Da paquera ao “enfim sós”, como o mundo digital reinventou os ritos do relacionamento

(Julio Cordeiro/Agência RBS)
(Julio Cordeiro/Agência RBS)

Digamos que não fosse 2014. Que fosse, sei lá, 2009. O pessoal da faculdade em um barzinho de Santa Maria discutindo a surpreendente morte de Michael Jackson ou a escolha do Rio para sediar os Jogos Olímpicos, enquanto a moça se distrai da conversa e começa a prestar atenção no cantor boa-pinta que – ela tem lá suas dúvidas – está sorrindo para ela.

Uma vez interessada, teria ela a cara de pau necessária para abordar o sujeito? Ou então de deixar um bilhete com nome e telefone? E ele, se recebesse um nome e telefone qualquer, seria o suficiente para dar retorno sem saber nada além disso?

Mas felizmente era 2014 quando Andressa Brum Gibicoski pôs os olhos em Jordan Nunes pela primeira vez. Então, o que ela fez? Guardou o interesse e com ele um panfletinho do artista na saída do bar. No dia seguinte, adicionou o rapaz no Facebook. Ele, mesmo sem saber de quem se tratava, aceitou o convite da morena sorridente de olhos claros.

– Logo em seguida, fiz aniversário, aí ele tomou coragem para me cumprimentar e vir conversar comigo – conta Andressa.

Começaram um papo, mas não sem antes darem ambos aquela vasculhada um no perfil do outro que rola toda vez que recebemos e aceitamos o convite de uma pessoa interessante. Dependendo do quanto se deseja deixar claro o interesse pelo outro, vale também uma e outra curtida em uma foto antiga, só para mostrar que andou bisbilhotando e gostou do que viu.

(Julio Cordeiro/Agência RBS) O namoro de Andresssa e Jordan começou com um pedido de amizade no Facebook

(Julio Cordeiro/Agência RBS) O namoro de Andresssa e Jordan começou com um pedido de amizade no Facebook

A história de Andressa e Jordan – hoje moradores de Porto Alegre, e que neste final de semana comemoram mais um Dia dos Namorados – já deixou de ser exceção para se tornar regra. O flerte, mesmo quando começa com uma troca de olhares ao vivo, tem na interatividade virtual mais do que um facilitador, quase uma obrigação.
Ser adicionado na rede social do pretendente é apenas o primeiro da série de novos ritos virtuais dos relacionamentos contemporâneos. A primeira selfie ou o primeiro textão apaixonado são hoje tão marcantes quanto o primeiro beijo ou a primeira visita à casa dos pais.

– Claro que eu lembro. Foi na minha formatura, em agosto de 2014. Ele foi, e postei uma foto de nós dois juntos. Não chamou muita atenção porque estava no álbum com diversas outras da festa, mas para mim foi marcante. Começamos a namorar oficialmente logo depois – conta Andressa.

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Entre os ritos que percorrem estas páginas, há um ponto em comum. Momentos de intimidade dão lugar a demonstrações de confiança e compromisso.

– O que se observa é uma nova relação com os conceitos de intimidade e compromisso. Sendo que o primeiro deixou de ser sinônimo do segundo. Momentos que eram guardados com carinho, como o primeiro encontro ou o primeiro beijo, não significam mais grande coisa. O que ganha pontos, quando tudo é compartilhado? Vir a público convidar os demais a tomar conhecimento e aplaudir o teu relacionamento. O que o parceiro valoriza é justamente você estar queimando a concorrência em nome dela nesse meio em que todos sabem sobre a vida de todo mundo – avalia o doutor em psicologia Ailton Amélio dos Santos, ex-professor da USP e blogueiro sobre relacionamentos no portal UOL.

Espanta a velocidade com que os relacionamentos migraram para dentro da rede. O Facebook, hoje com 92 milhões de usuários no Brasil, tinha apenas 2,4 milhões em 2009. Nessa época, nem Jordan (na rede social desde abril de 2011), nem Andressa (janeiro de 2012) estavam por lá e, se estivessem, talvez sequer pudessem interagir. O botão de “curtir” só seria lançado em agosto daquele ano.

Nos Estados Unidos, o resultado dessa interação online aparece em um número impressionante. Uma pesquisa conduzida pela Universidade de Chicago com casais que se casaram entre 2005 e 2012 constatou que 34,95% deles se conheceram pela internet. Mais do que no trabalho (14,09%), através dos amigos (12,4%) e na escola (7,14%) combinados. O mesmo estudo concluiu que estes casais formados em redes sociais, salas de bate-papo e sites especializados de namoro tinham 25% menos chance de se separarem do que os demais.

(Arquivo Pessoal) Mariana e Douglas: o apartamento comprado a dois na planta representou o compromisso

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De tão impressionantes, as conclusões foram recebidas com resistência pela comunidade científica. O sociólogo Michel Rosenfeld, da Universidade de Stanford, porém, saiu em defesa do estudo. Para ele, o que os colegas de Chicago constataram era o caminho natural de um estudo seu chamado “Como os casais se conhecem e permanecem juntos”, que comparou dados de casais heterossexuais norte-americanos de 2010 com números coletados pela universidade em 1940 e 1995.

Em 1940, um gráfico de pizza de como os casais haviam se conhecido apresentaria fatias bem mais parecidas: 21% por amigos, 21% na escola, 24% na família, além de fatias menores que hoje são quase insignificantes, como na Igreja (13%) ou na vizinhança (13%). Em 1995, a influência dos amigos tomou conta de 38% da pizza, mas já naquela época, mesmo com a internet rudimentar, 16% dos casais haviam se conhecido online nos EUA.

E no Brasil? Bem, não há dados precisos para comparar a evolução desses percentuais ao sul do Equador. Se por um lado o mercado de encontros online nos Estados Unidos é uma indústria muito mais especializada e aquecida – serviços como OkCupid, eHarmony, Match.com não têm o mesmo tamanho por aqui, mas atuam na casa dos milhões de clientes por lá –, por outro, o Brasil é apontado como um dos cinco países onde a população passa mais horas em frente a uma tela. Mais, inclusive, do que nos EUA. Segundo dados mundiais da empresa de investimentos em tecnologia Kleiner Perkins Caufield & Byers, o brasileiro médio passou diariamente, em 2014, de sete horas e meia a nove horas em frente a aparelhos como TV, celular, computador e tablets.

É natural, portanto, que muito da interação entre os casais brasileiros – do flerte ao relacionamento propriamente dito – também tenha migrado para as suas telinhas.

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Eu disse sim no Facebook

Que jogue a primeira pedra quem nunca passou um dia de angústia esperando uma mensagem de texto para saber se o namorado ainda está chateado com uma briga ou se o boy curtiu tanto quanto você o date de ontem.

Essa angústia motivou o comediante Aziz Ansari, roteirista e protagonista do seriado Master of None, da Netflix, a investigar o tema a fundo. Após caprichar na mensagem de texto engraçadinha convidando para um show uma certa Tanya, uma pessoa com quem ele achava que tivera muita química na noite anterior, Aziz se viu em uma montanha-russa de sentimentos que evoluiu de curiosidade para angústia, pânico, culpa, decepção e, finalmente, curiosidade de novo, o que o levou a escrever o livro Modern Love, em parceria com o sociólogo Eric Klinenberg.

Tanya visualizou a mensagem, o celular sinalizou alguns segundos de digitação, mas ela não chegou a enviar uma resposta. Para ter ideia do porquê, ele e Eric realizaram por dois anos dinâmicas de grupos de diferentes faixas etárias em quatro metrópoles americanas, além de Buenos Aires, Tóquio, Paris e Doha e buscaram estudos sobre como os relacionamentos evoluíram desde a década de 1930 até 2015.

O impacto da internet é uma obviedade. A explicação é esboçada pela psicanalista do Instituto de Tecnologia de Massachussetts, Sherry Turkle, no livro Alone Together (Sozinhos Juntos, em tradução para o português): “Jovens estão hoje tão acostumados com uma interação por texto, em que eles conseguem planejar, ainda que rapidamente, o que dizer, que estão perdendo a habilidade de ter uma conversa espontânea. Seus cérebros não estão mais sendo exercitados para essa interação, então essa capacidade acaba comprometida”.

Se isso será um problema, no futuro, não se sabe. O que se percebe é que o meio textual, antes visto como algo frio e sinônimo de falta de sensibilidade, não tem o mesmo estigma em gerações mais jovens. Uma pesquisa divulgada pelo site de relacionamentos Match.com em 2013 deixa isso bem evidente. O site perguntou aos seus clientes: “Para convidar uma pessoa pela primeira vez para sair, qual é o seu método favorito?”. Abaixo de 30 anos, apenas 23% preferiam um pedido por telefone, frente a 32% que preferiram usar uma mensagem de texto.

(André Ávila/Agência RBS) Diego e Renato: curtidas em posts deram o tom da paquera

(André Ávila/Agência RBS) Diego e Renato: curtidas em posts deram o tom da paquera

Outras máximas, como a de que é preciso encerrar uma relação pessoalmente, também caíram por terra nas dinâmicas de grupo de Aziz e Eric. Na mesma linha, outra pesquisa, de 2012, apontou que 67% dos adolescentes norte-americanos aceitariam um pedido para o baile de formatura por texto.

Por outro lado, as dinâmicas online e offline parecem se complementar melhor do que nunca. Foi assim com Diego Moreira, barista, e Renato Santa Catharina, ator. Um adicionou o outro no Facebook sem se conhecerem, por sugestão do site. Começaram, então, um longo flerte silencioso de cerca de três meses apenas curtindo fotos um do outro, por vezes comentando um post ou outro. Até o dia em que Diego confirmou presença em uma peça de Renato, e o ator, enfim, abriu a janelinha de chat para saber se a confirmação era para valer mesmo, e se ele aceitava um ingresso de cortesia.

– Fato é que, quando nos vimos pessoalmente, a gente já sabia tanto um sobre o outro que era como se já nos conhecêssemos há meses. Acho errado concluir que relacionamentos que começam por internet sejam mais superficiais. Pelo contrário. Já sabíamos os gostos em comum um do outro, o tipo de senso de humor… Tanto é que estamos juntos desde aquela primeira noite – opina Diego.

O “relacionamento sério” que aparece no perfil de Diego e Renato é outro grande ponto.

Poucos casais desprezam a importância das mudanças de status em redes sociais, mas cada par lida com ele de um jeito. A administradora Cristina Bortolini e o namorado, o chef Vouten Fleck Júnior, não só usam este distintivo online de compromisso, como adotam um diferente da vida offline. Embora eles não tenham a intenção de trocar alianças tão cedo, Cristina optou por adotar, no Facebook, o status “em um noivado”, em vez de um simples namoro.

– Até bem pouco tempo, namorávamos à distância. Desde a adolescência nosso namoro já passou por Garibaldi, Porto Alegre e São Paulo, sempre um em cada cidade. Como não passávamos tanto tempo juntos e não somos de compartilhar muitas coisas pessoais nas redes, achei melhor usar o “noiva” para demonstrar mais seriedade. Ajuda a espantar alguém eventualmente interessado, por exemplo – explica a administradora e ex-modelo.

(Julio Cordeiro/Agência RBS)

(Julio Cordeiro/Agência RBS)

O noivado-para-amigo-de-Facebook-ver de Cristina é sintomático. Talvez a principal mudança em relação aos ritos de relacionamento tenha ocorrido no maior deles, o casamento. E se deu não pelo fato de o casamento perder a importância, mas por ser encarado menos como um ponto de partida, e mais como a recompensa final após uma maratona de realizações e escolhas.

Na prática, o casamento como um compromisso a dois se concretiza em ritos menos românticos. Como um contrato de aluguel a dois, uma união estável para usufruir do plano de saúde ou o financiamento dividido de um imóvel. Ou seja, você, jovem adulto, pode continuar não se casando, mas o comprometimento vai continuar existindo com ou sem o véu e a grinalda.

O casal Mariana Mauer e Douglas Santos, por exemplo, namorados desde 22 de dezembro de 2013 (ela tem na ponta da língua), mora na casa dos pais dela. Há pouco mais de um ano, eles financiaram um apartamento na planta. Um comprometimento conjunto de décadas. Pretendem se casar, portanto? Bem, até sim, mas isso é conversa para depois. Mariana e Douglas preferem focar nas prestações a pagar e na mudança.

– Minha avó sempre apresenta o Douglas como o meu marido. E eu sempre corrijo. Para ela, se moramos sob o mesmo teto e dormimos na mesma cama, somos casados. Mas eu só vou aceitar o termo quando nós colocarmos os pés no nosso apartamento. Afinal, quem casa quer casa.

Ainda que não se case, de fato. O que talvez role, seja um “casada” no Facebook.

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