“E se ela não fosse uma mulher negra?”: por que o tom de pele ainda se mostra decisivo

Foto: reprodução
Foto: reprodução

Por Fernanda Carvalho
Jornalista, feminista, ativista do movimento negro

Dia desses, diante de uma situação criminosa envolvendo uma mulher negra, com desfecho contra a vítima, fiz um comentário em uma rede social perguntando: “e se ela não fosse uma mulher negra?” Logo em seguida, meu comentário foi rebatido por uma pessoa que disse que meu “se” era inútil.

O que algumas pessoas talvez não saibam, provavelmente porque não vivam a nossa realidade, é que esse “se” é muito presente em nossas vidas. O primeiro “se” geralmente é responsável por fazer com que a gente se descubra como negra e entenda a exclusão que isso significará socialmente. E esse primeiro é seguido de muitos.

As pesquisas com dados sobre salários, cargos de chefia, desemprego, violência doméstica, entre outros, são inquestionáveis e categóricas ao posicionarem mulheres negras na base da pirâmide social.

Ainda hoje, histórias de sucesso são vistas como exceções, por isso é legítimo uma modelo negra questionar “se” sua carreira não seria diferente em um mundo que não estabelecesse como belo uma imagem tão diferente da sua. Ou uma mãe negra que perde seu filho de forma violenta, como acontece com outros 83 jovens negros diariamente, segundo as estatísticas, no nosso país, não se perguntar se seu filho não estaria mais protegido “se” o fruto do seu ventre tivesse nascido com outro tom de pele.

Foto: reprodução

Foto: reprodução

Entre tantas mulheres negras que admiro, uma teve uma vida feita de “se”. O talento da escritora Carolina Maria de Jesus apesar de imenso, não conseguiu ser maior que o preconceito racial. Ela personifica o quão triste é cogitar que a jornada poderia ter sido diferente apenas mudando o tom de pele. Carolina foi uma catadora de papel que guardava um pouco do que atava nas ruas de São Paulo para ter onde escrever. A menina que de tão curiosa aprendeu a ler muito cedo, quando crescida escreveu um diário contando as batalhas que enfrentava para criar os filhos sozinha em uma favela.

Em 1960, seu diário foi descoberto pelo jornalista Audálio Dantas e depois disso Carolina realizou seu grande sonho de publicar um livro. Quarto de Despejo foi traduzido para treze línguas, virou best seller e ainda hoje a obra de Carolina de Jesus é objeto de estudo em universidades importantes no exterior. Parece uma história de sucesso digna de filme, não é? Mas a realidade é outra. Carolina de Jesus morreu no esquecimento, ficando novamente pobre depois de ter saído da favela para morar na casa de alvenaria que tanto queria e ainda hoje é desconhecida do grande público e ignorada pelos currículos escolares aqui no Brasil.

Em seus livros, o que para mim é um “se”, para Carolina parecia ser uma certeza. O descaso nos tempos de favelada, as dificuldades para manter vivo o sonho de ser escritora e o triste fim da breve carreira teriam sido diferentes já que as adversidades que enfrentou foram, basicamente, por ela ser uma mulher e negra.

Foto: reprodução

Foto: reprodução

A morte de Carolina de Jesus completou 40 anos e de lá pra cá continuamos estabelecendo certezas, como a de que nossa estética tem que ser fortalecida diariamente entre nossas meninas para que elas cresçam sabendo que a falha está no imaginário social que não nos contempla e não na cor da pele ou nos nossos cabelos volumosos. Ou a certeza de que os degraus a mais que temos que subir talvez nos impeçam, sim, de chegarmos no patamar mais alto das profissões que escolhermos, mas não podem nunca impedir que iniciemos a subida.

Mas, nem só de adversidades é feita nossa trajetória, e nem poderia ser. Temos também nossas certezas positivas. E a mais importante delas é a certeza de que temos o sangue das nossas mães, avós, bisavós e de toda uma ancestralidade de mulheres negras, correndo em nossas veias. Mais do que fortes, isso nos faz especiais. A própria Carolina de Jesus, em seu livro mais conhecido, depois de narrar o quanto sofreu, afirma: “se é que existe reencarnação, quero vir sempre preta”. E eu também!

Leia mais
:: Fernanda Carvalho, jornalista e ativista: “Precisamos falar sobre as conquistas das mulheres negras”
:: Opinião: filme “Estrelas Além do Tempo” mostra a vida de mulheres negras cientistas dos anos 50
:: Depois de boneco do Star Wars, crianças negras fazem campanha: “Não me vejo, não compro”

Leia mais
Comente

Hot no Donna