Delicadeza, sororidade e ativismo se encontram em aulas de bordado empoderado

Foto: Bruna Antunes
Foto: Bruna Antunes

Revistas de ponto-cruz, meadas de linha, agulha e telas: essa poderia ser uma lista de compras para quem vai fazer quadro para comemorar o nascimento de um neto ou para uma garota que engajada em movimentos feministas. A segunda opção, apesar de parecer improvável, tem crescido cada vez mais com iniciativas como o curso de Bordado Empoderado, criado pela jornalista Bruna Antunes, em Porto Alegre.

Inspirada em postagens de bordados criados por clubes feministas em São Paulo, uma amiga pediu a Bruna que a ensinasse a bordar. Ela, então, recuperou o material que tinha e fez exercícios para relembrar os pontos que aprendera na infância. As aulas deram certo, e uma ideia surgiu.

– Eu pensei: por que não chamar mais amigas e amigas de amigas? Por que não chamar as minas dos grupos feministas que eu participo na web? Fiquei com essa pulga atrás da orelha por meses – relata.

Leia também
:: Vítima de queimadura, blogueira usa a maquiagem para dar lição de empoderamento
:: 5 camisetas com estampas de empoderamento feminino para ter no closet
:: Jovem se inspira em “pé na bunda” para criar marca de roupa sobre empoderamento

Uma das questões que mais pesou na decisão dela criar um curso presencial foi a relação com a temática feminista, da qual Bruna se aproximou durante a faculdade, quando começou a participar de grupos de discussão na internet. Apesar das grandes discussões via web, ela sentia falta de encontros na vida real. Então, em novembro de 2015, começou a montar a ideia. No mês seguinte, Bruna criou um evento aberto que levou a 60 e-mails em menos de 24 horas e, em janeiro de 2016, começava a primeira turma, que se formou em abril.

– É legal ler relatos, estudar feminismo, se engajar nas lutas usando a web como ferramenta, mas conhecer pessoas, ouvir histórias, entender outras visões de mundo tendo contato com outras realidades têm sido uma experiência muito mais valiosa – relata Bruna. – Tem sido um exercício semanal de feminismo em que eu entro em contato com mulheres de mundos muito diferentes e essa diversidade possibilita que cada aula seja completamente diferente.

Foto: Bruna Antunes

Foto: Bruna Antunes

Hoje o curso tem quatro módulos, divididos em bordado livre e ponto cruz, com turmas em diferentes espaços em Porto Alegre. A partir de julho, as aulas também começam a ocorrer no interior. Homens estão convidados a participar, mas o público-alvo são mulheres, de todas as idades, com dois interesses em comum: feminismo e bordado.

Uma outra visão sobre bordado

A maioria das alunas que chega nas aulas de Bordado Empoderado está na faixa dos 25 anos e tem proximidade com apenas uma das partes do nome do curso: empoderamento, é claro. Algumas aprenderam a bordas com suas mães e avós quando mais novas, mas são poucas. Bruna precisa começar pelo básico do básico: ensinando nomes de tecidos, agulhas e como cortar linhas antes de chegar nos pontos. Elas procuram o curso pela temática e pela sua proximidade com o conceito de valorização da cultura local e de uma produção artística mais artesanal, que tem sido adotada por jovens pelo mundo.

– Acho que o mérito maior do curso é esse: rejuvenescer o bordado através do feminismo. O bordado é uma arte antiga e feminina que foi subvertida por essas novas bordadeiras, para mostrar temas e imagens do nosso tempo – comenta Bruna. – Essa ideia de que o bordado é uma arte menor, feita por vovós com desenhos de gosto duvidoso, é completamente abandonada no curso.

 

O que ocorre é um contraste: a suavidade do bordado e a força das mensagens feministas. Uma flor ao lado de um palavrão ou uma frase sarcástica. Um ponto cruz cuidadoso que vai criar o desenho de um útero ou um punho – esse segundo se tornou o desenho mais bordado nas aulas, seguindo pela frase “meu corpo, minhas regras”.

 

Foto: Bruna Antunes

Foto: Bruna Antunes

Leia também
:: Conheça a luta de Juliana de Faria, do Think Olga, pelo empoderamento feminino
:: “Mulheres”: projeto sobre preconceito e feminismo ganha versão em livro
:: Não depilação: Mulheres questionam padrões de beleza ao abandonar a depilação

Por que falar sobre empoderamento

As temáticas dos bordados se tornam temáticas de discussões. Entram em pauta religião, maquiagem, política, não-depilação e outras pautas feministas como sororidade, aceitação e amor ao próprio corpo, a importância de conseguir dizer não, beleza do feminino, luta contra o patriarcado, resistência contra o padrão de beleza imposto, o direito as decisões sobre o próprio corpo e a imposição da maternidade.

Falar nisso enquanto se utiliza um técnica associada a uma sociedade patriarcal, machista e, de certa forma, antiquada pode ser vista como controversa, até irônica, mas também como uma conquista feminista.

– Na minha opinião, um dos muitos encantos na subversão desses objetos decorativos, bordando frases que questionem o status quo e critiquem o patriarcado, é a sensação de estar fazendo algo pela memória das nossas bisavós e pelos direitos que elas não chegaram a ter – declara Bruna.

Foto: Bruna Antunes

Foto: Bruna Antunes

O interesse das gurias em continuar aprendendo tem sido tanto que Bruna montou um zine do curso – uma revista de ponto cruz com gráficos para as alunas carregarem na bolsa – e um kit de bordado para quem mora fora de Porto Alegre participar do curso. Ao lado de seis alunas da primeira turma, ela também criou o coletivo Nectarina Bordados Subversivos para venderem seus trabalhos.

Veja mais fotos dos trabalhos:

Leia mais
Comente

Hot no Donna