Eles por elas: como os homens podem contribuir com a igualdade de gênero

Fotos: Divulgação
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Caue Fonseca

A criação do movimento ElesPorElas pela Organização das Nações Unidas, em 2014, veio a partir de uma conclusão que pode soar óbvia, mas que não a faz menos fundamental: para avançar em questões de igualdade de gênero, é preciso engajar também os homens. A adesão na cerimônia do Globo de Ouro 2018 de muitos atores ao movimento Time’s Up, mobilizado por mulheres da indústria do entretenimento contra o assédio em ambientes de trabalho, foi um bom exemplo.

O ElesPorElas, todavia, buscou homens que não fossem apenas solidários à causa, mas dispostos a ser agentes de transformação em seus próprios ambientes sociais. Um orgulho para os gaúchos – homens e mulheres – é que o Rio Grande do Sul se tornou um dos expoentes do movimento.

– Quando realizamos eventos do ElesPorElas, uma das reações mais comuns é de os homens acharem que a conversa é válida, mas pensarem “Esse papo aí não é comigo”. Que eles já têm a cabeça aberta para o assunto, logo não precisam fazer nada. Costumo dizer duas coisas: primeiro, que os números da desigualdade estão aí, e somos responsáveis por eles. Segundo, que eles devem pensar não apenas no tipo de homens que são, mas no tipo de marido que eles desejam para as filhas e netas deles – aponta o deputado estadual Edegar Pretto (PT), uma das lideranças do movimento no Estado.

A história de como o ElesPorElas se fortaleceu no Rio Grande do Sul passa pelo gabinete de Edegar. Em 2011, ano do seu primeiro mandato na Assembleia Legislativa, ele presidiu a Frente Parlamentar dos Homens pelo Fim da Violência contra a Mulher. Iniciativas como a campanha do “Cartão Vermelho: Violência contra a Mulher é Crime”, em parceria com a dupla Gre-Nal, e, principalmente, a estratégia das campanhas – focadas em conversar com os homens – chamaram a atenção da ONU Mulheres. O deputado foi convidado à roda de conversas sobre como engajar os homens no debate pela igualdade de gênero, em 2013. No ano seguinte, quando o ElesPorElas foi lançado em diferentes países, Edegar solicitou à ONU que o Rio Grande do Sul tivesse um comitê local próprio, algo inédito em âmbito estadual. Foi atendido.

O chamado Comitê Gaúcho Impulsor obedece à estratégia internacional do ElesPorElas batizada de Impacto 10x10x10. A lógica é se multiplicar engajando simultaneamente governos, empresas e universidades. No Estado, ele é composto por quatro representantes do Poder Público (incluindo a própria Assembleia), 10 empresas (incluindo quatro grupos de comunicação – dentre eles, o Grupo RBS), 14 universidades, oito entidades, os clubes Grêmio e Inter e quatro personalidades. São eles o músico Thedy Corrêa, cuja aproximação com o movimento se deu graças a Camila, Camila, clássico do Nenhum de Nós que aborda a violência doméstica em sua letra, o companheiro de banda Sady Homrich, o ator Werner Schünemann e o músico Renato Borghetti.

– É uma questão muito importante saber como se colocar. A intenção não é se tornar um protagonista do debate, mas alguém disposto a colaborar no seu ambiente – declara Thedy, exemplificando como isso se dá no seu caso.

No rock, há um problema de machismo. Não falo das músicas, mas de conduta mesmo. Do comportamento dos homens em relação à mulherada. Com o agravante de que o debate sobre o respeito às mulheres que a gente observa evoluir em alguns meios musicais, como o do hip hip, parecem passar batido pelo pessoal do rock.

Em 2017, o comitê gaúcho realizou ações de conscientização como o Dia ElesPorElas em oito universidades, diferentes empresas e blitze em sete eventos, como o Festival de Cinema de Gramado, o Acampamento Farroupilha e a Jornada Literária de Passo Fundo. Para este ano, uma das iniciativas mais importantes será um curso gratuito em direitos humanos e equidade de gênero formado em parceria entre a Assembleia Legislativa e a Fundação Escola Superior do Ministério Público, previsto para março. Com inscrições a partir da próxima semana, o curso terá 32 horas de duração.

Antes disso, haverá campanhas como o Verão Sem Machismo – com ações em Torres, neste domingo, e na Praia do Cassino, no próximo dia 27 –, Carnaval sem Assédio e Volta às Aulas Sem Machismo, com ações em instituições de ensino. Ao longo do ano, o comitê debaterá ações com temáticas específicas.

O cronograma passará por temas como violência obstétrica, relacionamentos abusivos, adoção, licença parental e novas masculinidades – este último, um tema pra lá de pertinente no Rio Grande do Sul. É a discussão sobre as chamadas “masculinidades tóxicas”, derivadas da visão do homem como um ser sem fraquezas, com a obrigação de resolver determinados embates à base da violência, inadequado para tarefas domésticas e até mesmo para explorar dons artísticos ou exercitar a própria vaidade. Na visão da coordenadora nacional do ElesPorElas, seria salutar a qualquer homem questionar esses estereótipos.

– Há questões, como o assédio, em que o homem precisa se colocar como um responsável pelo problema e nos ajudar a buscar soluções. Porém, em temas como as masculinidades tóxicas, fica evidente que igualdade de gênero é também liberdade de gênero. Todos ganhamos questionando essa forma de machismo – conclui Amanda Talamonte, da ONU Mulheres.

Um pouco mais sobre o ElesPorElas:

• Batizado internacionalmente de HeForShe, o movimento foi lançado por Emma Watson, atriz e embaixadora da ONU Mulheres, em um discurso à ONU em 2014. A atriz abre sua fala “querendo envolver o maior número de homens e garotos possível para defender uma mudança”. Diz Emma: “Quanto mais tenho falado sobre o feminismo, mais percebo que a luta pelos direitos das mulheres se tornou um sinônimo de odiar os homens. Se há uma coisa que eu tenho certeza é de que isso precisa parar. Para registro: o feminismo, por definição, é a crença de que homens e mulheres devem ter igualdade de direitos e de oportunidades. É a teoria da igualdade política, econômica e social dos sexos”.

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• O logotipo do ElesPorElas é a união dos símbolos de masculino (uma seta) e de feminino (um sinal de positivo), formando duas setas ao encontro uma da outra. A cor, o pink, foi sugestão da Pantone.
• No portal www.elesporelas.org, qualquer pessoa que deseje se engajar ao movimento é convidado a “assinar” a seguinte declaração online: “Eu sou um entre bilhões que acreditam que todos nascemos livres e iguais. Eu lutarei contra os preconceitos de gênero, a discriminação e a violência a fim de trazer os benefícios da igualdade de gênero para todos e todas nós”.
• Ao assinar e submeter seu endereço de e-mail, você concorda em receber novas histórias e sugestões de atividades ElesPorElas no seu país.

Eles se engajaram:

No perfil de Instagram @elesporelasheforshe, celebridades chamaram atenção para o movimento compartilhando cards e frases.

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“Será que nós homens conseguimos nos colocar no lugar de quem corre um risco cada vez que anda por uma rua escura?” Mateus Solano, ator

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“Será que eu e você somos fortes o suficiente para assumir que temos privilégios? Que igualdade de gênero não é uma luta somente das mulheres?” Marcelo D2, músico

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“Ser negro em um país preconceituoso não é fácil. Mas quem já sentiu o peso de um preconceito jamais poderia se omitir de lutar contra o outro. Assim como o racismo, o sexismo também é um vilão covarde e cotidiano e está em todos os lugares.” Érico Brás, ator

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“Chega da indiferença do ‘não é comigo’. Chega de fingir que não viu. Chega de achar que é exagero, que é normal, que sempre foi assim. Quando uma mulher é vítima de preconceito ou violência, a omissão torna-se também uma agressão.” Bruno Gagliasso, ator

Você precisa saber que…

  • 1 em cada 3 mulheres de todo o mundo já sofreram algum tipo de violência de um parceiro íntimo.
  • 2 em cada 3 analfabetos no mundo são mulheres ou meninas.
  • Mulheres dedicam 1 a 3 horas por dia a mais do que homens a trabalhos domésticos. E de 2 a 10 vezes a quantidade de tempo do dia cuidando da família em comparação com os homens.
  • Mulheres ganham de 10% a 30% menos do que homens que realizam as mesmas tarefas.
  • Nos Estados Unidos, as mulheres representam apenas 4,6% dos 500 CEOs contabilizados pela revista Fortune.
  • Mulheres representam apenas 21,8% dos parlamentares em todo o mundo.

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