Desprincesamento: oficina propõe repensar as noções de gênero a garotas de nove a 15 anos

Camila Maccari, especial

O anúncio da abertura de mais uma sede da franquia Escola de Princesas – desta vez no bairro de Moema, em São Paulo, a quarta no país – reacendeu o debate sobre estereótipos de gênero. Na carona nas discussões, a jornalista Mariana Desimone e a filósofa e pedagoga Larissa Gandolfo decidiram criar no Brasil uma oficina de “desprincesamento”, inspirada no modelo de seminários criados no Chile.
Os encontros – que serão realizados em dezembro em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo – querem ajudar a formar meninas livres e empoderadas e fazer com que elas desapeguem de noções sexistas às quais foram submetidas a vida inteira. O famoso “ isso é coisa de menina, isso é coisa de menino”.

– Até quando a sociedade vai continuar dizendo às meninas como agir e limitá- las aos estereótipos? – questiona Mariana.

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A jornalista refere-se às atividades das escolas temáticas para meninas, com opções que ensinam a melhor maneira de se portar à mesa, como se comportar em um evento social, como se maquiar ou organizar o próprio quarto, atrelando essas atividades a algo básico de ser mulher.

– É um contrassenso. O discurso de empoderamento ganha cada vez mais voz. Reforçar um estereótipo de mulher numa escola desse perfil vai contra tudo o que vem sendo discutido em redes sociais, empresas, escolas e ambiente acadêmico. Em segundo lugar, por que existe escola de princesas e não de príncipes? Quer dizer, as meninas devem ser treinadas para saber se portar, sem que haja contrapartida dos meninos? – afirma a doutora em linguística e pesquisadora de gênero Vivian Rio Stella.

Porém, não há nada contra as personagens de princesas da ficção, explica Mariana, que fez um treinamento com os criadores da primeira oficina de desprincesamento do Chile e é mãe de um menino de seis anos e uma menina de quatro. Segundo ela, ninguém quer destruir as figuras do imaginário infantil que muitas meninas aprendem a amar desde cedo: o objetivo, no entanto, é mostrar que existe algo a mais.

– Tudo bem querer ser princesa, mas isso só é válido quando a menina for consciente de outras possibilidades. Se dizem que toda menina sonha em ser princesa, isso só acontece porque elas, nem sempre, têm uma outra opção.

O encanto com o mundo lúdico dos contos de fadas pode ser o que leva as meninas a quererem participar da Escola de Princesas, que proporciona, inclusive passeios de limusine – meio de transporte que seria o equivalente da carruagem da Cinderela contemporânea.

– Além do encantamento lúdico das princesas e dos contos de fadas, também existem inúmeros produtos licenciados com ícones da Disney. Já dos pais, a vontade fica por conta de ensinar boas maneiras e de proporcionarem uma experiência e formação que atenda ao que supõem ser exigido pela sociedade, ou pelo grupo de pessoas com quem convivem – explica Vivian.

 

DESPRINCESAMENTO
Meninas de nove a 15 anos – mesmo as que curtem princesas dos contos de fadas e filmes – podem participar de encontros propostos por Mariana Desimone e Larissa Gandolfo. A ideia da “oficina de desprincesamento”, inspirada em iniciativa semelhante ocorrida no Chile, terá quatro aulas e pretende falar de coisas sérias com um viés pedagógico.Desde uma discussão sobre o que significa ser menina e por que isso é um tema tão recorrente até uma aula de autodefesa, passando por noções sobre o que é assédio.Aliás, é por conta disso que a idade inicial para o curso é nove anos, pois as fundadoras afirmam que a partir desta idade o problema já existe.

A formação do curso pretende ser orgânica, como define Mariana: a sementinha é plantada e os assuntos, depois, seguem sendo discutidos em casa, com os amigos, com a família.Tanto que os seminários não são propostos apenas para as meninas: os dois últimos encontros pedem a presença dos pais.

– Isso é necessário para que o aprendizado seja contínuo, para que os pais não reproduzam, eles também, os padrões que a sociedade já oferece para elas – finaliza.Por enquanto, a primeira edição será em dezembro, em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo. A ideia é levar a ideia adiante – e a discussão também.Afinal, meninas devem aprender que elas podem ser o que quiserem -inclusive princesas.

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Foto da oficina de desprincesamento do Chile/ reprodução

AS PRINCESAS
“ Todo sonho de menina é tornar- se uma princesa”. Com este slogan, a Escola de Princesas se instalou em dois Estados brasileiros ( três sedes em Minas Gerais, uma em São Paulo) e, apesar de existir desde 2013, deu o que falar nas redes sociais nos últimos tempos. Ganhou repercussão especialmente quando o projeto foi levado a por Sílvia Abravanel, filha de Sílvio Santos. Segundo o site do curso, há diferentes módulos, que ensinam as alunas (de quatro a 15 anos) a cozinhar, costurar e se maquiar. Também há aulas de etiqueta, como colocar a mesa, e postura.As estudantes ainda aprendem a se vestir e a se arrumar de maneira apropriada para ocasiões distintas. Por fim, a organização da casa: lições de como arrumar o quarto, a cama e os armários.

Foto da Escola de Princesas/ reprodução facebook

Foto da Escola de Princesas/ reprodução facebook

* Donna contatou as quatro sedes das Escolas de Princesas ( Moema/ SP, Uberlândia/ MG, Uberaba/ MG e Belo Horizonte/ MG) entre 14 e 16 de novembro, mas não obteve retorno para entrevistas.

 

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