Depois de ser mãe: projeto incentiva e aconselha mulheres a voltarem à vida sexual ativa depois que os filhos nascem

Foto: pexels
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Camila Maccari, especial

A jornalista Leda Sangiorgio estava frustrada com a dificuldade para retomar a vida sexual depois do nascimento da filha, hoje com dois anos. A rotina a consumia: estava sempre muito cansada, sem libido e sem lubrificação – e já tinha passado pela chamada quarentena, período de 30 a 60 dias em que os médicos recomendam aguardar antes de voltar a fazer sexo para que o organismo se recupere do parto. Um dia, Leda foi adicionada a um grupo de Facebook criado pela publicitária Carol Martins, sua amiga há 15 anos e também recém mãe de primeira viagem – as duas engravidaram praticamente ao mesmo tempo, com apenas dois meses de diferença. No grupo, Carol postou um desabafo: ela também não encontrava espaço para retomar a vida sexual com o marido. Depois de ler o texto e se identificar com cada palavra, Leda chamou Carol para uma conversa e as duas decidiram seguir falando sobre o assunto. Criaram o Mães que Pensam Naquilo, projeto de empoderamento que conta com site e canal do YouTube destinado a incentivar a sexualidade da mulher na pós-maternidade.

– A gente percebe que tratar a sexualidade da mulher que é mãe ainda é uma coisa mais velada. Já recebemos, inclusive, críticas pela abordagem do projeto, como se mães não pudessem pensar em sexo e se preocupar com isso. Vida sexual é para qualquer um – defende Leda.

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A história de Carol e Leda é muito comum: nem sempre a retomada da sexualidade é um ato natural depois de se ter um filho. Incomum, na verdade, é o contrário. Uma pesquisa realizada pelo projeto mostra que 70% das mulheres brasileiras sentem que o desejo sexual diminui depois da maternidade.

– A mãe está amamentando e, por isso, os hormônios sexuais, isto é, o estrogênio e testosterona, estão inibidos, em níveis muito baixos que o normal. Isso faz com que a mulher não tenha nenhuma vontade de fazer sexo – explica Mara Diegoli, doutora em ginecologia pela USP.

Ocorre ainda uma mistura de fatores: além dos hormônios, o psicológico também influencia diretamente na libido da mulher.

– Aquela bagunça e desestruturação afeta psicologicamente também. Você já não está mais grávida, mas o corpo ainda não voltou ao normal. É comum que a ansiedade, a falta de auto estima e todas as emoções novas que vêm com a maternidade afetem o desejo. É um período de microdepressões – explica Izabel Eilert, psicóloga e terapeuta sexual.

No entanto, a psicóloga indica ficar atenta. Muitas vezes, a falta de desejo pode ter raízes mais profundas que o próprio momento de vida da nova mãe:

– Quando a mulher não encontrava tanto prazer no sexo mesmo antes de engravidar, o pós-parto pode ser conclusivo: muitas encontram mais prazer em serem mães, por exemplo. Aí a troca não faz sentido, então você gasta toda a sua energia no que é mais prazeroso.

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Se você está passando por esse momento tão cheio de sentimentos e contradições, as especialistas lembram que a carga de resolver todos os problemas do casal não está apenas em suas mãos. A companhia que a mulher tem ao seu lado influencia muito nas turbulências do período.

– Quando mais presente o parceiro for nesse período, mais amparada e segura a mulher se sentirá. Muitas vezes o marido começa a fazer cobranças, o que deixa a mulher ainda mais sobrecarregada e, portanto, com ainda menos desejo – explica Mara.

– A outra pessoa da relação, por mais envolvida que esteja com a chegada da criança, não está passando pelo mesmo momento que quem acabou de ser mãe. É preciso sensibilidade para entender esse momento e respeitar o tempo da mulher – completa Izabel.

Apesar da falta de rotina e os inúmeros sentimentos que vem com a fase, é possível – e saudável – fazer alguns esforços para restabelecer a intimidade com o companheiro.

DIVIDA AS TAREFAS
A maior reclamação recebida pelos canais do Mães que Pensam Naquilo é a seguinte: torna-se impossível pensar em sexo quando a mulher está tão cansada. E faz muito sentido, ainda mais quando você é praticamente a única responsável pelos cuidados com a criança.

– A exaustão é tanta que quando a gente vê a cama, só quer dormir mesmo – brinca Leda.

Izabel completa: é imprescindível que o companheiro também seja responsável e se envolva com as necessidades do bebê o máximo possível. Além de ser importante para a família e dar um tempo para a mulher, o parceiro também precisa ter noção do trabalho que é cuidar da criança.

RECUPERE A AUTO ESTIMA
Izabel explica que a baixa autoestima também é comum nesta fase: além do ganho de peso abrupto, também o pouco tempo que sobra para cuidar de si prejudica qualquer mulher:

– Conseguir pintar uma unha, usar uma roupa que goste, tomar um banho mais demorado: são coisas pequenas que funcionam para que a mulher não perca a consciência de si e recupere a autoestima, e isso nada tem a ver com se livrar do peso adquirido, por exemplo.

No começo da vida como mãe, muitas vezes as mulheres acham difícil encaixar este papel aos outros já desempenhados por elas.

– Agora você é mãe, tudo bem, esse pode, inclusive, ser o papel que mais vai exigir. Mas é importante lembrar que você também é filha, também é amante, também é profissional. Tem espaço para tudo e ser mãe não anula as outras coisas _ comenta Leda.

VÁ AOS POUCOS
Recuperar a intimidade é um passo muito importante para o casal. Izabel lembra que o sexo não significa apenas penetração: é preciso dar um passo de cada vez. Se o sexo completo ainda não é uma possibilidade (seja por dor ou por falta de vontade), comece investindo em carícias e em companhia.

– Reserve um tempo na semana em que a criança possa ficar com babá, por exemplo, e passem um tempo só os dois. Saiam para jantar, para ver um filme. É preciso que o casal se reconecte aos poucos, e isto naturalmente acabará levando ao sexo – destaca a terapeuta sexual.

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