Comandadas por mulheres, feiras de rua se popularizam nas praças de Porto Alegre

A publicitária Pamela Morrison, idealizadora da feira Me Gusta (Foto: Maurício Capellari, especial)
A publicitária Pamela Morrison, idealizadora da feira Me Gusta (Foto: Maurício Capellari, especial)

Rossana Silva, especial

Em um raio de poucos metros, um grupo de amigas confere as novidades na arara de uma nova marca de roupas, uma garota leva os braços atrás do pescoço mostrando ao namorado um colar feito com material reciclado, pequenos grupos conversam em torno de uma chopeira artesanal.
E há, nos arredores, quem esteja ali para curtir uma música, fazer um lanche no meio da tarde, encontrar amigos ou apenas dar uma banda. Não estamos falando de um shopping ou estabelecimento comercial, mas de um espaço que tem se consagrado como um ponto de comércio, entretenimento e confraternização, as feiras ao ar livre da Capital.

Pouco frequentadas até algum tempo atrás, áreas verdes como a Praça Garibaldi, na Cidade Baixa, transformam-se em dia de feira em um espaço efervescente de pessoas e atividades culturais. Foi lá que a Me Gusta comemorou, no último final de semana, dois anos de atividades, reunindo uma média de 5 mil pessoas nas edições mais recentes. Com mais de cem expositores entre acessórios, vestuário, brechós, decoração e food trucks de comida e bebida, a Me Gusta é uma das precursoras em levar eventos a praças como a própria Garibaldi (foto abaixo), à Daltro Filho, no Centro, e à Itália, no Menino Deus.

Foto: Maurício Capellari, especial

Foto: Maurício Capellari, especial

Enquanto os corredores eram ocupados pelas banquinhas, dezenas de visitantes estendiam cangas pelo gramado para lagartear na tarde de sol. No estande da Erva Doce, criada há nove meses pela estilista Paula Bandeira, 32 anos, uma garota retirou um vestido pelo qual havia se encantado duas semanas antes, na feira Tô na Rua, no Vila Flores. Como a peça ficou grande, Paula confeccionou um tamanho menor especial para a cliente e combinou que fosse retirado no próximo evento de rua. Paula é responsável por toda a produção das roupas: é ela quem desenha, compra o tecido, costura, faz estampas e atende com os pés descalços na grama.

– A feira funciona como uma vitrine para mim. As pessoas vêm para cá aproveitar o dia e já conhecem a minha marca – diz a estilista.

Além de revitalizar espaços públicos, ampliar a oferta de atividades ao ar livre e dar espaço para quem está começando na moda, feiras como Tô na Rua, Brechó de Desapegos, Multipalco e Open (veja serviço mais abaixo) guardam a semelhança de serem idealizadas por mulheres.
Para criar a Me Gusta, a publicitária Pamela Morrison, 30 anos, buscou inspiração no extinto Mix Bazaar, no Cais do Porto, onde garimpava peças e acessórios na adolescência, e na diversidade da Feria Tristán Narvaja, em Montevidéu, onde se encontram desde antiguidades e roupas até queijos e verduras. A estreia da Me Gusta foi realizada na quadra do Acervo Independente, na Rua General Auto, no Centro Histórico. Após entregar de mão em mão 5 mil flyers convidando para as primeiras edições, a publicitária encontrou nas redes sociais a melhor maneira de divulgação. A demanda levou a feira a se tornar mensal – e, em algumas ocasiões, até quinzenal.

Foto: Maurício Capellari, especial

Foto: Maurício Capellari, especial

Depois de se instalar na Rua da República e no Largo Zumbi dos Palmares (Epatur), vislumbrou áreas verdes como sedes em potencial para reunir brechós, points de alimentação, oficinas e atividades culturais.

– Antigamente, as praças eram locais de conversa e de encontros, mas ultimamente estavam paradas, as pessoas tinham medo de passar por elas. Quero incentivar o hábito do turismo de feira em Porto Alegre, uma cidade que tem potencial para ser um polo cultural nessa área – diz Pamela.

Com mulheres no comando, o público que circula pelas feiras é misto. A variedade de atrações agrada a homens e a mulheres. Curioso dizer que organizadores inicialmente afirmam ter colocado bancas de cerveja para atrair o público masculino, mas Donna observou em andanças para esta reportagem que a fila é equilibrada. Ao olhar para as mãos de quem espera para ser servido diretamente das chopeiras, também se nota uma das ações adotadas para diminuir o acúmulo de lixo. Ao invés dos descartáveis, as tendas de bebidas trabalham apenas com copos reutilizáveis. Paga-se R$ 5 por um copo que pode ser levado para casa. Quem quiser usá-lo só durante o evento, devolve e recebe o dinheiro de volta. Uma boa prática dos organizadores para evitar a sujeira nos espaços públicos.

CONVÍVIO INCENTIVADO
Feiras nos moldes das realizadas em Porto Alegre também são vistas no Exterior e em capitais como Rio, São Paulo, Florianópolis e Maceió. E chegaram para se integrar em definitivo à programação das cidades. Elas trazem para o dia a dia um tema conhecido como “direito à cidade”, conceito proposto por Henri Lefebvre no livro homônimo, de 1968, quando define o direito de acesso à vida urbana. Para o diretor do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-RS), Marcelo Arioli Heck, a proposta das feiras vão além do aspecto comercial, dando outro sentido a espaços de uso coletivo.

– Este convívio ao ar livre tira dos moradores a ideia de individualismo, de se trancarem em seus apartamentos ou só frequentarem espaços comerciais e fechados, para viver nos lugares realmente públicos, que são os que dão um significado real à cidade – observa o arquiteto, que defendeu dissertação de mestrado na UFRGS sobre espaço público e manifestações urbanas.

Foto: Maurício Capellari, especial

Foto: Maurício Capellari, especial

A transformação da própria Praça Garibaldi (foto acima), local pouquíssimo frequentado durante a semana, é um dos exemplos. Criadora do Brechó dos Desapegos, evento de moda sustentável itinerante, a também publicitária Natalia Guasso celebra o revival do local. Por ter vivido na infância na Avenida Venâncio Aires, testemunhou a decadência do espaço que, nos anos 90, recebia uma feira de antiguidades.

– A Garibaldi parece ter sido pensada para abrigar esse tipo de evento: tem caminhos para colocar as araras, palco no meio e até área para crianças. Porto Alegre mudou de uns tempos para cá. Nunca tinha nada para fazer nos finais de semana, agora tem sempre mil eventos _ comemora.

Brechó de Desapegos: Desapegos na rua

Uma constatação recorrente a quem muda de endereço – a de que o conteúdo de muitas das caixas de mudanças já não é usado no dia a dia – levou a publicitária Natalia Guasso, 33 anos, a organizar um bazar entre amigas para “eliminar os excessos”, encontro divulgado no Facebook em dezembro de 2011. O que seria uma ação eventual para se desfazer de peças sem uso atraiu dezenas de pessoas a um estúdio de música da Cidade Baixa. A grande procura de mulheres dispostas a comprar e vender roupas seminovas fez o Brick de Desapegos se tornar mensal e se estabelecer no Bar Ocidente, em 2013.

Crédito: Lauro Alves

Crédito: Lauro Alves

No ano passado, o evento começou a ganhar edições especiais ao ar livre, o Brechó de Desapegos. Realizado uma vez por mês, instalou-se em locais como a Área 51, no bairro Petrópolis, e na Rua Miguel Tostes, no Bom Fim. A ideia é reunir desde itens pessoais até novos nomes da moda. Cada edição é planejada para interagir com o local onde será realizada, reunindo, além de moda, atrações gastronômicas e musicais.

– O Brechó nunca vai ser igual, em cada lugar ele terá algo que tem a ver com o espaço, trazendo elementos. Estamos em um novo lugar, mas pensando nas coisas que o público daquele espaço curte.

Foto: Fábio Alt, divulgação

Natália Guasso, idealizado do Brick de Desapegos e do Brechó de Desapegos (Foto: Fábio Alt, divulgação)

A ideia de passar adiante itens que já não são utilizados ultrapassa o guarda-roupa. Objetos de arte e decoração também podem ser “desapegados”, explica Natalia:

– É uma proposta de repensar o consumo, partindo do seu próprio. O desapego é um ato mais profundo do que parece inicialmente. Após anos consumindo fast fashion, muitas pessoas se dão conta de quantas vezes compraram algo e nunca usaram. Desde que começamos a organizar o Brique e o Brechó, passamos a entender isso, porque também fazíamos parte desta loucura.


Tô na Rua: Temática e itinerante

Há três anos e meio, quando a estudante de Direito Susana Jung, 26 anos, organizou o primeiro evento ao ar livre, na Orla do Guaíba, em Ipanema, três expositores se inscreveram. Já no último Tô na Rua, feira itinerante por ela realizada desde julho de 2015, 332 quiseram participar. Após curadoria, 70 deles levaram seus produtos para o Vila Flores. Nesse meio tempo, Susana acompanhou uma mudança de cultura dos eventos de rua.

– A crise, se tirarmos o “s”, vira “crie”. Muitas pessoas aproveitaram para contornar a situação econômica empreendendo. Antes, havia preconceito de vender produtos na rua, associava-se aos camelôs. Hoje, vender nas feiras de rua é mais interessante do que estar em um shopping – acredita Susana.

Foto: Lauro Alves

Foto: Lauro Alves

Desde o lançamento, na Rua da República, o evento itinerante já passou pelos bairros Floresta, Bom Fim, Centro e Bela Vista, sempre com uma temática especial, como Divas e Brasilidades. Com o nome inspirado em protestos nos quais o “Vem pra rua” se tornou marca dos manifestantes, a Tô na Rua quer proporcionar aos frequentadores uma ocasião lúdica na qual é possível “estar na rua” em um momento em que a insegurança preocupa os porto-alegrenses. Em outubro, a edição especial Oktoberfest reuniu centenas na Praça Daltro Filho, em pleno Centro – muito deles até fantasiados.

– É uma oportunidade de viver um dia mágico, estar com a família, comer um lanche e comprar algo legal a preço acessível – opina Susana.

A próxima edição do Tô na Rua vai homenagear a Consciência Negra, neste final de semana na Zona Sul.

Multipalco: União de araras

Vizinhas de feira na calçada da Rua João Telles, no Bom Fim, a produtora Iágoda Melissa, 39 anos, do Grand Bazaar, a atriz Lívia Perrone, 37, e a bióloga e professora Juliana Pandolfo, 36, do Brique e Brinque, decidiram juntar araras em uma grande feira com atrações gastronômicas e musicais no Multipalco do Theatro São Pedro. A primeira edição, na semana passada, reuniu 80 expositores e três shows em uma tarde em que cerca de 3 mil pessoas passaram pelo local – o dobro do esperado pela organização.

Foto: Carlos Macedo

Foto: Carlos Macedo

– É um evento muito familiar, crianças e pets são bem-vindos. Tem lugar para todos e ainda há espaços diferentes a descobrir para levar as pessoas em Porto Alegre. Queremos contribuir na retomada do Centro Histórico, um lugar incrível e com potencial pouco aproveitado – diz Lívia.

A realização do evento no Multipalco alinhou o desejo tanto do trio de organizadoras quanto da direção do espaço. Se em outros pontos da cidade as feiras revitalizaram locais abandonados, no Multipalco a proposta é aproveitar a data para aproximar o público de um espaço nobre do qual os porto-alegrenses ainda são pouco íntimos. Com o sucesso da estreia, a experiência deve ganhar novas edições.

Open Feira de Design: Espírito portenho

A proposta de dar visibilidade ao design independente começa já no material de divulgação da Open Feira de Design, que reúne cerca de 40 expositores no Pátio Ivo Rizzo, sempre no segundo sábado do mês. A cada edição, um novo estúdio ou artista gráfico é convidado a fazer a identidade visual do evento. Realizada pela primeira vez em dezembro de 2015, a feira não tardou a se integrar à programação do Moinhos de Vento, entrando na rota de descolados e de passeios em família pelo bairro.

Foto: Bruna Antunes, divulgação

Foto: Bruna Antunes, divulgação

A inspiração para fazer em Porto Alegre um evento com proposta diferente à dos realizados em outros pontos da cidade surgiu para a professora de design Camila Farina, 35 anos, durante viagens a Buenos Aires.

– Eu era superapaixonada pelas feiras de Palermo, que reúnem novos designers e criadores. Quando começamos a atender a programação cultural do Pátio Ivo Rizzo, vimos que aquele lugar tinha um espírito portenho – conta Camila, que é diretora da Maria Cultura, agência de curadoria cultural que organiza a Open.

Já que a ideia é abrir espaço para novos nomes de todo o Estado, há rotatividade de marcas e distribuição proporcional entre moda, decoração, mobiliária, acessórios, brinquedos e outros produtos com pegada autoral. Em um espaço de poucos metros, encontra-se itens tão diversos quanto vasos autoirrigáveis, roupas infantis sem gênero, joias, brinquedos educativos e luminárias multifuncionais. Em dia de Open, o Pátio Ivo Rizzo reúne ainda atrações gastronômicas, cerveja artesanal, espumante e discotecagem dos locutores da Unisinos FM para as 3 mil pessoas que circulam por lá.

Veja algumas das próximas feiras na Capital

Open Feira de Design
• Sábado, 19 de novembro, das 11h às 20h
• Pátio Ivo Rizzo (Félix da Cunha, 1.213)
• A curadoria da feira selecionou 35 expositores que apresentam novidades das mais diversas áreas do design, atrações gastronômicas e seleção musical a cargo da Rádio Unisinos FM.

Brick de Desapegos
• Domingo, 20 de novembro, das 12h às 19h
• Margot (João Alfredo, 577, Cidade Baixa)
• Com participação do curso de Design de Moda da Faculdade Senac, traz desapegos dos professores, workshop e oficina de estamparia, além de brechós e marcas de moda autoral. Haverá espaço de beleza com corte de cabelo, manicure e make up.

Tô na Rua – Zona Sul
• Domingo, 20 de novembro, das 11h às 20h
• Rua Leblon, esquina com Av. Guaíba, Ipanema
• A orla do Guaíba receberá dezenas de expositores ao longo do dia. O luau na areia com Bibiana Petek, Hotel Cigano e B. Kings começa às 16h e promete ser o ponto alto do dia.

Brechó de Desapegos
• Sábado, 3 de dezembro, das 12h às 20h
• Mao Sut Thailand Bar (Ramiro Barcelos, 1.374)
• Mari Kruguer e Mari Tadewlad são as convidadas desta edição do evento com pegada sustentável que reunirá 30 expositores. Comidinhas, customização e corte de cabelo também são atrações.

Me Gusta
• Domingo, 4 de dezembro, das 12h às 22h
• Largo Archymedes Fortini (embaixo do viaduto da João Pessoa com a Loureiro da Silva)
• Mais de cem expositores, bandas, gastronomia e cerveja artesanal são o tradicional combo da feira itinerante que chega pela primeira vez ao largo nas imediações do Parque da Redenção.

Mercado Vintage
• Sábado, 10 de dezembro, das 13h às 20h
• Casa De Cultura Mario Quintana (Andradas, 736)
• O jeans é o destaque da última edição do evento em 2016, para a qual os expositores estão preparando a curadoria de roupas, acessórios e decoração de época. Tudo com música boa rolando na Travessa dos Cataventos da charmosa Casa de Cultura Mario Quintana, que também terá especiarias gourmet e cerveja artesanal. Procure chegar cedo, pois a feira é concorrida e os melhores garimpos não duram nas araras (foto abaixo).

Foto: Bruna Antunes, divulgação

Foto: Roberta Perin, divulgação

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