Entrevista! Bruna Linzmeyer fala sobre representatividade e feminismo: “Minha sexualidade é livre”

Foto: Julia Rodrigues
Foto: Julia Rodrigues

Quando participou do Festival de Gramado como jurada há dois anos, Bruna Linzmeyer teve uma passagem discreta pela Serra. Pouquíssimas entrevistas, algumas fotos e raros registros nas redes sociais. Hoje, discrição é uma das palavras que certamente não definem a vida da atriz de 25 anos.

Natural de Corupá, cidade com cerca de 10 mil habitantes no interior de Santa Catarina, a jovem virou referência para uma nova geração que luta pela liberdade de ser quem é em todas as suas possibilidades. É uma Bruna mais madura e ativista que chega ao Estado para o evento de cinema deste ano, com início marcado para a próxima sexta-feira (17) – ela estará em cena no filme de abertura, O Grande Circo Místico, e no longa em competição O Banquete.

Foto: Globo Filmes/Divulgação

Bruna em O Grande Circo Místico. Foto: Globo Filmes/Divulgação

Depois de quatro anos casada com o ator Michel Melamed, a atriz se envolveu com a cineasta Kity Féo, em 2016. No ano seguinte, começou a namorar sua atual companheira, a artista visual Priscila Visman – declarações para a amada são constantes nas redes sociais. É também em seus perfis que Bruna se posiciona abertamente sobre temas como política, feminismo e questões LGBTQ+, além de deixar seus pelos à mostra em fotos – o que gera críticas de uma parcela do público.

– Eu me enxergo como uma artista e cidadã que luta e resolve se posicionar pelas coisas em que eu acredito. Entendo como meu papel – avalia a atriz.

Foto: Julia Rodrigues

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Bruna cresceu e apareceu desde sua estreia na televisão, na série Afinal, O Que Querem as Mulheres?, em 2010. Conquistou espaço com personagens de sucesso em novelas, emendou um filme atrás do outro e trocou tanto de cabelo em função de seus papéis que é difícil saber qual é o corte ou a cor atual. Mas as mudanças, destaca a atriz, ocorreram mesmo no íntimo:

– Fui amadurecendo como cidadã, como feminista, como mulher. “Tens que” precisam ser questionados.

Nas próximas perguntas, você mergulhará em um bate-papo de mulher para mulher. É uma conversa descontraída, na qual a atriz falou sobre carreira, liberdade feminina, desafios de ser uma mulher que expõe suas opiniões e sobre como o apoio da família foi importante quando se assumiu gay.

Você se posiciona abertamente sobre os direitos LGBTQ+ desde que assumiu a homossexualidade, há cerca de dois anos, e já sofreu ataques homofóbicos nas redes sociais. Ainda é difícil lidar com isso?
Não tem um dia que eu ande na rua em que não venha uma mulher ou alguma pessoa falar comigo. Tanto por eu ser lésbica, por eu me posicionar como mulher lésbica e feminista, mas também pelo meu trabalho. As pessoas vêm falar comigo sobre esses assuntos de forma tranquila. Claro que têm alguns preconceitos que sofro, algumas coisas que eu ouço na rua, comentários absurdos na internet e coisas que fico sabendo, mas, ainda assim, sou uma mulher branca, completamente dentro dos padrões de beleza, atriz da Globo, famosa pelo país. Isso me protege de muita coisa. Sou privilegiada, vivo nesta bolha. Acho que tem gente que vive muita treta mesmo, as pessoas de periferia. Às vezes, no interior, até aí no sul, vejo quando viajo para Santa Catarina. Quando você está fora do eixo Rio São Paulo, quando é de algum outro tipo de minoria, você é preta ou indígena, além de ser lésbica, além de ser feminista. Ou você é gorda, ou fora de padrão de beleza. Tudo isso fica muito treta mesmo, aí vem a real problemática do preconceito. Então, obviamente que eu sofro, mas isso é muito pequeno perto do que está acontecendo no mundo. As pessoas me dão esse retorno de que, como tenho esse espaço de fala dentro do meu Instagram ou no jornal, me sinto no direito de cidadã de falar: “Gente, é isso. Tá treta, vamos se ouvir, respeitar as diferenças, lutar pelas coisas juntos”.

Foto: Julia Rodrigues

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Você já afirmou em entrevistas que se definir como mulher lésbica “é um ato político”.
É um ato político usar essa palavra. Porque eu, como ser humano, não quero ser reduzida por essa palavra em nenhuma esfera. Se fosse pensar na minha sexualidade, a minha sexualidade é livre: quero, posso e vou ficar com quem eu quiser. Existe até um nome para isso, que é pansexual ou panafetiva. Vou me relacionar com seres humanos, não importa o gênero deles, a sexualidade, com o que ele se identifica. Mas o uso da palavra lésbica, porque também sou lésbica, não sou só lésbica, é importante para o ato de luta. As pessoas falam pouco a palavra lésbica, né. Além de ser homoafetiva ou homossexual, eu ainda sou mulher. E é isso que a palavra lésbica traz. Há um preconceito, um machismo e misoginia porque é mulher e também porque namora outras mulheres. Por isso o uso dessa palavra é importante. Mas considero a minha existência, o meu corpo e o meu prazer muito maior do que qualquer caixinha.

Qual a importância da representatividade dentro e fora da ficção?
Tanto no cinema quanto na televisão, a representatividade homossexual ainda é muito sobre os homens gays, pouco sobre as mulheres lésbicas. Acho que a gente precisa falar mais sobre todas as minorias políticas e a gente também precisa dar mais espaço neste segmento específico para as mulheres lésbicas. Já tiveram outros, mas a maneira como está sendo tratada agora a história da Nanda (a atriz Nanda Costa, que interpreta uma personagem gay na novela Segundo Sol e também assumiu, neste ano, o relacionamento com a compositora Lan Lanh), é linda. É muito importante. A Louie (youtuber Louie Ponto), de Floripa, eu queria que existisse quando eu era adolescente. Teria mudado completamente a minha vida. Representatividade é muito importante. Se faço por alguém o que acho que a Louie faz por mim mesmo tendo a mesma idade que eu, já é muita coisa. É dar pertencimento. O que representatividade traz é pertencimento. Não sou estranha, não estou doente. Não tem nada de errado comigo. Quem está doente são vocês que estão achando meu amor estranho. É isso que representatividade traz. É muito importante tanto na narrativa, quanto na vida, nas ruas. Eu boto a maior fé, tipo: “Galera, só vive feliz. Só anda na rua e faz o que quiser porque você pode”.

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Foto: Julia Rodrigues

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Como você percebe o feminismo do século 21, impulsionado pelas redes sociais?
Olho para minha mãe, e ela foi muito feminista. Ela só não tinha consciência desses termos que usamos hoje. Acho que tem muitas mulheres de 60, 70 anos que foram muito feministas, que lutaram pela sua liberdade, pela educação dos filhos, pelo seu trabalho. Tiveram ações feministas. Hoje em dia, temos oportunidade de dar narrativa para essas ações. Dar discurso, nome, de poder falar sobre isso. Acho que as redes ajudam muito, estou vivendo esse tempo. Converso às vezes com pessoas mais velhas, de 50 anos, e elas falam: “Cara, nos anos 1990, não aconteceu nada. Agora está acontecendo”. Eu era uma criança nos anos 1990, nasci em 1992. Não sei como era, mas sinto que hoje tem muita coisa acontecendo. Não só do feminismo, como na questão racial, da questão da sexualidade. As minorias políticas estão tendo oportunidade de se colocar.

Foto: Julia Rodrigues

Foto: Julia Rodrigues

Quando você posta fotos com pelos à mostra costuma ser criticada. Não aderir à depilação é um gosto pessoal, mas também se torna um ato político? Para marcar um espaço de liberdade?
Acho engraçado de estar atrelado ao meu nome isso, porque há três ou quatro anos o que era atrelado ao meu nome era eu de biquíni na praia, ou eu e meu ex-marido (o ator e diretor Michel Melamed), ou eu jantando, coisas completamente desimportantes e quase invasivas. Como continua sendo eu com minha namorada na praia. Então, isso não muda. Isso é uma questão de como as redes e a mídia estão interessadas em falar da vida das pessoas. O que mudou é que eu mudei. O que as pessoas estão olhando agora tem um cunho político. Porque eu entendo o meu corpo como um corpo político. Quem sou eu andando na cidade? Quem é meu corpo, o que ele representa? Acho que os pelos especificamente (suspiro profundo)… Obviamente já achei estranho, já me depilei durante muitos anos, desde muito nova, talvez quando estava para menstruar. Por que isso? A pergunta que eu já me fiz: por que é sujo na mulher e no homem não? Por que a mulher é sexy sem pelos se toda a mulher adulta tem pelos? Entende onde quero chegar? Que sexualidade é essa? Quem são as mulheres que não têm pelos? São as crianças, as meninas. Então é uma infantilização da mulher, é realmente você não pode crescer. Tem quase uma pedofilia junto com isso, querer uma mulher completamente sem pelos. Tudo isso é um pensamento muito conceitual. Obviamente, quando falo com as minhas amigas que gostariam de depilar e ainda acham estranho, eu entendo. É um processo de desconstrução, porque eu fui construída a achar isso sujo ou feio. Hoje, eu acho bonito, acho sexy. Hoje, quando estou no metrô e uma mulher levanta o braço e não tem pelo embaixo do braço, eu acho estranho. Falo: “Nossa, mas é tão não natural isso”. Mas é um processo que a gente tem que ir juntas conversando. E se alguém quiser raspar os pelos, não tem problema nenhum. Acho que é justamente sobre isso que é a nossa luta, você faz o que quiser com seu corpo. Se você quiser tatuar. As pessoas acham tatuagem normal, por que pelo, que é natural, você não acha normal?

Você não esconde suas posições políticas. Criticou o machismo nas perguntas para a candidata Manuela D’Ávila no Roda Vida, cobrou as autoridades sobre o caso Marielle, usou a hashtag #ForaTemer.
Claro que, como artista, gosto de me posicionar, mas é meu papel como cidadã mesmo. Voto nessas pessoas, essas pessoas cuidam do meu país, do país onde eu estou, das pessoas que estão em volta de mim. É meu papel como cidadã falar sobre isso, conversar, me questionar, provocar questões. Obviamente como artista e cidadã eu tenho um alcance um pouco maior. Se eu tivesse uma profissão comum, se eu fosse marceneira, eu iria falar sobre isso. É um papel nosso, acho que nos afastamos muito da política partidária. A gente precisa estar perto. Por mais que a gente tenha a ideia de que a política é horrível, só tem gente corrupta, é ela que está governando. Então, se a gente não adentrar, como mudamos as coisas? Só ONGs e Instagram não vai rolar. A gente tem que estar lá. Outras Marielles têm que chegar. Me sinto como artista-cidadã que precisa falar, e para além de tudo o assunto me interessa.

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Foto: Julia Rodrigues

Foto: Julia Rodrigues

Mas isso já gerou problemas para você na carreira?
Não sei dizer bem. Acho que são coisas diferentes. Sobre homofobia, não me chamar para trabalhar porque namoro uma mulher, galera, então vai embora logo, porque não quero trabalhar com gente homofóbica. Agora, sobre questões políticas, não estou aqui para brigar com ninguém. Estou aqui para conversar. E tudo bem, não precisamos ter a mesma opinião. E não precisa ficar polarizado, tipo o ódio e o amor. As coisas se cruzam. Tem que saber conversar. Sobre isso, acho que ninguém deveria deixar de trabalhar com alguém se tem uma posição política contrária. Tomara que a gente consiga conversar.

Costuma ir para Santa Catarina visitar sua família? Como é a relação de vocês?
Tento ir sempre assim, e vou com bastante frequência. Meus familiares também vêm me visitar. Mas tenho uma relação muito forte e profunda com Corupá. Amo Corupá, as terras, as águas. Amo as pessoas que estão lá. Quando volto, é sempre um carinho, tanto no coração quanto no corpo. Tenho muito carinho por aquele pedaço de chão.

Sua família foi seu maior apoio quando assumiu ser gay?
Meus pais são maravilhosos, eles súper me apoiam. Claro que, junto comigo, também enfrentaram algumas coisas, mas foi muito importante o apoio deles. Tanto de eles falarem: “Acho um pouco estranho, não estava preparado para isso, mas eu te amo, você é minha filha e quero que seja feliz. Vamos junto nessa caminhada, quero aprender junto com você”. Essa atitude é a mais importante e mais bonita. Se tiver algum pai que vai ler isso (risos)… Conseguir se conectar com o amor, com coisas que seu filho tenha para ensinar ou descobrir junto com você. Abrir o diálogo, e não ter uma atitude radical. E meus pais foram maravilhosos, por mais que sejam pessoas muito simples do interior.

Foto: Reprodução/Instagram

Foto: Reprodução/Instagram

Você e a Priscila, sua namorada, lidam bem com a questão de exposição na mídia? Estamparam a capa da Caras recentemente e teve muita repercussão.
Acho que são escolhas. Eu escolhi estar na capa da Caras, foi consciente. Assim como os posts que faço no Instagram. Então, tudo o que mostro, eu quero mostrar. O que é realmente privado da minha vida, ninguém conhece. Tenho uma vida muito dentro da minha casa, das minhas coisas. Parece que é, mas não é.

Bruna em duas versões do Festival de Gramado

A atriz poderá ser vista em dose dupla no Festival de Gramado. Dirigido por Cacá Diegues, O Grande Circo Místico é o filme de abertura, no qual Bruna interpreta uma contorcionista. Já na mostra competitiva, está O Banquete, longa dirigido por Daniela Thomas. Na trama, ela é uma estrangeira que chega para o jantar carregada de opiniões críticas e debochadas. Ambos estreiam em setembro no circuito nacional.

Foto: Imovision/Divulgação

Bruna em O Banquete. Foto: Imovision/Divulgação

– No Circo Místico, passei meses fazendo ioga, dança do ventre e aula de circo. E a gente conseguiu não usar dublê para as cenas, fizemos adaptações, mas meu corpo foi se moldando nos meses de trabalho. Já o filme da Dani (Daniela Thomas), sabe quando você está meio imerso e chega alguém de fora e você fala: “Mas o que está acontecendo aqui é muito absurdo?”. Ela é essa personagem que deflagra os absurdos, que fala: “Gente, vocês são muito loucos” (risos). Foi delicioso porque é muita treta nesse banquete. Minha personagem está só se divertindo.

Sobre a exibição em Gramado, Bruna está animada:

– Tem a expectativa muito grande de entregar um filme para o mundo e entender como as pessoas vão receber. Adoro isso. Já fui muito para o Rio Grande do Sul, tenho muitos amigos que moram em Porto Alegre. Meus pais vão, meu irmão, todo mundo estará lá para assitir à estreia. Muito fofo.

Novos desafios na tv

Bruna roubou a cena em novelas como Meu Pedacinho de Chão (2014), quando interpretou a doce professora Juliana, e Amor à Vida (2013), na qual fez sucesso na pele de Linda, diagnosticada com autismo. A atriz já está confirmada para a próxima novela das nove, O Sétimo Guardião.

– Devo começar a ensaiar mais precisamente no final do mês e, em setembro, começo a gravar. Estou bem feliz com a Lourdes Maria. Posso adiantar que ela vai trazer muitas conversas para a gente, sabe? Ela vai proporcionar debates em casa. Essas personagens de novelas têm muito a contribuir com questionamentos e dúvidas, coisas que você pensa: “Mas será que é isso mesmo?” – contou Bruna.

Do Garota Verão para o Brasil

A carreira de Bruna começou na área da moda. E um dos trampolins para a vida em São Paulo foi a faixa do concurso de beleza Garota Verão, na etapa de Corupá, em 2009.

– Sempre tive vontade de morar em outra cidade além de Corupá, porque Corupá tem 10 mil habitantes. Ser criança em uma cidade de 10 mil habitantes é um sonho, mas ser adolescente é mais complexo. Tinha vontade de sair, de fazer outras coisas, mas meus pais não tinham grana para me mandar fazer intercâmbio. Era: “Tá bom, a gente quer que você siga seu sonho, como podemos ajudar?”. E o Garota Verão foi o início desse processo de “então tá, você está dentro dos padrões de beleza e quem sabe pode ganhar dinheiro como modelo”.

Foi na capital paulista que Bruna fez cursos de teatro e se descobriu como atriz. Voltar para o interior de Santa Catarina não era uma opção, então o jeito foi bater à porta da Globo, conta:

– Fui a uma agência de modelos e disse que queria fazer um teste para Globo, porque achava que a Globo ia me dar dinheiro para não voltar para Corupá. Eles riram e disseram que eu e o Brasil inteiro queríamos isso. Repeti que queria fazer um teste. E rolou. Passei, e fui indo.

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