Como foi contar para minha família que eu sou lésbica: leitora compartilha como assumiu sua sexualidade

Foto: Arquivo pessoal
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Um dia, Angélica Luisa Spengler decidiu que era preciso entender o que estava acontecendo com ela. Quando compreendeu que gostava de garotas, precisou também se preparar para outro desafio: contar para a família e assumir publicamente o namoro com aquela que até aquele momento muitos pensavam ser sua melhor amiga. A seguir, a fotógrafa de Campo Bom, de 23 anos, conta como foi esse processo vivido no fim da adolescência.

É sempre muito difícil para mim parar para contar a minha história. Acredito que seja assim pra maioria das pessoas. Nasci em uma família composta por um pai, uma mãe e dois irmãos mais velhos. Por ser a mais nova e talvez a mais desejada (risos), sempre fui criada como a princesa da família. Me chamavam de boneca, me vestiam de rosa e sempre me mimaram muito.

Com o passar dos anos e a adolescência chegando, fui descobrindo gostos e novas sensações. Tive vários namoradinhos, mas apenas um eu apresentei pra minha família. E, pra minha surpresa, quem mais me ajudou nessa “apresentação” foi o meu irmão do meio, logo ele, que sempre foi tão ciumento (ou mais) do que o meu pai. Que sempre dizia que eu nunca ia poder namorar porque ele não ia deixar. Enfim, foi um namoro que durou quatro meses – e confesso que foram quatro meses beeem estranhos. Ele me tratava superbem, porém eu não sentia vontade de estar perto dele, não fazia questão de sair com ele, nada. No mesmo dia em que eu fiquei com ele pela primeira vez, nos 15 anos da minha melhor amiga, nós (meninas) nos reunimos no banheiro para experimentar, pela primeira vez, nos beijarmos. Aquilo foi louco, uma mistura de sensações, mas a gente só conseguia rir. Uma semana depois, esse garoto me pediu em namoro. Eu estava confusa, só pensava no beijo que dei nas minhas amigas. Todas as vezes que eu e meu namorado entrávamos em assuntos que envolviam homossexuais, ele mudava de semblante, ficava grosseiro, dizia que achava uma aberração e que não aprovava esse tipo de coisa. Após alguns episódios como esse, decidi terminar o namoro e tentar entender o que estava acontecendo comigo.

E o fato de eu ter beijado as minhas amigas e aquilo ter me tocado me deu pistas. Eu ia para as festas e ficava com mais gurias do que guris. Na verdade, eu só ficava com alguns guris pra não sair malfalada, já que naquela época não era tão comum meninas beijando meninas. Era tudo “modinha”. A modinha das minhas amigas passou, e a minha, não.

Sempre tive uma relação muito boa com a minha mãe, bem de melhores amigas mesmo. Mas naquela época chegamos a um ponto em que descobri que ela havia marcado um encontro com duas amigas minhas para saber o que estava acontecendo comigo, por que eu tinha mudado tanto. A partir desse dia, resolvi contar a ela o que mais estava me deixando aflita. Aproveitei que estávamos só eu e ela em casa, chamei-a no quarto e disse que queria conversar. O olhar dela era de medo misturado com alívio, por eu tê-la procurado ela. Contei que tinha beijado algumas meninas e que estava fazendo aquilo com uma certa frequência em festas, mas que ainda gostava de meninos e ficava muito mais com eles do que com elas (mentindo para mim mesma). Ela chorou, disse que ia passar e que eu estava confusa, que era só uma fase. Apesar de eu saber que aquilo talvez não iria passar, concordei, para acalmá-la.

Com 17 anos, tive a minha primeira namorada. Lembro até hoje como aquilo chocou meus amigos. Perdi o contato de muitos, por sinal. Passava na rua, e alguns não me cumprimentavam mais. Minha família não sabia de nada nem desconfiava. A não ser a minha avó, que sempre questionava a minha mãe: “A Angélica não vai namorar nunca mais?”.

Foto: Arquivo pessoal

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A cada dia que passava eu tinha mais certeza de quem eu era. Entre amores e desamores, foi no meu aniversário de 18 anos, comemorado em uma balada de Novo Hamburgo, que eu conheci o amor da minha vida, uma garota. Ficamos sem compromisso por uns seis meses, até que eu decidi pedi-la em namoro. Foi um passo importante e bem difícil na minha vida. A adolescente que, dois anos antes, olhava-se no espelho e não se identificava conseguiu superar essa angústia e pedir uma garota em namoro. Só para constar: ela aceitou! Estamos juntas há cinco anos.

No início, apesar de lindo, era bem difícil. Queríamos estar juntas todos os dias, mas nos víamos somente nos finais de semana. Nos encontrávamos na sexta-feira e só desgrudávamos no domingo. Não demorou muito para as nossas famílias começarem a desconfiar. “Mas que tipo de amizade é essa?”
“Tu não vai mais pra festa?” “E as tuas outras amigas?” Perguntas como essas eram frequentes em ambas as casas.

Passaram seis meses de namoro, colocamos nossa primeira aliança de compromisso. Vieram mais perguntas que a gente não sabia como responder.

Depois de um ano juntas, as famílias começaram a entender o que estava acontecendo. No começo foi meio conturbado, principalmente depois que começamos a postar fotos nas redes sociais com legendas intrigantes. Problemas de aceitação na casa dela e na minha. Amig@s que não gostavam da gente juntas. Entre muitas outras barreiras. A única certeza que tínhamos era: a gente não vai desistir! Já se passaram cinco anos, o pior já passou, nossas famílias sabem de tudo e desistiram de nos fazer desistir. Apesar do começo duro e de ter que fingir que era somente mais uma amiga, hoje ficamos tranquilas sabendo quem está do nosso lado.

A mãe dela não lidou bem no início, mas hoje vive me convidando para almoçar na casa dela e fazer passeios. Adora reclamar da bagunça que a Briane, minha namorada, faz em casa. Vivemos uma vida normal, de paz. E minha mãe é um anjo, sempre perto de nós duas. Meu pai sabe que namoro, mas nunca tocou no assunto, apenas convida eu e a Briane para os eventos de família.

Enfim, apesar de todos os problemas, sei que não sofro metade do que muitos LGBT+ sofrem. Sigo aquilo que me faz bem e feliz. Sou feliz com a vida que levo. Eu me amo e amo as pessoas que estão ao meu lado. Torço para que, um dia, todo esse desamor e toda essa falta de empatia acabe. A gente só quer amar em paz, deixando o mundo, que anda tão cinza, mais colorido e cheio de amor.

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