Deslize! Como os patins se tornaram febre entre as mulheres

Foto: Bruno Alencastro
Foto: Bruno Alencastro

Desde que desceu a Serra para fazer faculdade de Publicidade e Propaganda em Porto Alegre, Marília Bandeira, 23 anos, retomou o hábito abandonado na adolescência. Aos finais de semana, ela prende o cabelo, veste uma calça legging e uma blusa leve e sai de casa acompanhada somente da mochila e do celular com um bom par de fones de ouvido. Na orla do Gasômetro, calça os patins e roda 15 quilômetros curtindo uma playlist e a brisa no rosto.

– Eu praticava patinação artística quando era criança, em Gramado. Quando vim a Porto Alegre e descobri que fechavam essa rua para lazer, tive a ideia de tirar os patins do armário e trocar as rodinhas para um modelo de rua. Gosto de ir sozinha mesmo, tirar um tempo pra mim e para curtir a cidade – conta.

Marília Bandeira trocou as rodas dos patins para deslizar no Gasômetro (foto: Bruno Alencastro)

Marília Bandeira trocou as rodas dos patins para deslizar no Gasômetro (foto: Bruno Alencastro)

Basta olhar para a orla do Guaíba aos finais de semana, ou para a pista do Parque Marinha do Brasil ao entardecer, e confirmar que o número de Marílias cresceu na mesma velocidade com que elas desfilam sobre rodinhas. Seja pelo exercício físico ou simplesmente pela deliciosa sensação de liberdade, mais e mais mulheres estão se aventurando sobre patins no asfalto de Porto Alegre. E o que um dos invernos mais amenos dos últimos tempos sinaliza é que, na primavera que se avizinha, patinadoras cada vez mais habilidosas e estilosas confirmarão que a tendência de uns dois anos atrás se transformou em febre.

Donna conversou com praticantes, profissionais da patinação e empresários do setor para mapear de onde vieram tantos patins. Percebe-se que as patinadoras se dividem em dois grandes grupos. O primeiro, das adeptas do patins tradicional – composto por dois pares de rodinhas paralelas, o “quad” -, com visual retrô que parece ter saído direto de musicais dos anos 1980, como Xanadu. Elas dividem o asfalto com as adeptas do patins inline, o “roller”, modelo com rodinhas em linha que é mais veloz, exige mais equilíbrio e que tomou o Brasil em meados dos anos 1990. Também estes tiveram as teias de aranha limpas e voltaram às ruas.

A preferência de modelo divide as irmãs Amanda e Jéssica Freitas, de 29 e 26 anos, respectivamente (saiba aqui e abaixo, em vídeo na reportagem, a diferença entre os dois modelos). A mais velha prefere o roller – “acho que é mais difícil de aprender, mas mais fácil depois que se aprende” -, e a mais nova, o quad, “acho mais fácil de se equilibrar, e mais charmoso também”. Aos domingos, elas vêm de Cachoeirinha patinar no Gasômetro.

– Nós praticamos desde criança. Conforme o pé ia crescendo, eu ia deixando e a Jessica ia pegando. Há três anos, quando vínhamos patinar na orla, havia pouquíssima gente. Chegávamos a chamar a atenção. Hoje está tomado de meninas de patins. De crianças até mulheres mais velhas – conta Amanda.

– O principal benefício, na minha opinião, é ser um esporte prazeroso. Além do exercício, se torna um hábito de lazer, como ir a uma praça ou a um cinema. Para fazer sozinha ou com amigos – complementa Jéssica.

Amanda (E) e Jéssica Freitas vêm de Cachoeirinha para patinar na Capital aos finais de semana (Foto: Bruno Alencastro)

Amanda (E) e Jéssica Freitas vêm de Cachoeirinha para patinar na Capital aos finais de semana (Foto: Bruno Alencastro)

Grande nome da patinação artística do Brasil, o gaúcho Marcel Stürmer é outro que atesta que a modalidade voltou à moda e ganhou os espaços públicos.

– A patinação sempre teve esse aspecto muito familiar, de passar de uma geração para outra. Mas uma prova de que há uma popularidade recente é que a minha turma que mais cresce, atualmente, é a de adultos – conta o tetracampeão pan-americano, que desde março dá aulas do esporte no Clube Caixeiros Viajantes.

Nos arredores da Usina do Gasômetro aos domingos, nas playlists, na moda: a onda dos patins vem ganhando força entre as mulheres.

Pistas na moda e na música

A cantora Sheryl Crow foi a última a aderir. Dia 7 passado, ela lançou o single Roller Skate com o refrão: “Deixe o celular pra lá, vamos patinar”. O vídeo consiste na musa country arriscando manobras intercaladas com cenas antigas de patinadores.

As origens do fenômeno são múltiplas. Fã e adepta do esporte desde criança, a stylist Gabriela Casartelli aponta aqui e ali alguns indícios de que as rodinhas invadiram o meio fashionista e, como tudo no mundo da moda, ganhou as ruas em seguida. Nos últimos anos, marcas como Ellus, Melissa e Farm colocaram modelos de patins nos seus catálogos. A Saint Laurent foi mais longe: transformou um stiletto em patins com três rodinhas (uma no salto), e colocou o modelo à venda por mais de R$ 8 mil.

Na mídia, Gabi aponta como um marco o videoclipe Gold, do australiano Chet Faker. A cena inicial é arrebatadora: faróis de um carro são a única luz de uma estrada à noite, até que surge um trio de patinadoras fazendo manobras na rodovia escura.

A líder do trio é Candice Heiden, vice-campeã mundial de patinação artística. Hoje, ela ganha a vida sobre rodinhas, como dançarina e influenciadora digital. Perfis como o dela (@candai) e outros como o LA Roller Girls (@larollergirls) somam alguns milhares de seguidores no Instagram difundindo mais do que um esporte, um estilo de vida.

 

A stylist gaúcha foi uma das que surfou (ou deslizou?) na onda. Aproveitou a febre para fundar, no mês passado, um grupo no Facebook, o Skating Club Das Minas (POA/RS) com a seguinte provocação no texto de apresentação:

“Quantas vezes você já deixou de botar os patins nos pés e ir para as ruas curtir um vento na cara por falta de parceria, insegurança de ir sozinha, zero incentivo? A intenção desse grupo é juntar o montão de patinadoras que estão por aí com os patins mofando no armário esperando um convite para ir pra rua. É pra quem patina há anos, mas também pra quem está criando coragem para começar a praticar esse esporte incrível e que ainda está se sentindo sozinha pra começar.”

– Acho que os patins têm um apelo oitentista bacana, mas o legal mesmo desse fenômeno é ver mulheres todas maravilhosas ganhando as ruas, sabe? – diz Gabi, que não raro vira uma espécie de profe das demais. – Esses dias, uma menina que mal parava em pé apareceu para patinar de bolsa! Terminou eu carregando a bolsa enquanto ela patinava.

Por essas e por outras, Gabi dá dicas valiosas do que vestir e levar para patinar.

Mas antes, os patins.

De Gravataí para o mundo

Para aderir ao fenômeno, as gaúchas levam uma vantagem em relação ao resto do Brasil. Se você ver um patins do modelo quad por aí, daqueles tradicionais com botinha e duas duplas de rodinhas, a chance é imensa de ele ter sido produzido pela Patins Rye, com fábrica em Gravataí e loja em Porto Alegre, no bairro Menino Deus. Ao menos se for um modelo de boa qualidade. Porque o lado ruim desse fenômeno, segundo a diretora da marca, Valeska Fasolo, é a quantidade de patins chineses de péssimo acabamento que eles recebem para conserto no balcão da loja na Rua José de Alencar.

– Cansei de consertar modelos de marcas famosas, até, que lamentavelmente optaram por comercializar produtos ruins a peso de ouro. Por outro lado, essa moda fez com que a gente pudesse apostar forte na linha Stilo, que tem estampas bacanas para usar na rua. Tem até um com estampa de unicórnio! – empolga-se Valeska.

Valeska Fasolo, da Patins Rye, mostra os modelos para patinação urbana (Foto: Carlos Macedo)

Valeska Fasolo, da Patins Rye, mostra os modelos para patinação urbana (Foto: Carlos Macedo)

Embora a maior parte do faturamento da fábrica ainda venha dos patins para praticantes da patinação artística profissional ou esportes derivados, como o hóquei, a Rye comemora uma linha de mais de 10 estampas desenvolvidas para agradar a essas novas patinadoras de rua. Hoje, a Rye calça desde atletas da patinação como Marcel Stürmer, até atores globais, como em recente temporada em que atendentes do bar da novela adolescente Malhação calçavam patins. A aceitação também é atestada pela loja virtual, no site da marca.

– Esses dias, recebemos um pedido do nada de 20 patins de um grupo em Manaus. Nunca tivemos sequer um representante comercial por lá. Isso só pode estar acontecendo no boca a boca – declara Vladimir Alcorte, diretor de marketing da marca.

Mas não foi apenas a venda de patins para mulheres adultas que cresceu nos últimos tempos, foram os infantis também. E essa parte do fenômeno tem sotaque castelhano.

Todas querem ser Luna

Entre as meninas, não há sombra de dúvida: a maior razão da explosão dos patins é a influência do seriado pré-adolescente Sou Luna, produção argentina que conta a história de uma patinadora tentando se adaptar à mudança da família para Buenos Aires. Com a segunda temporada em curso e a terceira já confirmada, o seriado dobra a audiência do canal a cabo Disney Channel em seus horários de exibição (na TV aberta também passa no SBT, no programa Mundo Disney). O que não estava no script é que as filhas convenceriam as mães a praticar. Ou melhor, a voltarem a praticar.

Foi o caso da arquiteta Danielle Melo de Barcellos, 40 anos. Quando a filha Laís, de sete anos, enlouqueceu com o seriado e pediu um par de patins, Danielle viu a oportunidade de retomar um esporte praticado na infância, quando se empolgou, fez aulas e costumava treinar acrobacias no pátio do condomínio.

– É uma pena, mas, por falta de tempo, a gente acaba abandonando alguns hábitos saudáveis e lúdicos, mesmo gostando tanto. Hoje é uma programação mãe e filha com a Laís. E é bacana que podemos praticar tanto em lugares ao ar livre, eventualmente, como em rinques fechados, em segurança – diz Danielle.

Mãe e filha frequentam aos finais de semana a escola Corpo Em Movimento Patinação, que, após atuar por anos dentro de colégios, observou a demanda por um lugar exclusivamente dedicado à patinação e à convivência e abriu um espaço no bairro Três Figueiras. O que antes era uma oficina de ônibus, hoje é um rinque em que se ministram aulas de patinação, abre aos finais de semana e ainda promove festas de aniversário sobre rodas. Promover eventos no espaço foi estratégico. Crianças e adultos que nunca antes haviam subido nas rodinhas pegam gosto pela sensação de patinar. Nas semanas seguintes, vêm as matrículas.

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A escola Corpo Em Movimento, na Zona Norte, reúne mães e filhas como alunas nas mesmas turmas. (Fotos: André Avila)

Aos finais de tarde, cresce a procura por turmas que reúnam duas gerações. São mulheres que vão desde as craques Michelle, 37 anos, e Laís Zanini, 10, que treinam e se apresentam juntas na patinação artística, até principiantes como Aline Lopes Moraes, 29 anos, e Patrícia Provenci, 41, convencidas pelas filhas e amigas inseparáveis, Cecília e Gabriela, de nove anos, a praticarem todas juntas, por lazer.

– Começamos há pouco, mas, entre um tombo e outro, vamos pegando o jeito – declara Aline.
E, com o tempo, vem ainda outro benefício. O físico.

Vem patins, vai academia

Difícil não observar isso no videoclipe de Gold, de Chet Faker. Os corpos das três patinadoras do clipe refletem exatamente os benefícios físicos mais visíveis da patinação. Ao endireitarem o tronco para se manterem equilibradas, as patinadoras ao mesmo tempo trabalham a musculatura do abdômen e a postura. E, ao patinarem, trabalham os músculos internos das coxas e glúteos. Quem está habituada a malhar em academia chega a uma conclusão óbvia.

– Sim, são simplesmente os grupos musculares mais difíceis de as mulheres trabalharem em aparelhos. E aqui a gente trabalha de uma forma muito mais gostosa – diz Tatiane Boff, professora na Corpo Em Movimento.

Neste ponto, há uma unanimidade entre as patinadoras: deslizar sobre rodas é uma forma para lá de prazerosa de se exercitar. Embora o gasto calórico não seja dos mais intensos (equivale, segundo Tatiane, ao de uma caminhada rápida), o fato de ser uma atividade divertida acaba compensando, levando a pessoa a se exercitar por mais tempo. Além disso, todas as praticantes relatam ganhos na postura, panturrilhas mais torneadas e coxas mais firmes. Frequentadora do Gasômetro aos sábados, Carole Funck, 32 anos, ainda completa:

– Além do corpo, trabalha a mente. Não há problema que não deslize para fora da cabeça após uma hora de vento no rosto.

Divididas entre os modelos quad ou roller, Marília, Amanda, Jéssica e Caroline deslizam pela orla. (Foto: Bruno Alencastro).

Divididas entre os modelos quad ou roller, Marília, Amanda, Jéssica e Caroline deslizam pela orla. (Foto: Bruno Alencastro).

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