Dia Nacional da Visibilidade Lésbica: a representatividade além dos clichês e do preconceito

Foto: Carlos Macedo, Agência RBS
Foto: Carlos Macedo, Agência RBS

Por Nanni Rios*

Neste Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, muito me alegra a oportunidade de ocupar esse espaço de – justamente – visibilidade. Não que a mulher lésbica não seja enxergada socialmente. Nós somos vistas, sim. Mas o contexto não costuma ser de protagonismo ou de diversidade. Temos exceções, é claro (e eu chego nelas no final deste texto), mas, em geral, as nossas vivências são enquadradas socialmente em dois extremos: o fetiche ou o ódio.

Mulheres lésbicas que se encaixam, fisicamente, num padrão “feminino” têm a sua relação fetichizada. Duas mulheres na cama são fantasia comum para os homens. A indústria pornô tratou de desenhar “bem” este estereótipo, com filmes em que duas (ou mais) mulheres apresentam um sexo automatizado e sem criatividade, sem graça e sem vigor, como boa parte dos homens imagina que seja o sexo entre mulheres. Algo morno, quase inválido e, em geral, com o uso de brinquedos e artifícios fálicos para tentar suprir a “falta” do homem na cena.

No outro extremo, estão as mulheres lésbicas com aparência e trejeitos mais “masculinos” que despertam certa repulsa e são, frequentemente, vítimas de violência verbal ou física, por simplesmente serem quem são. Juntas ou sozinhas, na cama ou indo à padaria, as mulheres lésbicas que não se enquadram no padrão estético que agrade ao desejo masculino são xingadas, ameaçadas e agredidas nas ruas todos os dias. “Quer agir como homem? Então vai apanhar como homem” é o que já ouvi de muitas amigas sobre como começam agressões na rua e até mesmo dentro de casa, fruto de uma total confusão entre sexualidade e papéis de gênero – um assunto que, por si só, renderia um novo texto.

Fato é que a sexualidade feminina sempre foi uma questão invisibilizada. O clitóris, por exemplo, órgão da anatomia feminina cuja única e exclusiva função é o prazer da mulher, foi descoberto no século 16, mas a comunidade científica (formada, basicamente, por homens) ignorou a sua existência pelos séculos seguintes. Já viramos a primeira década do novo milênio e existem artigos científicos bem atuais que contestam a existência (!) do clitóris, tamanha a negação de que as mulheres podem, sim, ter prazer sexual, seja com o parceiro, seja sozinhas ou – tcharãããm – juntas.

Num primeiro momento, vivemos o total silenciamento da expressão sexual feminina com base em mentiras científicas e sociais, levando à ideia de que o prazer feminino não existe – e muitas mulheres conviveram com esta “verdade” por toda uma vida. Em seguida, se admite que a mulher sente prazer, sim, mas ele deve servir ao entretenimento masculino – e se não servir, essa mulher não merece existir. A liberdade ofende: se ser mulher já é difícil, ser lésbica nunca foi fácil.

Na contramão, à margem

São séculos de privilégio masculino ditando como as coisas devem ser. A norma homem-mulher pautava, até então, todas as representações do amor e do sexo no cinema, na mídia, na literatura e, consequentemente, na vida até então. Logo, me parecia inviável, enquanto lésbica, me imaginar como ser possível, saudável e livre neste contexto.

Mas foi graças a representações alternativas àquelas de fetiche ou de ódio, em especial na literatura, que tudo começou a fazer sentido. Na contramão (ou à margem) do que a história tenta validar, eu aproveito esse Dia da Visibilidade Lésbica para destacar o trabalho de duas mulheres escritoras que contam as nossas histórias (as minhas, as delas e as de milhares de mulheres) dizendo ao mundo que, sim, nós existimos da forma mais diversa e natural que se pode imaginar. E, com isso, mudaram a minha vida.
Quando ganhei da minha amiga Alice Castiel o livro Um útero é do tamanho de um punho, de Angélica Freitas, o céu se abriu. Algo parecido aconteceu quando li o Amora, da Natália Borges Polesso. Destaco estes dois não só pelo que a leitura deles me causou, mas também pelo lugar que ocupam na literatura nacional: o Amora ganhou o prêmio Jabuti na categoria Contos e Crônicas no ano passado e o Útero… acaba de ganhar uma reedição pela maior editora do país, a Cia das Letras. Certamente, o reconhecimento fez com que estas obras chegassem às mãos de muitas mulheres que jamais tinham se visto representadas de uma forma tão genuína na literatura.

Angélica Freitas | Foto: Bianca de Sá

Angélica Freitas | Foto: Bianca de Sá

Acho que eu nunca agradeci de forma explícita à Angélica e à Natalia pelo que elas fizeram por mim. E também nunca disse que elas são, também, um pouco responsáveis pela “construção” dessa mulher que, hoje, no Dia da Visibilidade Lésbica, vem a público dizer que tem orgulho de ser quem é.


*Nanni Rios é uma das personalidades mais atuantes em defesa da causa feminista e da comunidade LGBT em Porto Alegre, destacando-se por sua atuação e influência junto, sobretudo, ao público jovem. Formada em Jornalismo, a catarinense comanda o Aldeia, espaço no bairro Santana que sedia cursos e eventos que promovam a cultura, a literatura e as artes.

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