Barba feita: mulheres conquistam espaço em uma profissão tradicionalmente masculina em barbearias do RS

Taylini Angeli trabalha na Men's Day Barber Shop | Foto: Andréa Graiz/Agência RBS
Taylini Angeli trabalha na Men's Day Barber Shop | Foto: Andréa Graiz/Agência RBS

*Por Rossana Silva, especial

Um cliente entra na barbearia apressado, com esperança de encontrar uma brecha para ser atendido. Não tinha conseguido agendar horário e os pelos do rosto já passavam da hora de ser aparados. O recepcionista vira-se para uma mulher no balcão e pergunta:

– Quebra esse galho para nós, Ket?

Por alguns segundos, o homem hesita em acompanhar a barbeira Ket Rodrigues, 36 anos, até sua cadeira. Não consegue disfarçar a surpresa com a situação.

– Mas é uma mulher que vai fazer a minha barba? Isso nunca me aconteceu…

O episódio registrado na Kapo Galeria, em Porto Alegre, já se repetiu em outras barbearias da Capital e do Interior que têm aberto espaço para as mulheres manejarem a navalha. Tradicionalmente exercida por homens, a profissão de barbeiro ganhou versão feminina nos últimos anos em estabelecimentos que se remodelaram, apostando em propostas mais contemporâneas, da decoração a atrativos como cervejas artesanais, mesa de sinuca, videogame e espaço para noivos.

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“Mas é uma mulher que vai fazer minha barba?” surpreendeu-se um cliente desavisado de Ket | Foto: Andrea Graiz, Agência RBS

O primeiro atendimento com uma barbeira não raro inclui uma pequena entrevista conduzida pelo cliente para matar a curiosidade de ver uma mulher exercendo aquela profissão e muitas vezes acaba em pedido de selfie. As respostas costumam revelar um desejo antigo de trabalhar exclusivamente com o público masculino, possibilidade remota antes da repaginação das barbearias. Mas, ainda que estejam se fazendo notar, elas continuam sentindo restrições.

– Tenho certeza de que ainda há barbearias em Porto Alegre que nem receberiam o currículo de uma mulher, mesmo que ela tenha mais experiência e melhor formação – afirma Ket.

As barbeiras que atuam no Estado são cabeleireiras que buscaram formação teórica ou prática para afeitar os fios do rosto masculino. Neta e sobrinha de barbeiros, Ket chegou a estudar Moda com a intenção de atender o público masculino. Na faculdade, porém, percebeu que queria ir além da roupa, conectando-a com o estilo de vida, o cabelo e a barba dos clientes. Decidiu direcionar sua carreira para a área de estética e dedicou-se a pesquisar sobre barba e visagismo até encontrar a escola da Barbearia Independência, em Passo Fundo. E não foi a primeira a mostrar seus serviços por lá. Pioneiro na remodelação das barbearias no sul do país, o estabelecimento abriu as portas há três anos já contando com uma mulher na equipe, Débora Schaffer. A princípio, a novidade causou burburinho na cidade, mas hoje a agenda de Débora é uma das mais concorridas. Deu tão certo que as proprietárias contrataram mais duas mulheres para o time de barbeiros nas duas lojas em Passo Fundo.

– Temos clientes que preferem fazer a barba com uma mulher por ter a mão mais leve e uma preocupação estética apurada. E a maioria, quando faz a barba com elas, não quer mais fazer com homem. O curso ainda é mais procurado por eles, mas as mulheres têm se matriculado cada vez mais – conta uma das sócias da Barbearia Independência, Flavia Escobar.

Ket Rodrigues trabalha na barbearia Kapo | Foto: Andréa Graiz, Agência RBS

Ket Rodrigues trabalha na barbearia Kapo | Foto: Andréa Graiz, Agência RBS

Há ainda quem faça questão de ser atendido por um homem. Mas a percepção é de que, na maioria dos casos, quem teve a barba afeitada por uma mulher quer repetir a experiência. Na Kapo, Ket chega a aparar e dar forma a 12 barbas por dia. O trabalho começa com uma máquina de corte de cabelo, que tira o excesso. Depois, uma máquina de acabamento é usada para definir as linhas. Começa, então, o desenho da barba em si e do bigode. A seguir, ela limpa a área na qual será passada a navalha com óleos e uma toalha aquecida para abrir os poros – que mais tarde serão fechados com uma toalha fria. É hora de pentear, tirar os excessos e esculpir, além de fazer uma hidratação com óleos, bálsamos e loção. Para finalizar, uma massagem com máquina, prática comum em barbearias americanas. Pode não parecer, mas já se passaram de 40 minutos a uma hora nesse atendimento.

O crescimento da barba, mais rápido que o do cabelo, torna os clientes assíduos. Quem tem a barba rala agenda horários semanalmente, enquanto o formato das mais longas pode esperar por duas semanas. Tantos encontros entre cliente e barbeira estabelecem uma relação próxima, conta Caroline Ilha Chini, 31 anos, que começou a exercer o ofício de barbeira oferecendo o serviço de graça a clientes que cortavam o cabelo no salão onde trabalhava e hoje atua na barbearia Velho Tranquilo, na Capital. Ela aproveita as brechas da agenda para jogar PlayStation e tomar uma cervejinha com os frequentadores no próprio espaço.

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Caroline Ilha começou oferecendo seus serviços de graça e hoje faz grandes amigos entre uma barba e outra | Foto: Anderson Fetter, Agência RBS

– Os meus clientes são brothers. Minhas melhores amizades fiz na minha cadeira – diz Caroline.
Foi assim em um dos primeiros atendimentos de Tayline Angeli, 26 anos, que atua há 10 meses na Men’s Day Barber Shop, em Porto Alegre. Um estrangeiro não conseguiu disfarçar a surpresa de ser atendido por uma mulher, mas logo transformou-se em cliente cativo. Passou a dividir com Tayline suas percepções da vida na Capital, apresentou-lhe a esposa e dividiu a notícia de que seria pai em primeira mão com a barbeira. Neste mês, foi fazer a barba e levou o filho recém-nascido para que Tayline o conhecesse.

– Costuma-se pensar que são as mulheres que gostam de falar no salão, mas os homens também adoram conversar na barbearia, contar como foi o trabalho ou o final de semana – diz a barbeira.
No meio desse bate-papo, volta e meia, ela responde a uma pergunta recorrente: como você aprendeu a fazer barba, já que não tem como treinar em você mesma?

– Claro que aprendi treinando em pessoas com barba, mas ter barba não quer dizer que os homens saibam fazê-la. Tenho muitos clientes que aprenderam porque eu os ensinei – diz Tayline, que cresceu na barbearia dos bisavós e recebeu da família a sugestão para seguir o mesmo caminho.

Foto: Andréa Graiz, Agência RBS

Vira e mexe, Tayline Angeli precisa explicar como aprendeu a fazer barba sem poder treinar nela mesma | Foto: Andréa Graiz, Agência RBS

Ainda que a cadeira em frente ao espelho seja reservada para eles, o espaço dedicado à beleza masculina tem chamado a atenção das mulheres também como público. Muitas vezes, a visita que era para ser despretensiosa e curta, acompanhando o marido, pai ou namorado, é estendida depois do atendimento para tomar uma cerveja ou jogar sinuca.

– Nós temos uma cliente que faz questão de ela mesma trazer o filho para cortar o cabelo. Enquanto isso, ela toma uma cerveja artesanal, assiste ao futebol na TV… As mulheres adorariam cortar o cabelo em um espaço assim – conta Tayline.

Na última sexta-feira, o time das barbeiras em Porto Alegre ganharia um reforço no Hugo Barber Club. A desenvoltura de Pricila Felipe de Vargas com o público masculino foi descoberta por Hugo Moser no curso de formação de cabeleireiros da Hugo Academy. Depois de ser aprovada em um estágio, estreia como barbeira efetiva da casa.

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Pricila foi descoberta em um curso de formação de cabeleireiros | Foto: Tom Silveira, divulgação

No que depender delas, uma mulher segurando navalhas será uma cena cada vez mais comum.

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