Como os casais podem dividir melhor o trabalho doméstico e o cuidado com os filhos

* Por Stefanie Cirne, Especial

Um dia qualquer na casa da jornalista e socióloga Ana Cardoso terminou com uma conversa séria entre ela, o marido – o comunicador Marcos Piangers – e a filha mais velha, Anita, 11 anos. Chegando em casa após uma jornada de trabalho, Ana percebeu que dedicaria as poucas horas antes de dormir a dar comida para as crianças (ela também é mãe de Aurora, quatro anos), lavar roupas e cumprir outras tarefas domésticas acumuladas. Decidiu, então, tomar uma atitude: listou todas as obrigações diárias e, ao lado de cada uma, escreveu o nome do responsável. Praticamente, só dava Ana.

A tabela não promoveu apenas a redistribuição de tarefas na família Cardoso Piangers. Foi parar também no livro A mamãe é rock, que Ana acaba de lançar, provocando cada casal a preenchê-la e reacendendo o debate que nunca sai de cena: como encontrar o equilíbrio na divisão dos trabalhos da casa?

— Não coloquei a tabela no livro para resolver os problemas da casa de cada mulher, mas acho que ela tem o poder de criar reflexão — explica a autora. — A partir daí, pode surgir o diálogo e uma mudança.

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Os números indicam que é preciso mesmo avançar nesta questão: dados do IBGE mostram que as mulheres dedicam mais que o dobro de tempo do que os homens às tarefas domésticas: são 25,3 horas semanais para elas contra 10,9 horas para eles – que mantêm essa mesma média há 10 anos, apesar de terem reduzido a carga horária na jornada de trabalho fora de casa neste período.

— Mudam os lares e as condições financeiras, mas a divisão do trabalho doméstico acaba sobrecarregando as mulheres em todos os níveis — diz a psicóloga Fabiana Verza, doutora em Psicologia Social pela PUCRS e terapeuta de família e casal, destacando que, mesmo quando a mulher não se ocupa tanto com o lar, é comum que outra, familiar ou contratada, assuma o cuidado da casa e das crianças no lugar do companheiro.

À medida que as questões de gênero se popularizam e as famílias se diversificam, aumenta a consciência de que a casa também é responsabilidade dos dois – e o desafio passa a ser transformar a teoria em prática. Para a relações-públicas Fernanda Luna Telichewsky, 34 anos, e o marido Edgar Telichewsky, o acordo 50-50% já é realidade. Os dois compartilhavam as responsabilidades da casa desde antes do nascimento de Davi, um ano e oito meses.

— Não existe para a gente uma delimitação de tarefas entre homem e mulher — conta Fernanda. — Quando um ou outro não pode estar em casa é complicado, porque nós realmente somos uma equipe.
Um estímulo extra para dividir as tarefas: estudos da Universidade de Alberta (Canadá) e da Universidade Estadual da Geórgia e da Cornell University (EUA) apontam que os casais que compartilham o serviço doméstico transam com mais frequência e estão mais satisfeitos com a qualidade do sexo.

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A união faz a força

A experiência de Ana, Fernanda e dos consultórios terapêuticos oferecem dicas valiosas para quem precisa negociar o trabalho em casa. Confira o que pode facilitar a conversa com a família:

Se estiver se sentindo esgotada, não hesite em falar. O jogo mental é um dos principais fatores de desgaste nos relacionamentos.

— Tem uma questão na conjugalidade de que um acha que o outro adivinha o que ele ou ela está pensando — explica Patrícia Scheeren, doutora em Psicologia pela UFRGS e especialista em terapia de família e casal pelo Instituto da Família de Porto Alegre (INFAPA).

Ao invés de esperar a iniciativa do outro, é melhor ser objetiva quanto ao que não está funcionando e dar sugestões do que ele pode fazer.

Converse com calma e com tempo. Há poucas chances de que as coisas se resolvam no calor de uma briga ou cinco minutos antes de sair para o trabalho. Reservar momentos para colocar as coisas na mesa diminui a frequência das discussões e as chances de o casal recorrer à terapia.

— Já ouvi de pacientes que esse era o único momento da semana em que eles conseguiam falar sobre as suas diferenças e o que os incomodava — conta Fabiana.

Para manter o tom do diálogo, não acumule frustrações. Patrícia observa que muitas mulheres só verbalizam seus incômodos quando já estão no limite, o que provoca explosões em momentos inesperados.

— Quando eu chego já para a briga e acusando o outro, é difícil fazê-lo parar, analisar a situação e mudar de atitude — diz a psicóloga.

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Fale sobre você. Por mais fundamentadas que sejam, as acusações dificultam o diálogo. Patrícia afirma que o ideal é expressar os seus sentimentos e incentivar o outro a fazer o mesmo, mostrando-se disponível.

Evite os termos absolutos. Dificilmente alguém “sempre” faz alguma coisa ou “nunca” faz nada. Aposentar essas palavras mantém a discussão produtiva, ajudando o casal a não perder tempo.

• Em um acordo, ambas as partes precisam ceder. É importante que os homens estejam abertos a participar e que as mulheres não centralizem todo o trabalho.

— A gente tem que pensar em uma complementaridade — diz Fabiana. — A participação de cada um nunca vai ser a mesma do outro, mas essa também é a riqueza da relação conjugal.

Nem sempre é preciso ensinar tarefas ao outro. Avalie se ele está fazendo algum trabalho errado ou apenas de uma forma diferente da sua.

— A gente não é mãe do nosso marido — lembra Ana. — Se você delega alguma coisa e fica desestimulando com críticas, nunca vai ter um aliado.

O ponto de equilíbrio varia entre os lares. Mais importante do que estabelecer papéis fixos é que os casais sejam flexíveis para acomodar as demandas do dia a dia e cooperar entre si.

Se vocês têm filhos, lembre-se que o funcionamento do lar servirá de exemplo para eles no futuro. Fernanda acredita que o fato de o marido estar habituado a cuidar da casa tornou a divisão das tarefas mais natural.

— É uma questão de costume e é a mesma educação que pretendemos passar para o nosso filho — conta.

 

Fazendo hora extra

• De 2004 a 2014, o percentual de mulheres que estão no mercado de trabalho e cumprem tarefas domésticas e de cuidados com os filhos se manteve praticamente igual: passou de 91,3% para 90,7%.

• Elas dedicam mais que o dobro de tempo a essas funções do que eles: são 25,3 horas semanais contra 10,9 horas dos homens _ que mantém essa mesma carga horária há 10 anos.

• No mesmo período, a jornada de trabalho remunerado dos homens caiu de 44 horas semanais para 41,6, e eles registraram uma variação de 42% na população não economicamente ativa. Apesar disso, não houve uma tendência consistente da parte deles a se envolver nas atividades da casa.

Fonte: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada em 2014 e divulgada neste ano pelo IBGE.

 

#DonnaPergunta

Para investigar como anda a participação masculina na rotina doméstica, Donna abriu às suas leitoras uma enquete pelo Facebook. Entre os dias nove e 16 de agosto, a maioria das mulheres (36%) disse ser a principal responsável pelos afazeres da casa e o cuidado com os filhos, contando ocasionalmente com o apoio do parceiro. Em segundo lugar, despontou a alternativa em que o casal divide meio a meio as obrigações de casa, com 28% dos votos. O companheiro era o principal responsável pelo lar para 17% dos votos, e apenas 3% das leitoras disseram que o marido se encarrega de todo o serviço doméstico.

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