Depois da prótese, da cicatriz e da gravidez! Seis mulheres relembram o verão em que descobriram o amor próprio

Fotos: Mauricio Capellari, Especial
Fotos: Mauricio Capellari, Especial

Com depoimentos concedidos à repórter Thamires Tancredi

Todo mundo tem um verão inesquecível. Aquele em que você fez uma viagem incrível, curtiu com as amigas como nunca ou encontrou um grande amor. Para as seis leitoras de Donna que você conhecerá a seguir, o verão que vai ficar marcado para sempre na memória é aquele em que elas descobriram o amor próprio.

Quando passei a usar prótese

Por Liziane Botini Rosa, 29 anos, bancária

Tinha 13 anos quando o acidente aconteceu. Voltava da escola quando, na esquina da minha casa, fui atropelada. Por conta dos ferimentos, precisei amputar a minha perna esquerda pouco abaixo do joelho. Foram seis meses de recuperação e cirurgias até que, finalmente, estava pronta para usar a prótese. Ao contrário do que muita gente imaginava, nunca entendi o acidente e a amputação como algo ruim. Talvez por ser ainda muito criança, só pensava que, por muito pouco, poderia não estar mais neste plano. Nos primeiros meses com a prótese, virei sensação no colégio. A maioria provavelmente nunca tinha visto uma prótese na vida. Ficavam curiosos de ver, e eu fazia questão de mostrar.

Achava o máximo ser diferente. Mas logo a euforia perdeu força. Talvez por estar entrando na adolescência, quando o que a gente menos quer é ser percebida, comecei a ficar acanhada com os olhares mais curiosos que recebia na rua. Usar prótese era muito normal para mim, mas para os outros, não. Ficava triste e com raiva quando saía de casa e me lançavam olhares nada inofensivos… A saída, então, foi começar a usar roupas longas. E não porque eu tivesse vergonha da minha prótese, mas não aguentava mais o jeito como me olhavam. Por 10 anos, usei só saias e vestidos compridos, calças jeans. Me privei de ir à piscina, que amava quando criança… Só fui entrar no mar de novo quando já tinha 18 anos. Cheguei, claro, de saia longa, mas depois curti a praia e foi maravilhoso!

Sempre tive apoio da minha família e dos meus amigos, mas a pessoa que, de fato, mais me incentivou a mostrar sem medo minha prótese foi o meu noivo, Patrick. É só eu começar com alguma retração que ele me dá um puxão de orelha para parar! Hoje, finalmente, posso dizer que superei minha própria resistência em mostrar a minha perna. Aprendi a não me importar mais. Sei que as pessoas vão olhar, virar a cabeça… Mas agora entendo que talvez elas nunca tenham visto alguém com prótese de perto. Não foi a coisa mais fácil voltar a usar roupas curtas. Colocava uma saia e, na hora de sair, voltava para o quarto e trocava. Mas, aos poucos, percebi que nenhum olhar discriminatório poderia valer a minha felicidade e o meu bem-estar. Minha prótese é uma extensão do meu corpo, faz parte de mim. Quero mostrar que, independentemente do jeito que você for, o importante é estar de bem com você mesma, confortável e com alegria de viver.

Foto: Mauricio Capellari

 

Quando passei dos 50

Por Cláudia Conceição, 58 anos, professora aposentada

“Praia para mim era raridade. Como sou do interior de Pelotas, nunca tive muito acesso ao Litoral. Mas isso mudou depois dos meus 50 anos: só quando me aposentei é que comecei a viver a praia e ver como é bom curtir. Nas primeiras vezes em que voltei ao mar, o maiô era meu melhor amigo. Tinha bastante dificuldade de me expor na areia, sabe? Usar biquíni, então? Era difícil. As pessoas sempre me diziam: “Por que você não usa biquíni? Você tem um corpo legal”. Mas a verdade é que achava minha barriga feia, por causa das duas gestações: dos meus filhos Leandro, 30 anos, e da Ana Clara, 11.

A gente tem muito preconceito com nós mesmas. É algo que os outros colocam na nossa cabeça e a gente acaba aceitando. De pouquinho em pouquinho, fui trabalhando isso em mim. Lembro bem da minha viagem a Maceió: foi a primeira vez que passeei pela praia de biquíni sem medo. Aliás, usei praticamente só biquíni esses dias, e nunca me senti tão bem. O maiô? Só saiu da mala no dia em fiz um banho de lama! Nos verões seguintes, abandonei o maiô que usava por vergonha do meu corpo: hoje, uso só quando acho o modelo bonito mesmo. Ainda prefiro biquínis maiorzinhos, mas porque gosto mesmo assim, me sinto mais confortável.

Vejo isso como uma independência da mulher: sempre ouvimos que não podíamos usar isso e aquilo, ainda mais depois dos 50 anos. Agora, nós assumimos uma postura de que podemos, sim, vestir o que a gente gosta, o que a gente quer. E eu, que vivi a fase do proibido, enxergo o quanto as mulheres da minha faixa etária estão mais tranquilas com elas mesmas. Aliás, é essa a imagem que passo para os meus filhos: tranquilidade com quem eu sou. Para a minha filha Ana Clara, tento mostrar também muita naturalidade. É lindo porque percebo que ela se inspira em mim, gosta do jeito como me visto. E é justamente essa leveza e independência que quero passar para ela. Só depois dos meus 50 anos tive coragem e entendi que precisamos estar confortáveis com quem somos. E hoje eu estou! Desde Maceió, coloquei na minha cabeça que queria ser uma mulher liberta em todos os sentidos. Que queria ser feliz, e muito feliz! E hoje sou!”

Foto: Mauricio Capellari

 

Quando me tornei mãe – e meu corpo mudou

Por Lydia Goes Telles, 33 anos, artista visual

“Até meus 12 anos, eu não era “gordinha”, não, era gorda mesmo. Desde pequena, fui criando um complexo com o meu corpo, que me perseguiu toda a adolescência, mesmo depois que emagreci. Passei verões com canga, shortinho e camiseta por cima do biquíni. Aos poucos, fui me sentindo mais à vontade quando ia à praia. Posso até dizer que fiquei de bem com o meu corpo… Até engravidar. Foi quando todo aquele turbilhão da adolescência voltou. Perdi rápido os quilos que ganhei na gestação do Theo, hoje com dois anos, mas meu corpo mudou demais. Não era mais questão de ser gorda ou não, entende? As pessoas me questionavam: “Qual o problema com o teu corpo?”. Emagreci, sim, mas meu corpo ficou diferente. Nunca tive muita flacidez e estria, mesmo perdendo peso. Mas, depois da gravidez, fiquei com marcas que ainda não conhecia.

Passei a não me olhar mais no espelho como antes. Me sentia feia. Ir à praia então? Evitava sempre que podia. Só me dei conta do quanto estava me escondendo no ano passado. Estava em um churrasco na casa da madrinha do Theo. Casa com piscina na beira da praia, o sol brilhando lá fora, e eu não consegui tirar a canga. Não curti o momento pelas neuras que vinha alimentando contra o meu próprio corpo. Resolvi dar um basta: chega de inventar desculpa para me cobrir e deixar a vida passar. Precisava, mesmo que aos poucos, aprender a gostar de mim como sou.

Foi quando comecei a ter contato com outras mães, como a Pâmella Ghilardi. Passei a refletir sobre outras questões também: a cor da minha pele, o meu cabelo… Junto com isso, vieram as marcas da gravidez. Eu nunca tive seio grande, mas na gestação aumentaram muito. Hoje eu entendo que meus peitos estão flácidos por que dei de mamar ao meu filho por dois anos, e isso é um ato lindo e importante. Por que eu ia dar um sentido ruim em algo que foi tão bom na minha vida e na do Theo? Nesse processo, a minha comadre teve um papel fundamental. No último Natal, ganhei de presente dela dois biquínis de lacinho e ela me intimou a usar. Ainda no Natal, resolvi testar: provei e fui para a praia. Cheguei com um pouco de vergonha, confesso, mas o dia com elas estava tão bom que esqueci do tamanho do meu biquíni. Quando me dei conta, estava andando feliz pela areia – e sem canga. Me senti tão bem! E é essa sensação de leveza que quero daqui para a frente nos meus verões.”

Foto: Mauricio Capellari

 

Quando parei de me depilar

Por Ana Carolina Dal Zotto, 33 anos, maquiadora

“Deixei de me depilar com frequência faz uns quatro anos. A cada vez que passava a lâmina, sofria demais com crises alérgicas. Até que decidi dar um basta. Não tinha porque sentir dor a cada duas semanas por conta de pelos que, afinal, fazem parte do meu corpo. Mas a aceitação das pessoas não foi tão fácil assim. Parece que você se sente na obrigação de comunicar aos outros uma decisão que só cabe a você, sabe? O mesmo acontece com a família e o namorado: você precisa fazer com que eles entendam o porquê da sua decisão. Foi difícil. Mesmo que eu não queira, preciso ter cuidados em relação aos meus pelos por causa dos outros. Quando vou trabalhar, por exemplo, tento usar uma blusa mais fechada. Shortinho e regata para ir à faculdade? Sempre rola um julgamento. Às vezes, preciso estar bem mais vestida do que gostaria para evitar olhares. Para mim, é a pior parte do verão: passo calor por causa dos outros. Eu, que sempre amei piscina, sinto os olhares horrorizados quando as pessoas enxergam uns pelinhos da virilha aparecendo no biquíni. Na praia até não sinto tanto isso, mas o fato de eu não notar não quer dizer que o julgamento não exista. E ele existe.

Hoje me sinto mais tranquila em relação aos meus pelos, mas a verdade é que isso muda bastante dependendo de quem está comigo. O coletivo faz uma diferença enorme. Quanto mais eu circulo com mulheres que fogem ao padrão, mais segura me sinto. Mas quando estou com pessoas que falam o tempo todo que precisam emagrecer ou arrancar todos os pelos para poder usar um biquíni, me afeta demais. Faz com que eu questione minhas próprias decisões. Me incomoda muito quando a discussão sobre não depilação entra em pauta e as pessoas dizem que acham nojento ou horrível. Machuca. É como se estivessem dizendo que abominam a ideia de ser como eu. Que meu corpo é nojento, não é bonito. Que você não queria ser como eu. Isso só mostra o quanto a gente não sabe lidar com o diferente de nós mesmos, o quanto ainda julgamos.

Mas, aos pouquinhos, você finalmente vai se soltando. Aprende a se importar cada vez menos. Consegue ficar períodos mais longos sem passar a lâmina na pele. São processos que caminham juntos. Hoje, de verdade, me sinto bem comigo mesma.”

Foto: Mauricio Capellari

Quando aceitei minha cicatriz

Por Thalia Schulz, 20 anos, assistente de Relações Públicas

“Ao longo da vida, nosso corpo é marcado por nossas histórias. Afinal, quem não tem uma marca de infância que lembra alguma travessura ou alguma aventura da adolescência, não é? Há um ano e meio, sofri um acidente grave de carro. Acabei fraturando as duas pernas, além de complicações respiratórias que resultaram em longos sete dias de coma. Desde então, carrego comigo marcas e três cicatrizes, uma em cada perna e outra pequena na costela.

Sempre fui muito vaidosa. Minhas pernas são, sem dúvidas, uma das partes do meu corpo que eu mais adoro. Desde pequena, participei de alguns concursos de beleza e acredito que, por isso também, levava muito a sério os cuidados com a beleza estética do meu corpo. Aí estava minha primeira dificuldade: aceitar que minhas duas pernas estariam para sempre marcadas, com um sinal difícil de esconder. Foi um período difícil. Quando chegou o verão, minha estação preferida, esconder minhas pernas tornou-se ainda mais complicado. Na primeira vez que fui à praia depois do acidente, os olhares estavam voltados para as minhas pernas. Sentia vergonha do meu corpo, das minhas marcas. Demorei para me sentir bem, mas foi ali, na praia mesmo, onde descobri que aceitar minhas cicatrizes como parte de mim poderia ser mais fácil do que eu imaginava. Parei de pensar que os olhares eram de pena. Quando as pessoas se aproximavam e acabávamos conversando, as reações eram superpositivas em ver duas marcas tão grandes, expostas em pleno sol da praia de Capão, sem vergonha. Hoje percebo que era exatamente isso: tinha vergonha e não queria aparentar. Aprendi que aquelas marcas eram parte de mim e que foram elas que me fizeram mais forte depois de tudo.

A partir dali, busquei não esconder mais. Saias, shorts, vestidos, biquínis e maiôs voltaram com tudo ao meu guarda-roupa. Confesso que, em algumas situações, ainda preciso melhorar, mas hoje não tem olhar negativo que me desanime. O próximo passo é voltar aos concursos e deixar claro que todos temos marcas e as minhas são parte da minha beleza, pois mostram o quão viva estou!”

Foto: Mauricio Capellari

 

Quando assumi meu corpo

Por Jennifer Michalski, 33 anos, agente de viagens

“Como venho de uma região de colonização alemã, minhas amigas sempre foram as garotas loiras, de cabelo liso, pele clara… E magrinhas. E eu era a mais cheinha, com cabelos crespos e a tez mais morena. Desde pequena, me questionava: “Por que sou assim, tão diferente das outras?”. Certa vez, uma colega de aula me chamou de mulata. Cheguei em casa chateada e perguntando para minha mãe o que, afinal, era ser mulata. Quando usava meu cabelo solto, era comum que me chamassem de apelidos como cachopa. Aos poucos, fui aprendendo a cuidar dos meus fios. Blogueiras como a Rayza Nicácio me ensinaram os melhores truques para, finalmente, conseguir amar e aceitar meus cachos.

Mas a questão do meu manequim maior permanecia forte. Quando comecei a engordar, me incomodava demais com a minha barriga e as minhas coxas. Não me sentia à vontade para ir à praia porque não encontrava um biquíni que me servisse bem. Até ir para a balada me incomodava! E não achar roupas que coubessem em mim e servissem bem só dificultou esse processo. Mas há uns três anos, comecei a mudar minha mentalidade sobre o jeito como me via no espelho. Passei a ler blogs de mulheres gordas, que sempre dizem o quanto a gente pode se sentir melhor com quem somos. Lembro bem de um dia, em 2016, quando fui na Chica Bolacha e vi uma minissaia linda! “Jamais vai ficar boa em mim”, pensei. Mas a vendedora insistiu: “Experimenta, vê como fica!”. Entrei no provador e não sei descrever a sensação. Me senti o máximo! A partir daquele dia, comecei a procurar outras peças. Pensava que, se podia usar minissaia, dava para usar biquíni também, né? 2017 foi o ano em passei a me sentir bem comigo mesma, de verdade. Fiz até um ensaio com o fotógrafo Yuri Ruppenthal, que tem um projeto chamado Divas e me chamou para participar. A ideia era mostrar que a mulher gorda também pode se sentir bem – e foi exatamente esse o resultado para mim. Me amei demais nas fotos!

Hoje, tem até uma cliente da agência de viagens em que trabalho que me chama de “a estilosa”. Uso o que me dá na telha: turbante, saia longa, decote! E, claro, biquíni! Comecei a ver que sou bonita sem me cobrir. Porque todo mundo pode e eu não poderia, né? Liguei o dane-se, hoje quero mais é ter minha marquinha de biquíni também!”

Foto: Mauricio Capellari

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