Com a cara no sol! Fenômeno das drag queens conquista espaço cativo na noite de Porto Alegre

Quarta-feira, 22 de abril, 21h. A fila começa a aumentar na lateral do Bar Opinião, no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre. Dois rapazes chegam de um jogo pela Copa Libertadores que movimentara a cidade naquela tarde e param em frente ao portão, pedindo o isqueiro de uma menina de cabelos vermelhos e botas até o joelho acompanhada de amigos. Perguntam do que trata a festa.

– Drags – responde a moça.

Intrigados, os dois se olham e riem. Enquanto isso, mais se juntam à fila de pessoas que, como as inspiradoras da festa, brincam com acessórios e roupas que poderiam pertencer a uma estrela hollywoodiana. No entanto, a maioria ali são homens – que, por diversão, hobby ou até mesmo profissão, usam vestidos, sapatos com saltos que desafiariam até a mais corajosa das mulheres, perucas e muita maquiagem para criar a ilusão de corpo e personalidade femininos. Mas ser uma drag queen não é apenas questão de aparência: é de ousadia e interpretação que elas são feitas. Com muito senso de humor, algumas são mais performáticas – fazem shows, dublam ou dançam coreografias -, enquanto outras apenas brincam com o figurino e os trejeitos. Há quem diga que a expressão “drag queen” teria sido cunhada por Shakespeare em referência aos atores responsáveis pelos papeis femininos de suas peças – “drag” seria uma abreviação para “dressed as a girl” (“vestido como uma garota”) -, embora existam poucos registros sobre a origem do termo.

Em frente à casa noturna, segue aumentando a fila para a quinta edição da Xtravaganza Drag Party, uma das primeiras da região Sul a trazer shows internacionais: as atrações principais são oriundas do RuPaul’s Drag Race, reality show considerado o grande estopim para o renascimento da cultura drag não só nos Estados Unidos, berço da popularização do movimento nos anos 1970, mas mundo afora. Após desfrutar de certo sucesso musical nos anos 1990, a norte-americana RuPaul tornou-se estrela de dimensões mundiais no comando da competição entre drag queens, acompanhada por centenas de milhares de telespectadores desde a estreia, em 2009 – atualmente, a sétima temporada é transmitida pelo canal por assinatura Multishow. O legado de RuPaul, que fez ressurgir o movimento drag, caiu como uma luva na indústria cultural. Há duas semanas, por exemplo, a cantora Miley Cyrus levou 30 drags para a apresentação que encerrou o MTV Video Music Awards, umas das principais premiações da música pop norte-americana. A iconografia relacionada ao universo drag extrapolou os guetos para se tornar mais um dos elementos que compõem a multifacetada rede da cultura pop.

(Kevork Djansezian/GETTY IMAGES NORTH AMERICA/AFP) No palco do Video Music Awards da MTV, há duas semanas, Miley Cyrus cercou-se de drags

(Kevork Djansezian/GETTY IMAGES NORTH AMERICA/AFP) No palco do Video Music Awards da MTV, há duas semanas, Miley Cyrus cercou-se de drags

Em cidades como São Paulo, existem casas de shows de drag queens com capacidade para 1,5 mil pessoas. Já em Porto Alegre, elas estavam restritas a poucos e diminutos espaços antes de passarem a ocupar noites concorridas em casas noturnas mais tradicionais. Com o alcance do reality show televisivo, uma nova geração começa a entender o salto alto e a maquiagem como forma de expressão – e também de negócio. Considerada a primeira drag queen profissional de Porto Alegre, Gloria Crystal, 50 anos, usa RuPaul para definir sua arte:

– Ela não tem silicone, não toma hormônios, usa espartilho e enchimentos. Um homem de quase dois metros de altura que se transforma em uma belíssima mulher.

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Tão bela como Nicolle Di Armanni, criada pelo maquiador Tulio Di Armanni, 20 anos, que pegou um trem de Canoas a Porto Alegre para não perder a festa naquela mesma noite de abril no Opinião.

– O reality faz com que a gente se inspire, porque elas são rainhas, são glamurosas – define Armanni.

(Carter Fotografia/Xtragavanza, divulgação) Nicole foi inspirada nas drags do programa de RuPaul

(Carter Fotografia/Xtragavanza, divulgação) Nicole foi inspirada nas drags do programa de RuPaul

Negociando uma versão inglesa e outra alemã do programa, RuPaul já afirmou que adoraria produzir uma “corrida das drags” brasileira. Sob o comando de Silvetty Montilla e com a atriz gaúcha Titi Müller e o estilista Alexandre Herchcovitch como jurados, uma versão tupiniquim independente batizada de Academia de Drags chegou a ter cinco episódios no YouTube – o primeiro com cerca de 300 mil visualizações.

Resgatadas de um universo restrito e levadas ao mainstream mundial por meio da música e da televisão, também por aqui as drag queens vêm tomando novos espaços na cidade para, de maneira bem-humorada e com dose extra de glamour, colocar cada vez mais a cara no sol. Elas (ou eles, rótulos não são uma questão) vieram para ficar.

Conheças as drag queens da nova geração

Para simbolizar a nova geração de transformistas da Capital, formada por personalidades diversas – de estudantes a gerentes comerciais, de promotoras culturais a performers -, Donna reuniu 10 presenças marcantes nas principais noites da cena na cidade: conheça-as melhor a seguir.

Luz na passarela: lá vêm elas

Numa mesa entre o bar e o palco do Opinião, já superada a fila do lado de fora, uma senhora de cabelos brancos aguarda o início do show. Acompanhada da filha, a estudante de publicidade Ingrid Carstens, 24 anos, a dona de casa Ilma Segurão Carstens, 67 anos, é fã das roupas superproduzidas das competidoras do programa de RuPaul – do qual Ingrid é fã de carteirinha. E o que a filha acha de levar a mãe a festas com homens vestidos de mulher?

– Não vejo muitas pessoas da idade dela aceitando e valorizando essa arte. É muito bacana ela se interessar e querer conhecer. Para ela, esse universo é uma grande novidade e ela gosta de estar sempre antenada.

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(Dimitriu Ritter/Agência RBS) Aos 67 anos, a dona de casa Ilma Cartens é fã das roupas superproduzidas das drags

Também fazia companhia a Ilma a farmacêutica Luciane Ortiz, 42 anos – que, ao contrário das amigas, gosta mais de RuPaul do que a própria filha, com quem assistiu às primeiras temporadas e se contaminou pela febre queen.

– É uma arte que deve ser cada vez mais difundida, porque é muito bonito ver o trabalho deles. São artistas com um potencial enorme. Eu simplesmente adoro! – faz questão de ressaltar.

(Arquivo pessoal) Luciane Ortiz não resistiu e foi tirar uma foto com a estrela drag Adore Delano, de quem é fã

(Arquivo pessoal) Luciane Ortiz não resistiu e foi tirar uma foto com a estrela drag Adore Delano, de quem é fã

Enquanto o show não começa, o público se espalha na pista até a aparição da apresentadora da noite, a drag queen Pamela Blow. Após agradecer a presença de todos e pedir uma salva de palmas para a jornalista Gisele Ramos, com quem divide a produção e a organização da festa, é hora de chamar Adore Delano.

– Oi, migas! – dispara Adore, com um sotaque carregado ao microfone.

Oitava ex-participante de RuPaul’s Drag Race a aterrissar em Porto Alegre, Adore Delano é o norte-americano Danny Noriega, 25 anos, que ficou conhecido em 2008 ao participar da sétima temporada do reality musical American Idol. Mesmo eliminado nas semifinais, as respostas afiadas e a personalidade extravagante fizeram de Danny uma personalidade no YouTube. Foi depois de assistir a um show em uma boate de Hollywood, em meados de 2009, que Danny criou Adore. A aprovação para participar da sexta temporada de RuPaul’s veio quatro anos depois, quando ficou entre as três finalistas. Logo que deixou a competição, Adore lançou seu primeiro álbum, intitulado Till Death Do Us Party, que entrou para a lista da Billboard dos cem álbuns mais vendidos daquele mês.

(Xtravaganza Drag Party/Divulgação) No palco do Opinião, na Cidade Baixa, Adore provocou filas e fez jutas de amor ao Brasil

(Xtravaganza Drag Party/Divulgação) No palco do Opinião, na Cidade Baixa, Adore provocou filas e fez jutas de amor ao Brasil

No palco do Opinião, enquanto segurava uma bandeira verde-amarela, Adore lembra que, toda vez que entrava no Twitter, as pessoas diziam “Adore, come to Brazil”.

– RuPaul’s Drage Race definitivamente mudou o modo como as pessoas enxergam a arte drag queen. Nós estamos tendo a oportunidade de trabalhar de verdade para conquistar nosso próprio dinheiro. Sou muito grata por isso – conta Danny/Adore, enquanto arruma na cabeça uma bandana com a estampa da bandeira do Brasil, presente que ganhou de uma fã ainda no aeroporto.

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Em meio à profusão de tipos na noite do show, os menos extravagantes são os que, ironicamente, causam um maior estranhamento. Entre eles, o designer gráfico Roberto Azeredo, 28 anos, que diz compartilhar com Adore Delano o apreço pela originalidade. Engana-se, no entanto, quem pensa que a ligação com o programa de drags, que começou a assistir por influência de um amigo, pode atrapalhar na hora de paquerar as mulheres. Para Azeredo, RuPaul é um assunto que sempre surge – e até ajuda na hora do flerte. No entanto, as drags não costumam permear as conversas dele com os amigos do futebol, por exemplo, que encontra pelo menos duas vezes na semana.

– Meus amigos sabem que eu assisto, mas é como assistir a qualquer outra série. Não tem muito um clima de “isto é hétero ou homo”. Tenho um amigo que costuma dizer que eu sou um “gay hétero”, porque eu gosto de RuPaul, mas o que tu assistes não define tua sexualidade, e as pessoas estão começando a descobrir só agora que não dá para ficar categorizando tudo – explica o designer.

 Do underground ao grande público (e mulher também pode)

Do banheiro do apartamento que divide com dois amigos no bairro Cidade Baixa, o produtor cultural Marcinhò Zola, 24 anos, corre para atender o telefone ao primeiro toque, interrompendo o minucioso barbear pela metade. Do outro lado da linha, a maquiadora Sabrina Soares avisa que chegaria em pouco tempo. Juntos, ambos finalizariam a caracterização de Marcinhò como a drag queen Pamela Blow para a edição de aniversário de um ano da festa Priscilla, que começaria em menos de três horas na Casa de Teatro de Porto Alegre.

– A Priscilla teve a missão de levar a cena drag para o grande público e foi essencial para a popularização desse movimento em Porto Alegre. Quando fizemos a primeira edição, eu ainda não tinha assistido ao programa do RuPaul, mas ele já causava uma efervescência por aqui – conta o produtor.

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(Direção criativa: Mauren Motta/Fotografia: Joana Carolina)

Em meio a livros e CDs – Marcinhò também é DJ -, Sabrina chega e ajeita a maleta de maquiagens, tirando dela um estojo com pelo menos quinze pinceis de todos os formatos e tamanhos: é no detalhismo com que ela os maneja que Marcinhò dá espaço a Pamela. Com os braços cobertos de tatuagens e um olhar concentrado, Sabrina maquiou a primeira drag pouco mais de um ano atrás com a ajuda de vídeos que assistia no YouTube. Sua missão é criar uma nova superfície na pele para esconder os traços masculinos. Para isso, usa base uma dúzia de vezes, corretivo e pó compacto, além de várias texturas distribuídas em muitas camadas. Quem vê até imagina o trabalho que Marcinhò terá ao chegar em casa para remover a maquiagem, mas o segredo é o mesmo de qualquer mulher: um lencinho demaquilante e, em minutos, tudo está resolvido.

A relação de Marcinhò com a noite porto-alegrense começou cedo, mas não antes do que sua ligação com os palcos, que vem desde os 10 anos de idade. Deixou o teatro para se dedicar exclusivamente à produção cultural quando, na montagem de um espetáculo de dança, em 2011, teve o primeiro contato com a cena drag – um dos integrantes do elenco era a drag queen Charlene Voluntaire.

– Drag queen é uma forma artística de expressão, e ser drag trouxe a atuação de volta a minha vida – conta.

(Uriel Gonçalves/Priscilla, divulgação)

(Uriel Gonçalves/Priscilla, divulgação)

Parceira na organização da festa Priscilla, a também produtora cultural Nanni Rios, 28 anos, chega ao apartamento de Marcinhò carregando um cheesecake de cereja com uma vela de aniversário e aguarda Sabrina terminar a maquiagem do amigo para depois fazer a sua. Em todas as edições da festa, ela costuma se transformar em uma drag queen – sim, mulheres também podem ser drags.

– É uma das artes mais subversivas e bonitas por possibilitar tanto trânsito e tanta experimentação, assim como as artes clássicas. Drag queen também é arte porque possibilita todas as experiências como qualquer outra linguagem artística.

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Nanni é uma das poucas mulheres em Porto Alegre que se monta como drag queen. O motivo foi o mesmo de Marcinhò: o clima da festa. Sem o costume de usar salto ou maquiagem, resolveu experimentar e se inspirou em personagens como Colúmbia, do musical britânico Rocky Horror Picture Show, e no Dzi Croquettes, grupo de dança e teatro que durante o período da ditadura ousou questionar os ditames de gênero e sexualidade no Brasil. Tal facilidade de experimentação não ocorreu da mesma forma para Marcinhò, que se negou a colocar um salto para a primeira edição da festa. Na segunda, ele resolveu colocar uma peruca verde, mas se recusou a tirar a barba. Até que, na terceira vez, o produtor deixou seu lado teatral falar mais alto.

(Uriel Gonçalves/Priscilla, divulgação)

(Uriel Gonçalves/Priscilla, divulgação) Nanni Rios, 28 anos, é uma das poucas mulheres na Capital que se monta como drag queen: ela é parceira de Pamela Blow na produção da festa Priscilla há mais de um ano

– Eu tinha um pouco de preconceito, não entendia bem como arte. Só fui entendendo do ser drag queen quando comecei a fazer – pondera.

Para incentivar a experimentação, eles resolveram dar desconto no ingresso para quem estivesse devidamente caracterizado. De lá para cá, as drag queens começaram a invadir todas as edições do evento. Foi então que nasceu Pamela, que não é uma diva, mas uma mulher excêntrica e cheia de energia.

– A drag sempre foi muito marginalizada, escanteada do mundo e até da cena LGBT. Existe muito preconceito dos próprios gays. Alguns amigos meus não aceitavam e não entendiam. Minha mãe não gostava, mas, aos poucos, ela, que tem 50 anos, foi entendendo aquilo como arte e vendo de uma forma diferente. Até que ela me deu uma carona e eu estava montado.

“E o que ela disse?”, pergunta a reportagem de Donna.

– Tu tá muito linda! – lembra Marcinhò, deixando um sorriso escapar.

Sai o preconceito, entra o respeito

Atento às histórias de amigos que tiveram que escolher entre a personagem drag e um relacionamento, o produtor cultural avisa que Pamela possui um papel cativo em sua vida.

– Não posso deixar de ser a Pamela por causa de alguém. Também não acho que eu precise me apresentar para uma pessoa: “Olá, sou drag queen”. Acredito que as coisas vão ficando claras com o tempo.

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As situações de incompreensão não se limitam a família e relacionamentos. No caso de Nanni, as pessoas ainda não entendem como uma mulher também pode ser drag queen. Certa vez, a produtora entrou caracterizada em um táxi. Curioso, o taxista puxou assunto e, quando Nanni explicou que era uma drag queen, sucederam-se perguntas sobre como ela conseguia mudar a voz e deixá-la tão feminina, acreditando que Nanni era um homem sob a maquiagem. Depois da corrida, a produtora contou a história em seu perfil no Facebook e, nos comentários, muitos amigos drags trataram de pedir o contato do motorista: ainda são muitos os relatos de artistas que dizerem ter sido recusados por taxistas por estarem montados.

– Existe todo tipo de preconceito, muitos confundem com travestis. Em geral, alguns taxistas se recusam a levar, que é o mínimo se contarmos as vezes que agridem ou insultam – conta Nanni.

Quem chega para buscar Pamela é Edison Dorneles, 38 anos, taxista em Porto Alegre há pouco mais de dois. Que dispara:

– Sabe, eu vou ser bem sincero. Acho que todas as pessoas têm que ser bem tratadas, independente de classe, sexo, credo ou opção sexual. Todos temos direito de ir e vir, independente da escolha de para onde vamos. A gente tem um único papel nisso: respeitar.

Veja o making of do ensaio:

Drag business: investimento e profissão como qualquer outra 

Às duas horas da tarde de um sábado, o estudante de propaganda e publicidade Rafael Mello, 23 anos, percorre as araras da loja de um shopping na Zona Sul de Porto Alegre. Na seção feminina. A ocasião pedia um figurino impecável: horas mais tarde, Rafael daria vida a sua versão mais glamorosa, a drag queen Sarah Vika, na comemoração do quarto aniversário da Astro, casa noturna localizada na avenida Goethe. Se houve quando Rafael se transformasse em Sarah em troca de ingressos para festas, hoje ele nem coloca a peruca sem saber o cachê. Isto porque o investimento que Sarah requer exige um retorno. As perucas adquiridas em um site internacional custam cerca de US$ 100 cada (valor que, em lojas no Brasil, pode chegar a R$ 800), mas o maior investimento de Rafael está nas maquiagens: já foram mais de R$ 5 mil nos últimos três anos.

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(Direção criativa: Mauren Motta/Fotografia: Joana Carolina)

Mais tarde, já em frente à Astro, Sarah Vika desembarca do táxi acompanhada de Isis King e sob aplausos de “Divas! Maravilhosas!”. Conhecida pelo humor sarcástico e o belo par de pernas, Isis (se pronuncia “aisês”, ressalta) é vivida pelo administrador de empresas Pedro Henrique Celuppi, 30 anos. Se o forte de Sarah está na maquiagem e nas perucas, o closet de Isis é de causar inveja: enquanto Pedro tem quatro pares de sapato, Isis tem 30 e, em dois anos e meio, repetiu o figurino apenas três vezes.

– Quando entendi que Isis é uma das coisas que quero fazer para me tornar um profissional de sucesso, percebi que ela começou a me exigir investimento financeiro e também intelectual, para a formação da persona. Isis, além de uma expressão artística, é também business – ressalta.

O ritual de embelezamento das mulheres sempre pareceu algo mágico para Pedro, que, aos 20 anos, criou com dois amigos o “Passo Fundo Fashion Show”, espetáculo de moda na cidade natal no qual estava liberado o uso de lençóis, fronhas, alfinete, joaninha e muita criatividade para apresentar os looks.

– Depois dessa brincadeira, vi que isso era uma praia para mim. Comecei a assistir RuPaul na primeira temporada e pensei: “Meu Deus, é isso!”. Tanto que, na empresa em que eu era coordenador, teria uma festa de Halloween e avisei meus colegas de trabalho que iria de mulher – lembra Pedro.

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(Direção criativa: Mauren Motta/Fotografia: Joana Carolina)

Com um vestido longo lilás emprestado e usando apenas batom e delineador, Pedro apresentou a festa com tanto sucesso que Silvinha Wireless – como foi batizada na época – foi a estrela de outras edições do evento. Anos mais tarde, Pedro mudou-se para Porto Alegre e iniciou um curso de produção de moda – no qual conheceu Rafael, que atuava como modelo. O que ambos tinham em comum? Sim, RuPaul.

Nascido em Cuiabá, Rafael cresceu em Caxias do Sul, onde estudou teatro, e aos 17 anos mudou-se para Porto Alegre, passando a frequentar a noite da Capital. Como fotógrafo em festas, conheceu o atual namorado, que o apresentou ao reality de RuPaul.

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– Primeiro, eu me perguntei: “Por que eu assistiria a um programa de drag queens?”. Eu tinha preconceito, todo mundo tem preconceito com o que é diferente. No meio gay, existem segmentações, e esses grupos não aceitam uns aos outros. Existe uma resistência grande em relação a drag queens, transexuais e travestis. E também muita confusão em relação a isso.

Quando o estudante percebeu tratar-se de uma forma de expressão, surgiu a ideia entre um grupo de amigos, incluindo Pedro: “E se a gente se montar?”. Era 2012, e o sucesso na festa fez surgir o convite para estrelarem o vídeo de divulgação de uma noite com temática drag. Para os créditos, precisavam de nome e sobrenome: nasciam Sarah Vika e Isis King.

Assista ao vídeo:

Depois disto, os convites de outras festas começaram a surgir. Além de fotógrafa, Sarah tornou-se performer e Isis passou a ser chamada para ser DJ: a dupla deixava de ser hobby e se tornava business. Atualmente, a renda de Sarah é praticamente igual à que Rafael tem na agência em que trabalha. No mês de julho, o estudante foi convidado para ministrar um curso de maquiagem para drags para uma turma de dez pessoas, engordando ainda mais o orçamento. Já Pedro tem planos de levar Isis para a Blue Space, em São Paulo, considerada a maior casa de shows drag do Brasil. Com palco giratório, telão de led e espaço para 1,5 mil pessoas, os cachês chegam na casa dos milhares.

(Arquivo pessoal)

(Arquivo pessoal)

– A Sarah é uma grande realização de expressão artística, de criatividade, de homenagem às mulheres que eu admiro – comemora Rafael.

Mesmo quando estão atuando apenas como DJs, as duas dão show. Em um hora de um setlist recheado de pop, elas coreografam e dublam o tempo todo, para o delírio do público – muitos não descansam enquanto uma delas não lhes estende a mão.

– Jamais achei que colocar salto e peruca poderia chegar nisso. Depois, entendemos que vai além do figurino e da maquiagem: as pessoas se sentem libertadas por tabela – finaliza Rafael.

“Ser drag é um ato político”

Gloria Crystal, 50 anos, foi uma das pioneiras do cenário drag de Porto Alegre. Para muitos, Mommy apelido de Gloria é a primeira drag queen da Capital, a primeira artista a deixar os guetos gays para fazer performances em aniversários de integrantes da alta roda porto-alegrense e em boates frequentadas pela elite.

A carreira de Gloria começou no final dos anos 1980, quando fazia covers de RuPaul – que, nessa época, já divulgava nos Estados Unidos seu primeiro álbum. Nos últimos anos, muitas coisas mudaram na vida da artista, que se afastou dos palcos para entrar na vida política. O número expressivo de votos que recebeu em 2012, na candidatura à Câmara Municipal, deixou Gloria na suplência e trouxe o convite para assumir como secretária adjunta de Livre Orientação Sexual. Foi em seu gabinete, no quarto andar do número 1643 da Rua dos Andradas, que ela recebeu Donna.

– Hoje eu dei uma caprichada na maquiagem, coloquei esse casaco com um pouco de brilho e uma sandália, mas aqui o meu uniforme é terninho básico e salto baixo, porque já sou uma senhora. Mas, à noite, eu deixo a secretária de lado e viro a Gloria diva – exclama.

(Miltinho Talaveira, arquivo pessoal)

(Miltinho Talaveira, arquivo pessoal)

Gloria iniciou no ativismo LGBT há 18 anos, o que lhe rendeu o papel de apresentadora da parada gay anual de Porto Alegre. E é ela quem faz questão de ressaltar que nem tudo é glamour: ainda estão na memória as vezes em que entrava em algum ônibus no Centro e as pessoas se recusavam a se sentar ao lado porque tinham medo de serem contaminadas pelo que chamavam de “peste gay”. Era início dos anos 1980 e a AIDS acabara de ser descoberta.

– Não precisamos que nos aceitem. Mas exigimos que nos respeitem – diz Gloria

Gloria Crystal com o amigo Miltinho Talaveira

Gloria Crystal com o amigo Miltinho Talaveira

No cargo que ocupa, ela elabora políticas públicas voltadas à comunidade LGBT de Porto Alegre, mas seu verdadeiro trabalho, segundo ela própria, é baseado no amor:

– Hoje se fala em políticas públicas LGBT, coisa que há 30 anos nem se pensava. No Norte e Nordeste, se mata praticamente uma travesti por dia. Por isso eu digo, querido: ser drag hoje em dia é um ato político.

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Em janeiro deste ano, Glória oficializou o relacionamento de 15 anos com o companheiro, Thiago Pereira da Silva, no dia Dia da Visibilidade Trans. Com vestido branco e rosas da mesma cor nas mãos, ela entrou no Chalé da Praça XV para confirmar os votos junto ao amado. Nas duas décadas em que milita, Gloria não só viu muita coisa acontecer como também precisou fazer uso de seu rebolado e humor para enfrentar o preconceito. Quando alguns grupinhos caçoavam de seu andar ao som de “tu é gay, tu é gay que eu sei”, Gloria cantava e dançava junto para que todos, no fim, pudessem rir.

(Fernando Gomes/Agência RBS) Em janeiro deste ano, Gloria oficializou a união com Thiago Pereira

(Fernando Gomes/Agência RBS) Em janeiro deste ano, Gloria oficializou a união com Thiago Pereira

– As pessoas hoje pensam antes de apontar, entendem que não pode xingar. Não pode mesmo! Não fico gritando “E aí, heterozinho?”, por que tenho de ouvir “E aí, veadinho?”– questiona.

Junto a essas memórias, Gloria carrega o brilho de lembranças dos anos em que calçava um salto de 15 centímetros de altura e colocava uma peruca loira por pura diversão. Quando começou a se montar, drag queens eram chamadas de artistas transformistas, mas pouquíssimas faziam performances. Foi dublando a atriz e cantora italiana Rita Pavone, sucesso mundial nos anos 1960, que Gloria começou a ganhar os palcos de casas noturnas de Porto Alegre. E foi enquanto dublava I Will Always Love You a bordo de um vestido preto tomara que caia que o publicitário Miltinho Talaveira, 51 anos, a viu pela primeira vez:

– Eu via (a Gloria) naquele palco brilhando como se fosse a própria Whitney Houston e achava o máximo. Eu a apelidei de “mommy” e a carregava como se fosse minha boneca para todos os lados. Fora do palco ela era tímida, mas quando subia era uma diva.

Talaveira foi um grande incentivador dos primeiros passos da carreira de Gloria. No início, Mommy se dividia entre a Pantheon, boate refinada localizada na avenida Independência, e a L’entourage, danceteria menos imponente, situada na avenida Farrapos. Precavida, andava sempre em grupos de uma boate à outra. Se refrigerante fosse dinheiro, Gloria seria rica, como ela mesma diz: seu cachê variava entre uma e duas latas de refrigerante na época em que começou a subir aos palcos para performar. No início dos anos 1990, um empresário do Rio de Janeiro trouxe para o Estado a boate Discretus Bar, que pagou o primeiro cachê em dinheiro para Gloria.

Depois de tantos enfrentamentos, ela demonstra a sabedoria adquirida em anos de luta para ser quem ela verdadeiramente é.

– A tua identidade de gênero pertence a ti. As pessoas me perguntam “O que tu és, Gloria?”, e eu respondo “Eu sou a Gloria Crystal”, porque eu posso ser quem eu quiser. Se eu quiser ser transexual, eu posso. Se eu quiser ser travesti, eu posso. Para a nova geração, não sou trans ou travesti, sou uma diva. E isso faz uma diferença enorme na vida de um artista. Porque antes de qualquer denominação, eu sou uma artista – finaliza.

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