Entrevista! Blogueira Luiza Brasil fala sobre ativismo e as pautas do feminismo negro

O que a carioca Luiza Brasil escreve no blog de moda e empoderamento Mequetrefismos vai muito além das tendências: autoestima e representatividade negra estão sempre na pauta da jornalista que pratica o ativismo feminista a cada post. Por telefone, ela conversou com Donna sobre feminismo negro.

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Como começou o seu envolvimento com o ativismo?
Sempre trabalhei com moda, daí o blog Modices, da Carla Lemos, me convidou para escrever sobre cultura negra, cultura urbana e representatividade. Só que naquela época, em 2011, não tinha esse nome de representatividade, empoderamento, nada disso. Escrevia sobre cultura black. Daí, surgiu a ideia de uma pauta pensando quem eram as it girls negras: é muito fácil a gente achar referências legais sobre Beyoncé, Rihanna, que são nomes da mídia. Mas quem são essas representantes aqui? Fiz uma pesquisa bem elaborada, com 10 nomes de mulheres e comecei a ver que elas, assim como as it-girls brancas, nem sempre tinham nome, um codinome de internet ou redes sociais, elas eram anônimas. E as blogueiras negras não tinham atuação tão importante na moda, no street style e tudo mais. A repercussão foi tão grande que a gente começou a ver realmente a necessidade de falar da mulher negra, da sua representatividade. Virou uma missão porque vimos o quanto a gente era carente de referências. Não que hoje em dia esteja tudo melhor, mas acho que conseguimos evoluir um pouco, enfim… Trazer representatividade para um conteúdo de moda é muito importante, ainda mais no Brasil, onde essas referências estão ainda muito eurocentradas. E esse conteúdo de moda voltado para cultura negra que comecei a fazer no Modices evoluiu para o meu blog.

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Por que precisamos do feminismo negro?
É muito clara a importância da sororidade entre mulher branca e mulher negra. Acho que todas nós temos que nos relacionar de uma forma pacífica. Não acredito que a separação (entre feminismo branco e feminismo negro) seja para segregar – não é. Mas também tem que levar em consideração que as mulheres negras em algum momento sofrem um pouco mais do que as mulheres brancas, principalmente quando se fala em autoestima. Não ter um cabelo no padrão estipulado pela sociedade, ter os traços que não são os estipulados pela sociedade, o tipo de corpo… Tudo isso cai na mulher negra com um peso um pouco mais abrupto. Essa é a grande questão. Estou falando em um viés estético, mas também acho que essa parte estética acaba evoluindo para uma série de preconceitos.

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Em que estágio o feminismo negro está atualmente?
Detesto comparar Estados Unidos e Brasil, porque são constituições de sociedade muito diferentes, mas acho que a gente está agora no que os Estados Unidos começaram a fazer na década de 1960: uma coisa mais radical e revolucionária. A gente está em um momento não só da mulher negra, mas dos jovens negros, que estão sendo mortos pela polícia – falo do contexto Rio-São Paulo, não sei muito o que acontece no Sul. E quem geralmente está a fim dessas lutas são as mulheres, não são os homens. E assim como teve figuras como a Angela Davis lá fora, na década de 1960, no Brasil quem está construindo esse empoderamento e essa questão de representatividade é o movimento feminista, o feminismo negro.

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Quais são as bandeiras do feminismo negro?
Uma das coisas que, hoje em dia, a gente traz é a questão do jovem negro vivo. Por mais que seja uma questão racial em geral, nós negociamos essa bandeira. Por quê? Porque nossos maridos estão sendo mortos, nossos filhos podem ser mortos, enfim… Tem toda uma questão que mexe com o feminino também. E há a autoestima negra e a representatividade em vários setores, como moda, publicidade, imagem de moda, imagem de mídia, a questão da mulher negra tendo presença como médicas, como arquitetas, como doutoras.

Elas dão o recado: 4 personalidades para conhecer

Magá Moura

Com suas inconfundíveis tranças multicoloridas, a baiana Magá Moura traz a beleza e a moda como forma de empoderar mulheres.

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Gisella Francisca

Representante da mulher curvilínea e plus size, discute padrões estéticos enquanto fala de estilo, beleza, viagens e gastronomia.

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Loo Nascimento

Transborda estilo em looks do dia que misturam referências étnicas e muita cor a peças com pegada moderninha.

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Afros e Afins, por Nátaly Neri

Feminismo, moda consciente, estética negra e empoderamento são alguns dos temas que a YouTuber aborda.

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Conheça também

Blogueiras Negras
Quase uma revista online, o coletivo reúne textos sobre resistência, identidade, artes, estilo e saúde & beleza.

Djamila Ribeiro
Uma das principais ativistas negras do Brasil, a secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo escreve sobre racismo e outros temas para a Carta Capital.

Geledés
No site do Geledés – Instituto da Mulher Negra, você encontra discussões sobre questão de gênero e cultura afro e notícias relacionadas à comunidade negra.

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