Entrevista! Em novo livro, Regina Navarro Lins amplia debate sobre as novas formas de amor e sexo

Foto: Robinson Estrásulas
Foto: Robinson Estrásulas

A psicanalista Regina Navarro Lins é a voz mais progressista e pop sobre sexo e relacionamento no Brasil. Prestes a completar 69 anos e há 20 deles explorando esses temas em espaços como livros, redes sociais e programas de TV, Regina esteve em Porto Alegre no último dia 8 para uma palestra no Instituto Ling em que lançou o livro Novas Formas de Amar (Editora Planeta, 2017). Trata-se de um compilado de ideias apresentando novos comportamentos observados em seu consultório e mais munição contra alguns de seus inimigos notórios, como o amor romântico e o preconceito. O papo com Donna ocorreu no dia seguinte à palestra, em um bem-humorado café da manhã no bairro Moinhos de Vento. Confira trechos:

Donna: Você vem escrevendo sobre relacionamentos e sexualidade há 20 anos, desde “A Cama na Varanda” (Editora Rocco, 1997). Qual é a grande novidade que você traz em Novas Formas de Amar (Editora Planeta, 2017)?

Regina Navarro Lins: Atendo casais e indivíduos no meu consultório há 45 anos. De quatro ou cinco anos pra cá, comecei a ouvir um problema novo e cada vez mais recorrente. Uma das partes do casal propõe a abertura da relação, e a outra parte se desespera. Ou então, em vez da abertura, propõe uma prática sexual que antes não faziam: frequentar uma casa de swing ou fazer sexo a três, por exemplo. O conflito se dá porque se você se força a fazer algo que não tem vontade só para agradar o outro, você inevitavelmente vai cobrar a fatura, mesmo que seja em um nível inconsciente. A pessoa vai ser teu devedor. Isso pode acabar com a relação.

Partindo de um conflito como esse, como você trabalha?
A primeira coisa que trabalho no consultório são as razões. Por que ele acha tão fundamental fazer aquilo e por que ela acha todo esse absurdo, ou vice-versa. Até pouco tempo, se dizia que alguém teria de ceder. Mas hoje as pessoas tendem a não querer mais fazer esse tipo de sacrifício para ter alguém ao lado. E nem acho que devam, em razão daquela questão de ficar em dívida com o outro que mencionei antes. Quando você pergunta essas razões, outro fator aparece: o problema da exigência de exclusividade.

Qual é a relação entre uma coisa e outra?
Um exemplo do meu consultório: um casal de jovens, juntos há cinco anos. Se adoram, mas ele quer fazer sexo a três. Ele diz: amo, adoro, tenho tesão, quero ficar com ela o resto da vida. Mas não consigo imaginar que eu vou transar com uma mulher só por 30, 40 anos. Como ambos têm medo que o outro transe fora do casamento, a solução encontrada foi o sexo a três. Percebe o problema?

Não há um lado positivo nisso? Não é saudável que os casais estejam conversando sobre isso e discutindo alternativas às claras, em vez de simplesmente vivenciar esses desejos pelas costas do parceiro?
É uma evolução, sem dúvida. E uma evolução porque estamos em uma fase de transição. Mas o problema do modelo vigente de relacionamentos permanece. Ninguém deveria ficar preocupado se a outra pessoa está transando ou não fora do casamento. Apenas duas perguntas importam: me sinto amada? Me sinto desejada? Se essas duas respostas forem sim, o que o outro faz no resto do tempo não é da minha conta. Não me diz respeito. Me parece a forma mais inteligente de se viver.

A transição a que você se refere, imagino, é para uma era pós “amor romântico”, certo? Fale mais sobre esse modelo e por que você é tão crítica a ele.
Aproveito para diferenciar amor de amor romântico. Sou completamente a favor do primeiro e crítica feroz do segundo. O amor romântico é aquele que propõe que os dois se tornem um só. Um deve satisfazer todas as necessidades do outro. Quem ama não deve ter tesão por mais ninguém além da pessoa amada. Só que aí você casa, se afasta dos amigos e tudo mais porque aquela pessoa basta, e tenta pelo resto da vida enquadrar a pessoa naquela figura perfeita que você inventou e idealizou. Na convivência é impossível manter essa idealização.

E por que você acha que ele está em decadência?
Porque a busca pela individualidade está crescendo. A grande viagem do ser-humano é cada vez mais para dentro de si mesmo. Descobrir do que gosta. Conhecer gente, lugares, trabalhos. Cada um quer desenvolver sua individualidade. Isso bate de frente com as principais propostas do amor romântico que são a fusão e a exclusividade. Eu imagino as minhas tataranetas pensando: coitada da minha tataravó. Tinha o mesmo parceiro para tudo. Para transar, para viajar, para o cinema, para o teatro…

Por trás dessa busca pelo amor romântico e exclusivo, não está o medo de perder o parceiro, caso ele se abra a novas experiências?
Sim, mas tem duas coisas que as pessoas não se dão conta. Primeiro que é uma ilusão achar que você pode controlar alguém. Lembro do caso de um paciente cuja mulher era a mais ciumenta do mundo. O que ele fez? Arrumou uma namorada e visitava ela das 6h45min às 9h. Quando a mulher começava a ligar, ele já havia passado duas horas transando. Segundo, do quão danosa é essa dependência emocional um do outro. Canso de ver casais que adoram dormir de conchinha e fazer cafuné. Mas sexo, nunca. Perderam completamente o tesão um pelo outro. O motivo é óbvio. Cadê a conquista? Cadê a sedução? Um mínimo de insegurança é necessário para você querer continuar seduzindo o outro.

Não dá para falar sobre novas formas de amar sem mencionar os aplicativos. Eles melhoraram ou pioraram as relações amorosas?
Ué. Por que piorariam?

Há quem diga, por exemplo, que essa abundância de opções nos tornou exigentes demais a respeito do outro. Há no livro o depoimento de um rapaz homossexual reclamando justamente disso. Você discorda, então?
É aquilo que falávamos. Se você tiver 7 bilhões de opções e continuar naquela busca romântica pela sua alma gêmea, vai ficar mais complicado mesmo. Mas, na minha visão, com mais possibilidades você pode experimentar mais. Conhecer mais. O relacionamento por aplicativo tem algo muito positivo, que é possibilitar que pessoas desenturmadas, sem um grupo social por circunstâncias da vida, tenham um meio de voltar a se relacionar. Não se pode ter uma visão preconceituosa desse tipo de mudança tecnológica. Todas elas são recebidas com algum tipo de escândalo de gente moralista. Sobre o telefone, se dizia: “Que indecência! A moça recostada e a voz do homem entrando pelo ouvido.” (risos) Olha, nossas relações têm muito a melhorar, mas nunca foram melhores. Quem pensa que antes era melhor, precisa estudar História. Saber que os casais se tratavam por senhor e senhora. Que o sexo no casamento era feito por um buraco na camisola…

Falando nisso, o livro e as suas ideias soam progressistas. Você não teme que essa recente onda de conservadorismo se entreponha às tendências que você observa?
Pois é, se não me mandarem para a fogueira, já está ótimo (risos). Penso o seguinte: todo processo de mudança de mentalidade tem gente que vai na frente e tem os que se agarram. Acho que essa onda conservadora tem objetivos políticos. Ela me assusta, sim, e acho que as pessoas precisam ir para as ruas. Usar a palavra contra a ignorância. Mas não acredito que essa abertura tenha volta, não. Porque isso começou com a pílula, nos anos 1960, e vem mudando desde então. E acredito também na vontade das pessoas de querer viver melhor. A imensa maioria dos casamentos é muito ruim: 5% dos casamentos são bons, 15% dá para ir levando e 80% são muito ruins. Começando pela parte sexual. Sexo no casamento é uma tragédia, é onde menos se faz sexo. Com menos moralismo e preconceito, podemos melhorar.

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