livros, entre eles o romance “Bitch” (Ed Record, 2016). Ela posou para a capa de Donna em 30 de junho de 2013.

Reportagem: Caue Fonseca
Produção: Débora Tessler (TSSLR Conteúdo)
Arte: Élin Godois
Fotografia: Fotos de Arantxa, Bia, Flavia e Jaque por Raul Krebs (Estúdio Mutante) e de Carol por Antonio Brasiliano e Victor Lara (tratamento de imagem)
Tratamento de Imagem: Jorge Gariba.
Make: Jusse Pitana, Mariana Freitas e Mariela Mendes (The Beauty 247)
Cabelo: Joseph Lossalda (The Beauty 247)

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