Designer da revista Donna, Cristal Muniz reforça o exemplo de quem busca uma vida mais sustentável

Cristal criou em dezembro o blog Um Ano sem Lixo, no qual relata sua experiência
Cristal criou em dezembro o blog Um Ano sem Lixo, no qual relata sua experiência

Por Melissa Hoffmann, Especial

– Não queria fazer o estereótipo natureba-hippie-que-não-se-depila – brinca a designer da revista Donna Cristal Muniz, autora do blog Um Ano sem Lixo.

Cristal personifica uma nova tendência global que anda revolucionando o comportamento de muita gente por aqui: a de ser mais sustentável. Engana-se quem pensa que, para diminuir o lixo da sua casa, consumir produtos que não degradam o meio ambiente e morar perto da natureza, de preferência com um pé no mar, tem que fazer o estilo hippie, aqueles dos anos 70 em que se usavam roupas rasgadas, levantavam a bandeira “paz e amor” e consumiam drogas. Bem pelo contrário. A geração que está marcando esta época é antenada com as causas sociais, quer diminuir a produção do seu lixo e consumir produtos orgânicos – se possível plantados no próprio quintal.

– Um fenômeno muito poderoso está acontecendo em Florianópolis. A sociedade mudou tanto que reciclamos mais do que a companhia que coleta lixo. Não ser sustentável hoje é um mico – empolga-se Rodrigo Sabatini, presidente do Instituto Lixo Zero e diretor da Zero Waste International Alliance.

É nesse sentido que se encontram cada vez mais opções de empórios de produtos naturais, feiras de frutas e verduras que são plantadas e colhidas por pequenos agricultores e bolos e quitutes produzidos com menos açúcar. Um dos exemplos de maior destaque da cidade é o Mercado São Jorge, localizado no bairro Itacorubi, que no ano passado abriu sua primeira filial, no Centro. Além de ser ponto de encontro de jovens e famílias para saborear um almoço ou tomar um drinque no final de tarde, o local é atualmente o “templo” dos produtos naturais. Frutas e verduras possuem selo de certificação de alimento orgânico, o que garante que o produto é resultado de uma agricultura que preserva o meio ambiente, a qualidade nutricional e biológica do alimento e ajuda a manter a tradição da agricultura familiar e regional.

O que se observa atualmente é que o radicalismo foi deixado de lado. Se antes aquele que preservava o seu habitat era um hippie vegano – que não consome absolutamente nada de produtos de origem animal –, hoje busca-se o equilíbrio como comer carne sabendo sua procedência, por exemplo.

Assim, boas iniciativas florescem diariamente. Florianópolis entrou para o Guinness Book, no ano passado, por meio do programa ReÓleo como a cidade que mais recicla óleo de cozinha no mundo. O EcoModa, da Udesc, tenta disseminar o conceito de sustentabilidade ambiental por meio da produção e consumo consciente. Meu Copo Eco substitui copos plásticos por não descartáveis nas festas mais badaladas. Esses são apenas alguns dos muitos modelos que se disseminam pela Ilha. Porém o avanço ainda é lento se comparado a outras capitais da Europa e dos Estados Unidos, segundo o engenheiro agrônomo Alex Eckschmidt.

– O que observo é que há muito discurso e pouca prática. Claro que não há como negar que é um mercado que cresce, mas as pessoas que podem consumir produtos orgânicos, que naturalmente são mais caros, formam um grupo pequeno – avalia Eckschmidt, autor do livro Sustentabilidade para Todos: Faça a Sua Parte.

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Menos lixo, por favor

Quando foi morar sozinha, há quatro anos, a designer da revista Donna Cristal Muniz, 23 anos, começou a prestar atenção à quantidade de lixo que produzia. Incomodou-se. Nascia ali a vontade de tornar mais ecologicamente corretas suas atitudes diárias. A mudança, de fato, veio este ano, quando a catarinense, natural de Florianópolis, colocou no ar o blog Um Ano sem Lixo e resolveu mudar sua rotina para parar de produzir lixo.

A inspiração partiu da descolada blogueira nova-iorquina Lauren Singer, do Trash is for Tossers, que produz seu próprio detergente, pasta de dente, xampu e condicionador, não compra nada com embalagens e o pouquíssimo lixo orgânico que produz guarda no congelador. Cristal ainda não chegou a fazer seu detergente, mas usa escova de dentes de bambu, pasta dental orgânica, bolsa e guardanapo de pano e pote de vidro para colocar os líquidos que consome. Xampu, sabonete e condicionador são comprados em barras. Também começou a utilizar um coletor menstrual – que é uma espécie de copinho de silicone de uso interno que coleta a menstruação e é reutilizável. A consequência? Não há mais absorventes na lixeira.

– É engraçado porque eu achava que iria mudar muito, mas o que muda é o hábito. Você faz a mesma coisa só que com o objetivo diferente. É como começar a usar óculos ou parar de comer alguma coisa, tipo glúten, lactose ou carne.

No blog, Cristal encontra eco em outras pessoas que, como ela, também querem preservar o meio onde vivem. Descreve como é a aceitação nos restaurantes (e até durante um voo) em que pede para não usar guardanapo de papel e servir seu suco no pote de vidro. Dá receitas de como fazer leite vegetal, bolo e pão com castanhas. Tudo devidamente compartilhado nas redes sociais. E quem pensa que vai encontrar em Cristal, uma menina alta e tímida, um estilo hippie-natureba-que-mora-na-Lagoa-da-Conceição, se engana.

– Eu não queria usar tie-dye para reduzir meu impacto, mas não sabia se tinha outra opção. Ficava sempre pensando sobre o quão realmente menos impactante é um tie-dye do que um blazer preto. Tem muito preconceito dos dois lados: em quem consome muito e acha que só dá para “ser chique” consumindo desenfreadamente e quem tem essa vibe hippie e acha que quem usa blazer preto é um consumista que não pensa no meio ambiente – explica Cristal.

O fato de morar no bairro Itacorubi também contribui para a designer alcançar seu objetivo. Em um raio de um quilômetro de sua casa, ela encontra três lojas que vendem quase tudo a granel – dispensando assim as embalagens plásticas –, um mercado só de orgânicos, uma feira de agricultura familiar de um projeto social, um centro de agricultura familiar onde as compras são entregues em casa, além da coleta seletiva que atinge quase todos os bairros da Capital. Um grande impulso para Cristal continuar trilhando seu novo caminho.

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Um almoço sem lixo: hashis vieram na bolsa com o pote de vidro e guardanapo de pano. O suco foi da lata porque alumínio é bastante reciclado no Brasil

Um almoço sem lixo: hashis vieram na bolsa com o pote de vidro e guardanapo de pano. O suco foi da lata porque alumínio é bastante reciclado no Brasil

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Coletor menstrual de silicone, um copinho reutilizável que é usado internamente, além de durar vários anos. Preço médio R$ 70

Dicas

Como Cristal Muniz organiza sua rotina diária:

– Parar de comprar produtos que não sejam recicláveis, absorventes, tetrapak e isopor – que até são, mas como não sei como funciona a reciclagem no Estado parei de comprar. Evitar produtos adesivos, como embalagens de manteiga e de comidas industrializadas

– Trocar os descartáveis por reutilizáveis, como guardanapo, copo/garrafa, talheres, hashis, toalha, sacola de compras, por equivalentes em pano/vidro/alumínio. Levar na bolsa para não usar os que vão fora

– Evitar produtos com embalagens e levar saquinhos de pano para comprar frutas e potes para compras a granel

– Separar o lixo e descartar corretamente. Orgânicos vão para composteira – e isso inclui restos de comida, sujeira de varrer a casa e papel higiênico. Recicláveis vão para o lixo certo

– Comprar menos em todos os aspectos, comida principalmente para desperdiçar menos

– Usar produtos naturais. Uso sabão de coco líquido em vez do sabão em pó. Não uso amaciante nem outros produtos químicos. Limpo a casa só com vinagre, sabão e bicarbonato de sódio. Xampu, condicionador, maquiagem e sabonete compro versões naturais sem tantos produtos químicos.

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Menos brinquedo, mais diversão

A primeira impressão que se tem ao entrar no quarto de Sofia, seis anos, é que aquele recanto não é um tradicional quarto de criança. Não há dezenas de brinquedos espalhados pelos quatro cantos. Os poucos que Sofia tem são uma coleção de pedras “preciosas” e outra de conchas do mar. Uma pequena cozinha, um balde e uma tábua de lavar roupas de madeira são usados para brincar de casinha. Os poucos objetos de plástico são uma boneca, herança da mãe, a professora de Educação Infantil Mariana Iabrude, 29 anos, e um carrinho das princesas da Disney.

– Foi a primeira vez que a minha filha me pediu um presente de aniversário. Não podia negar. Não é um carrinho que eu gostaria de comprar, mas não sou radical – confessa Mariana.

Sofia não tem aquele louco desejo de ter a boneca nem a fantasia da Elsa, a popular personagem do filme Frozen, nem a Polly, muito menos a Monster High porque a família não tem TV em casa. Ela estuda em uma escola com a pedagogia Waldorf, no Campeche, sul da Ilha, onde mora. O método se inspira nas teorias da antroposofia, que prega que a vivência deve preceder a teoria. Os cadernos de Sofia são encapados pela mãe, e as festas de aniversário não têm tema.

– O consumo infantil sempre me incomodou. Precisamos estimular a criatividade de outras formas, além das que já estão prontas nas lojas em forma de brinquedos – diz Mariana.

O processo para uma vida mais simples e menos consumista foi natural. Alex Iabrude, 32 anos, e Mariana deixaram São Paulo há 12 anos em busca de menos trânsito, mais ar puro e maior convívio com a natureza. Alex se formou em ecologia:

– Sempre quis um trabalho que trouxesse benefício à sociedade.

Ele desenvolveu na empresa em que trabalhava um minhocário para compostagem caseira – que é uma maneira de reciclar resíduos orgânicos transformando-os em um composto rico em nutrientes. Levou a ideia para casa e montou sua empresa, a Minhocário Caseiro, que há três anos atende clientes de Minas Gerais, São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo. Somente a família Iabrude já reciclou mais de uma tonelada de resíduos em quatro anos.

– O minhocário muda o estilo de vida das pessoas, porque não aceita sal, gordura e comida industrializada, além de reduzir consideravelmente a quantidade de lixo produzido em casa. Sofia me disse que um dia não vai mais existir caminhão de lixo. Só minhocário – conta Alex rindo.

O líquido que sai no final da compostagem é usado como biofertilizante que serve de adubo para horta e jardim.

– O benefício não é só nosso. É da comunidade. A compostagem caseira permite a diminuição do mau cheiro nas ruas e nas lixeiras e previne a proliferação de animais vetores de doenças, como ratos, baratas e moscas.

O estilo de vida da família se reflete em outros consumos diários. Para ir ao trabalho, que ficou mais distante recentemente, Alex comprou um carro. Antes, fazia o trajeto de ônibus. Pelo bairro, o meio de transporte é a bicicleta, mesmo na chuva. No Campeche ele aproveita para comprar frutas e verduras na feira orgânica e bolos e bolachas de famílias que utilizam o forno a lenha no lugar do a gás.

– Sempre vivemos assim. Não sabemos como funciona de outra forma – diz Mariana.

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Revolução no quintal

Por Laura Coutinho

No meio ecológico e sustentável ilhéu, Marcos José de Abreu é referência. Consultando fontes envolvidas com o tema para a escolha de personagens dessa matéria, o nome do engenheiro agrônomo surgiu simultaneamente em diferentes grupos. Tamanha popularidade talvez venha do fato de que ele não apenas vive a ecologia na rotina causando o menor impacto possível como atua profissionalmente em nome da sustentabilidade, num trabalho que reverbera dentro e fora do meio conciliando idealismo e prática.

Mestre em Agroecossistemas, Marcos trabalha no Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro), é conselheiro do Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional) e um dos idealizadores do Revolução dos Baldinhos. O premiado projeto ecológico e social, que começou em 2008 na comunidade Chico Mendes e hoje se espalhou por outras comunidades do bairro Monte Cristo, em Floripa, gerencia a coleta de resíduos orgânicos de residências e instituições públicas de ensino numa iniciativa que contempla ideais ecológicos e sociais.

Sustentável, a casa onde Marcos vive ao lado da esposa, Emília Vieira, bióloga de 26 anos, e da pequena Maia, a filha do casal de 8 meses, foi toda erguida pelo próprio agrônomo com materiais de demolição e sobras, como os bancos de igreja que seriam queimados na beira de uma estrada e foram salvos para transformarem-se em escadas. Telhado verde, banheiro seco e horta orgânica alimentada pelo adubo da compostagem feita ali mesmo estão no rol sustentável da silenciosa morada, no fundo de uma servidão do Morro das Pedras, no sul da Ilha.

– Há sempre muito a ser feito por aqui – explica Marcos, deixando claro que, mesmo sem TV, shopping ou cinema por perto, o tédio não tem vez.

A comida da família também não vem do supermercado embalada em embrulhos plásticos, mas sim do quintal ou da agricultura orgânica urbana – serviço que Emília ajuda a estruturar ao lado dos vizinhos, num sistema que lembra os pacotes de assinaturas, e é entregue esporadicamente.

– Comemoramos quando conseguimos fazer uma refeição toda vinda do nosso pátio – revela Emília.

Alimento fresco e orgânico, estilo de vida menos acelerado, praia e lagoa a dois passos e bike para deslocamentos diários. Com estilo de vida extremamente desejável nos dias de hoje, a família parece seguir à risca a famosa frase de Mahatma Gandhi: “Seja a mudança que você quer ver no mundo”.

Fotos: Felipe Carneiro e Cristal Muniz/Agência RBS

 

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