Depois de se curar de um câncer, jornalista de Osório viaja o mundo em busca da felicidade

O que me faz feliz? Era essa a pergunta que martelava na cabeça da jornalista Clarice Santos quando ela descobriu que tinha câncer. E aí veio a decisão: se conseguisse se curar do câncer, iria em busca da felicidade. E desde o ano passado ela vem realizando seu plano: já passou por nove países da América do Sul entrevistando pessoas sobre o que as faz feliz. O resultado será um documentário e um livro sobre os bastidores da produção e as andanças de Clara, como ela gosta de ser chamada, pelo mundo. No relato a seguir, ela conta sua história – e você pode seguir acompanhando as viagens e entrevistas no canal Clara Santos no Youtube, pelo Instagram @clarasantos6828 e pelo Facebook Clara Santos.

Depois de se curar de um câncer, Clarice Santos saiu literalmente mundo afora em busca da felicidade

“Quando descobri que tinha câncer, comecei a questionar quem eu era até ali, se eu era feliz. E pensei o que iria querer fazer caso tivesse apenas mais um ou dois anos de vida: viajar”

Desde o final de 2015, vivo nas estradas do mundo literalmente em busca da felicidade.

Eu achava que sabia o que é ser feliz até o início de 2013. Nessa época, eu trabalhava como uma louca no Ministério da Saúde, em Brasília. Então, em um dia normal, recebi uma ligação do meu ginecologista sobre o resultado de um dos meus exames de rotina – por ser vegetariana desde criança e ser doadora voluntária de sangue, sempre fiz exames gerais regulares. Já saquei que tinha algo errado, mas não imaginava um câncer maligno no útero, já em metástase. De uma hora para outra, hora mesmo, você tem que administrar a perspectiva de que pode morrer. É punk!

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Clarice no Chile | Foto: arquivo pessoal

No primeiro ano, quando a gente não sabe se o tratamento vai dar certo ou não, comecei a me questionar sobre minha vida, quem eu era até ali, o que fiz, se eu era feliz. E pensei o que iria querer fazer caso tivesse apenas mais um ou dois anos de vida. E não tinha dúvidas de que queria viajar, uma das coisas de que mais gosto e que mais me realizam.

Então, comecei a pensar em realizar um projeto sobre felicidade porque sabia que, se me curasse do câncer, ia querer fazer tudo diferente, ia querer fazer a diferença. Descobri que felicidade está assegurada na constituição americana, e de outros países também, como um item de bem-estar social. Comecei a ler sobre felicidade, sobre projetos de documentários e outras coisas sobre o tema, e comecei a escrever do meu jeito. Entre o diagnóstico do câncer e colocar o pé na estrada, eu me curei, mudei de emprego e voltei para Osório, minha cidade. Somente em 10 de outubro de 2016 parti rumo aos países da América do Sul para descobrir e mostrar em documentário e um livro do que se trata a felicidade. Saí com menos de R$ 1 mil na conta e me joguei! O plano era viajar pelo mundo entrevistando pessoas para descobrir o conceito de felicidade de cada um (e de cada lugar).

Já passei por Paraguai, Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Equador e Colômbia. Emprego mesmo, só consegui quando estava em Buenos Aires e trabalhei por um mês em um restaurante, de noite, e em um hostel, durante o dia – lá eu trocava a hospedagem por trabalho. Também aprendi a pedir. Pedir ajuda às pessoas, publicamente, usando as redes sociais, pedindo colaboração na minha conta bancária, porque o documentário só tem como recurso financeiro, até agora, as doações espontâneas. Também peço comida nos restaurantes, nas fruteiras, no final do dia. As frutas e verduras que não poderão ser vendidas no dia seguinte, porque já estão passando do ponto, às vezes as pessoas doam ou vendem por um preço muito barato. Peço hospedagem e ajudo na limpeza das casas de quem me hospeda. Faço comida, cuido das crianças e dos animais, quando tem – o que for preciso para ajudar e não ser uma hóspede indesejada, sem noção, deste tipo que “chega chegando”.

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Clarice no Chile | Foto: arquivo pessoal

Até agora, contando com o Brasil, país onde estou neste momento, vi e vivi coisas incríveis. Tenho aprendido a viver com muito pouco, já que minha mochila – onde levo, além do equipamento, pouquíssima roupa – é minha casa. De Buenos Aires para o Chile, cruzando a Cordilheira dos Andes, fui de carona de caminhão. Foi uma experiência única e maravilhosa. Conheci muito sobre a profissão de caminhoneiro e descobri como é difícil, insalubre, perigosa e super mal valorizada. Fiquei amiga e tenho contato até hoje com o caminhoneiro que me deu carona.

No Paraguai, meu primeiro país, cortei o cabelo bem curtinho, por uma questão de praticidade e de segurança, porque, em alguns países, a violência de gênero é grande e quanto menos chamar a atenção, melhor. Isto eu aprendi com amigas mochileiras. Foi no Peru que tive mais medo, com as olhadas muito maliciosas nas ruas. Lá também gastei tudo o que tinha de doação, fiquei com a conta negativa, porque tive que ficar muito mais do que pretendia. Por causa das chuvas fortes, as estradas ficaram bloqueadas e eu não tinha como recuar ou seguir. Eu ia, aos poucos, do jeito que dava, de moto, de carro, de ônibus, de cidade em cidade. Gastei muito e passei fome. Fiquei três dias sem comer e sem beber nada. E não foi só esta vez que passei fome. No Equador, também fiquei sem dinheiro. Um dia eu tinha dinheiro para uma refeição e a mais barata que achei era um pão com ovo. O ovo caiu no chão, na lanchonete, e eu juntei, passei um guardanapo e comi, mesmo assim.

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Clarice na Argentina| Foto: Arquivo pessoal

No Chile, em Valparaíso, um lugar maravilhoso para onde quero voltar um dia, fiquei em um hostel cujo chuveiro não funcionava. Tive que improvisar o banho e usar uma panela pequena e um pote de plástico grande como bacia. Na Colômbia, tive que fazer xixi em um copo plástico mais de uma vez, porque, como sempre fico nos lugares mais baratos quando não encontro ninguém que me hóspede, para ir ao banheiro eu teria que ou subir um andar ou descer um andar. Quando cheguei lá, tinha dinheiro para uma diária de hostel e nada para comer. No dia seguinte, me enviaram dinheiro por MoneyGram, mas não tinha como sacar porque era feriado de Páscoa. O recepcionista do hotel dividiu comigo um sanduíche e de noite comprou pizza e me ofereceu.

As histórias das pessoas que me dão entrevistas também são incríveis e muitas me emocionaram muito. A ideia do documentário e do livro nunca foi a de ensinar a ninguém sobre felicidade e, sim, despertar nas pessoas questionamentos sobre felicidade, assim como tenho feito. Cada pessoa que entrevisto me ensina um pouco sobre felicidade. Nenhum de meus entrevistados tem a mesma opinião. Entrevistei o dono de um café temático em Assunção, formado em Psicologia, e ele foi o único que falou que felicidade é uma reação química, meio parecida com sexo e amor. No Uruguai, me emocionou muito, de chorar mesmo, uma senhora que foi presa pela ditadura com o marido quando estavam a caminho da lua de mel. Ela foi torturada e exilada, mas escolheu a felicidade como um caminho, em vez de se colocar como vítima eternamente – hoje seguem casados e felizes. Na semana passada, em Maquiné, aqui no Rio Grande do Sul, entrevistei um casal que tem uma pousada ecológica. Para eles, ser feliz é fazer o que se gosta.

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Clarice no Paraguai | Foto: Arquivo pessoal

E descobri que existem países onde as pessoas são mais felizes. Dos nove países por que passei até agora, uma conclusão que posso tirar, com certeza, que não são apenas as questões econômicas que determinam a felicidade de um povo. Sem medo de errar, os países que mais valorizam sua cultura, sua história, sua arte, foi onde encontrei pessoais mais felizes. Até agora, o Paraguai me pareceu um dos mais felizes: este país pequeno, pobre, que valoriza muito sua cultura, a dos índios Guaranis.

Apesar das dificuldades, eu me sinto mais feliz a cada entrevista que consigo fazer. Faço tudo sozinha, viajo, administro as redes sociais, faço postagens, entrevistas, fotos. Mas estou realizando meu sonho – e fazendo diferença.

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