“Depois a Louca Sou Eu”, de Tati Bernardi, expõe relatos espirituosos inspirados no tema da ansiedade

Foto: Renato Parada, divulgação Companhia das Letras
Foto: Renato Parada, divulgação Companhia das Letras

Sabe a Tati Bernardi, aquela das frases e dos textos de comportamento e relacionamento compartilhados com frequência nas redes sociais? Pois acredite: a maioria do que você lê por aí não é mesmo dela.

– Só tem porcaria na internet com meu nome. Uns 90% não são meus. Um monte de coisa chatinha, romantiquinha, boba, que não quer dizer nada – desabafa a escritora em entrevista a Donna.

A verdadeira Tati que não escreve porcarias nem coisas chatinhas e romantiquinhas se despe agora em Depois a Louca Sou Eu (Companhia das Letras, R$ 29,90). São 144 páginas de pensamentos absurdamente íntimos derivados de uma única fonte: a “loucura” da narradora. Experiências e sentimentos acerca de todo tipo de ansiedade – desde um mal-estar decorrente de encontros sociais a tensões em relacionamentos pessoais até intensas crises de pânico – são descritos com riqueza de detalhes e um inusitado humor. Afinal, saber rir de si mesmo é uma das primeiras atitudes para a catarse. Tudo ali descrito é de verdade, diz Tati, mas também tem muito exagero, “então são as duas coisas o tempo todo”, resume a publicitária de 37 anos, colunista da Folha de S. Paulo.

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Aquelas situações que causam certo desconforto até em criaturas “normais” (tipo ir a uma festa da firma por obrigação, viajar pela primeira vez com um namorado e dividir o banheiro do quarto do hotel ou, principalmente, ficar preso em engarrafamentos ou andar de avião) provocam um sofrimento intenso na “maluca” Tati. Sofrência essa que é abatida com uso de muitas substâncias controladas (“o Clonazepam puxou o Escitalopram que puxou a Paroxetina que, anos depois, puxou a Venlafaxina”) ou com as incontáveis tentativas de tratamento alternativo para ansiedade, desde acupuntura e consultas a monges até a recomendação de abraçar árvores ou fisioterapia com dança indígena. Não dá medo compartilhar (supostas) histórias tão íntimas?

– Dá muito medo, mas acabei fazendo disso meu trabalho. Estou na terapia há 15 anos tentando entender o motivo (risos). Uso a minha loucura como um escravinho que trabalha o dia inteiro para eu poder me dar alguns luxos – brinca Tati, que “se não fosse escritora, seria psicopata”, em mais uma de suas tiradas.

Nascida em São Paulo e com diversas passagens pelo Rio por conta de trabalhos como roteirista na Globo, Tati via-se em solo carioca como uma E.T. branquela e insegura frente a tantos corpos bronzeados e altamente dispostos. Parte disso era culpa do que classifica como a ditadura da alegria – “estar deprê no Rio equivale a querer usar casaco de lã em Cuiabá”, compara. A imposição de felicidade a afligia com frequência. Os novos colegas davam conselhos profundos à paulistana estranha, como o clássico “banho de mar cura tudo” e um mais curioso: “arrumar um carioca que a comesse”.

Tati não seguiu o conselho à risca, mas sem querer acabou conhecendo um carioca que virou namorado e que dividiu com ela um banheiro de hotel pós-intoxicação alimentar e que virou marido. Por ele (e com ele, para ficar uns dias a mais no apartamento que o companheiro tem em frente à Lagoa Rodrigo de Freitas), a claustrofóbica Tati enfrenta crises de pânico fortíssimas, embarca em um avião e passa os 42 minutos seguintes da ponte aérea pensando na morte. Sobrevive, mas não consegue parar de ter vontade de retornar logo para casa.

– O Rio é muita beleza misturada com muito caos, me dá nervoso – explica.

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Cinco meses antes da conclusão do livro, a Tati da ficção relata que largou tudo quanto é remédio, o que foi complicado para quem “tomava mais Dorflex do que banho” na soma da semana. É claro que, independentemente de qualquer boleta, a Tati da vida real sabe que pode ser chamada de louca, como todas as mulheres já foram pelo menos uma vez na vida. Aliás, o capítulo intitulado “Depois a Louca Sou Eu”, que batiza o livro, faz referência ao gaslighting, termo que representa abuso psicológico no qual um agressor faz a vítima duvidar de sua percepção e sanidade.

– Falo sobre os namorados doidos que terminaram comigo dizendo que a louca era eu. Acho que homem tem dificuldade em ver a própria histeria. Eles se comportam como psicopatas, mas não perdem a pose. Mulher, por ser mais honesta e ter menos medo da lama amorosa, fica de biruta na história. É injusto – exemplifica.

Feminista no dia a dia, mas sem se considerar militante, Tati diz que respeita todos os movimentos femininos atuais, mas frequentemente é xingada por muitas mulheres por conta de suas opiniões polêmicas publicadas no jornal. Diz que costumava ficar péssima quando lia as mensagens das haters, mas agora está descoladíssima. Tanto é que que se dá ao direito de achar certas coisas “bem chatinhas”:

– Uma relação sexual saudável tem muitos fetiches e maluquices boas, por exemplo, e o feminismo não pode se meter nisso.

Sexo, aliás, é tema tratado sem pudor no novo livro. Tati relata uma questão comum a quem se trata para depressão ou ansiedade: os efeitos colaterais na sexualidade. Descreve o impacto de cada um, sempre de maneira espirituosa, tirando o peso da dor: “Em todos esses anos que passei experimentando diversos antidepressivos, não deixei de namorar e transar. Mas, a depender do remédio (infelizmente a maioria, vamos dar a real), algo muito drástico chamado anorgasmia pode te acometer. Não é que você não goze, mas pode demorar tanto que o sexo fica com cara de ‘fila para tirar visto”.

Se precisasse escolher entre uma coisa ou outra, o sexo ou a medicação, Tati conclui:

– Acho que prefiro ser uma moça menos tarada e mais equilibrada do que uma ninfa do amor que pensa mil coisas por segundo.

LEIA TRECHOS DO LIVRO
“É como se eu me servisse nua, numa bandeja, o tempo todo, somente porque não mereço estar em nenhum lugar legal a não ser que me sacrifique para entreter os outros. Ou sirvo de palhaça da corte ou não mereço pertencer a nada. Isso é bem cansativo. Minha ansiedade nunca me deixou apenas ficar em silêncio, sorrindo, sacando antes o lugar e as pessoas. Ou eu chego como um trem descarrilado conduzido por um diabo-da-tasmânia ou me mato de tédio (e fantasio que todos estão mortos de tédio e o mínimo que esperam de mim é que eu vire o jogo dessa vida besta). Uma espécie de humildade bem arrogante.”

(…)

“Senti uma inveja profunda da maluca. A primeira vez com o Rivotril é única, é perfeita, é a comunhão das maravilhas universais traduzidas em aconchego. Eu ocupo o espaço e isso é totalmente possível. Já não tenho uma carne viva entrando em “combinações químicas perigosíssimas e putrefatas com um oxigênio tomado por uma poluição devastadora”. Tenho uma couraça magnífica que me leva virtualmente pelo mundo enquanto mantenho os órgãos vitais protegidos embaixo da cama. A primeira vez que tomei um Rivotril foi numa noite de segunda-feira, depois de somar “fora do namorado” com “dia muito difícil no trabalho”.

(…)

“Você que curte cocaína, ácido, MDMA… me explica: para que se sentir pilhado? Eu me sinto pilhada desde que nasci e… que cansaço, pelo amor de Deus. Jura que você precisa de algo “que te tire de você”? Que “te leve daqui”? Eu só quero algo que me devolva a mim. Que me deixe ficar sentada, quieta, calma. Cansei de ser o balão com uma carinha histérica desenhada, preso por uma cordinha fraca que depende da boa vontade de quem segura.”

(…)

“A primeira semana com Efexor disparou em mim uma onda quente e eletrizante de prazer que rondava o couro cabeludo, corria pelo corpo até os pés e me fazia soltar uns gemidinhos, “uiammm” ou “eita que que é isso”, onde quer que eu estivesse. Cheguei a comprar uma caixa de som para o banheiro, tamanha a necessidade louca que eu sentia de dançar no banho, como uma índia nua agradecendo a chuva. Era tudo isso e muito mais: pênis para mim tinha virado novela espírita. Quem é que tem tempo e, tendo tempo, quem é que quer ver? O Efexor transformou minha libido na vista para as montanhas que os corretores de imóveis juram ter uma sacada de apartamento na Pompeia. Ninguém sabe, ninguém viu.”

(…)

“Acho que inutilizar, da pior maneira possível, um banheiro de pousada na virada do ano me trouxe sorte. Minha ânsia em controlar tudo o tempo todo sempre fez de mim o tipo da mulher “ensaiada”. Eu nunca saí com um rapaz sem estar com a depilação perfeita, o hálito perfeito, o cabelo perfeito, as unhas perfeitas, as pesquisas “sobre os assuntos que ele mais gosta” devidamente feitas. Eu nunca chamei um rapaz para vir em casa sem antes perfumar almofadas, deixar tudo muito bem-arrumado e limpo, velas, disco de jazz na vitrola, uma meia-luz safadota nos esperando no chão do quarto. Fui casar justo com o moço que segurou minha testa para que eu, pela décima vez, concluísse: “já é bile, não tem mais o que sair”.

(…)

“Ao longo dos oito anos em que trabalho na Rede Globo, colecionei muitas situações e lugares bizarros para passar mal. Lembro de quando, completamente chapada de tarja-preta na casa do Ricardo Waddington, fiquei insistindo para a Fernanda Lima jogar pingue-pongue comigo. Era a pré-estreia do programa Amor & Sexo, em cuja criação eu havia colaborado, e o Ricardo, um dos diretores de núcleo mais poderosos da emissora, deu uma festinha. Nem sequer nos dias mais fóbicos com “sair de São Paulo” eu arreguei quando se tratava de questões profissionais. Já quando se tratava de festas, sempre me debati: preciso mesmo passar pela tortura infinita de ficar ansiosa e fóbica e com manias e enjoada e com diarreia e chorar e achar que vou morrer e começar a arrumar gavetas e regar plantas e fazer listas e mais listas e mais listas com tudo o que eu deveria realizar nos próximos cinco anos da minha vida, apenas para um bate-volta numa festinha?”

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