Episódios como o estupro coletivo provocam discussão sobre assédio e machismo também entre os homens

Do assovio nada discreto na rua ao estupro coletivo que virou notícia há pouco mais de uma semana, nada mais passa batido para as mulheres. “Não passarão”, escrevem ativistas e internautas indignadas que agora se somam em manifestações acaloradas sobre cultura de estupro, assédio e machismo nas redes sociais – e também na TV, no bar e na sala de casa. Mas, se mexeu com uma, mexeu com todas, mexeu com eles também. O envolvimento dos homens na discussão pelos direitos da mulher ainda é tímido, porém ganhou fôlego extra após a notícia do estupro da adolescente de 16 anos na zona oeste do Rio de Janeiro. Mas, afinal, que papel cabe aos homens em meio à primavera das mulheres que já atravessa estações?

:: Mulheres se unem em luta contra o estupro e protestam nas redes sociais

Apresentador do programa Papo de Segunda, do canal GNT, que discute toda semana temas do universo masculino, Marcelo Tas acredita que casos como o da garota carioca provocam a reflexão de cada um quanto ao próprio comportamento.

— Nós nascemos dentro de uma cultura tão machista que não nos damos conta dela. Por isso que a discussão, muitas vezes, é relativizada. Muita gente culpabiliza a mulher porque não percebe o quanto ainda vivemos em uma situação de violência, extremamente criminosa, não existe outra palavra. As mulheres são molestadas e mortas diariamente indo para o trabalho ou pelo próprio companheiro e a gente não reconhece. Ainda somos os homens de Neandertal e vamos tentar mudar isso no dia a dia – completa Tas, que apresenta o evento Teia, do GNT, nesta quinta-feira.

Leia mais
:: Não depilação: Mulheres questionam padrões de beleza ao abandonar a depilação
:: “Bela, recatada e do lar”: por que a expressão gerou tanta polêmica nas redes sociais?

:: Não é só pelo shortinho: como o feminismo vem conquistando espaço entre as adolescentes
:: Movimento “Vamos Juntas?” vira livro com depoimentos sobre assédio e lições de sororidade
::  O problema das cantadas: por que o assédio verbal não é levado a sério?

Embora as pautas feministas passem longe de ser novidade, há pouco mais de um ano o debate é cada vez mais presente. Não há exatamente um ponto zero, mas episódios como a hashtag #MeuPrimeiroAssédio, que identificava denúncias de abuso, foram o estopim de uma discussão que parece se renovar a cada semana. Impactados pelos relatos, homens também passaram a se manifestar na própria timeline e também em páginas feministas, como a Quebrando o Tabu e Empodere Duas Mulheres. Mais do que isso: alguns começaram a enxergar nas próprias atitudes os pequenos machismos impregnados no dia a dia. Foi em um dos posts sobre o estupro coletivo que encontramos o estudante de Jornalismo e músico Silvio Matheus Boing Caetano, que enxerga nas manifestações virtuais uma oportunidade para os homens mudarem a maneira como encaram seus atos.

— O fato de não ser mulher faz com que não tenhamos a dimensão exata da misoginia, mesmo ela já sendo muito sufocante. As mulheres devem falar, falar e falar muito, e nos apresentar essa realidade que as instituições conservadoras tentam maquiar ou desqualificar de qualquer modo — defende o universitário de Itapema, Santa Catarina. — Se é sufocante para mim, homem cis (que nasce com órgãos genitais e se identifica com o sexo masculino), não consigo imaginar como realmente é para as mulheres, que só querem igualdade. Sou um defensor da causa e brigo por ela, mas a voz feminina é mais forte nesse caso.

13260045_1117750351614684_7881832346839530871_nDireto das redes: um dos cartazes que viralizou em posts no Insta, Facebook e Twitter

 

Esta discussão é delas ou de todos?

Não há dúvida: o engajamento dos homens em tentar combater o machismo e defender causas das mulheres é fundamental. Mas o debate entre as feministas vai além: afinal, qual é o papel deles nessa conversa? Fundadora da ONG Empoderamento da Mulher, Estela Rocha encara como positivo o movimento de abertura de alguns, que buscam, inclusive, uma “nova masculinidade”. Entretanto, frisa que a hora é, principalmente, de escutar o que as mulheres têm a dizer:

— Homens não são protagonistas nos debates feministas pelo simples fato de que há uma necessidade de respeito ao local de fala de cada um, à voz ativa e ao protagonismo. Homens têm, dentro dos seus diversos privilégios, espaços de fala 90% maior do que as mulheres. Em debates feministas, eles podem se envolver como ouvintes. E há muito o que ouvir. O aprendizado vem através desta escuta ativa e consciente que eles podem desenvolver — pondera. — Não é fácil entender que seus privilégios e o posicionamento ensinado ao longo dos tempos prejudica profundamente grande parte dos outros seres.

Veja também
:: “Mulheres”: projeto sobre preconceito e feminismo ganha versão em livro
:: 2015, o O ano do empoderamento e das hashtags feministas
:: Femvertising: movimento publicitário estimula comerciais que fujam dos estereótipos femininos
:: Entrevista! Valesca Popozuda se declara feminista e dispara: “Quem é diva brilha até no escuro”
:: Revelações do funk, Ludmilla e MC Mayara são as novas representantes do girl power
:: O caminho do feminismo de Simone de Beavouir até Beyoncé e Valesca Popozuda

graficos

Não há consenso. Para Marcelo Tas, é fundamental que os homens tenham um papel cada vez mais ativo nos debates sobre machismo:

— Todos nós somos parte da mesma questão, e inclusive da solução. Não existe um gênero que tem o direito e a capacidade de dar uma solução – é o contrário, inclusive. Temos de lutar para que todos participem. Existe essa desigualdade inicial civilizatória da mulher ter sido e continuar sendo massacrada pela cultura machista. Tentar eliminar o homem desse diálogo é um equívoco que não pode ser cometido.

Campanhas como a #HeForShe pregam exatamente isso: a inclusão dos homens nas discussão sobre igualdade de gênero. No ano passado, o movimento, que tem como embaixadora global a atriz Emma Watson, ganhou versão nacional batizada de Eles Por Elas, em uma iniciativa da ONU Mulheres em parceria com o GNT.

— É muito importante falar para os homens que o Eles Por Elas não significa que eles vão protagonizar o feminismo — explicou a cantora Pitty, no evento de lançamento da campanha. — Quem define o feminismo são as mulheres. Os homens são bem-vindos, nós precisamos deles, mas essa é uma luta da mulher.

:: Igualdade de gêneros: campanha mundial #elesporelas terá representação no Rio Grande do Sul
:: Opinião: Somos todas Madame Bovary e a Babá de Ben Affleck
:: Foi a maçaneta da porta: mensagem misteriosa mobiliza famosas contra a violência doméstica
:: Pesquisa revela que 96% dos jovens acreditam que ainda há machismo na sociedade

E quando alguns homens reivindicam o título de feminista? Para as ativistas Bruna de Lara e Bruna Leão, em um dos textos do coletivo Não Me Kahlo, não há consenso quanto à denominação: enquanto algumas mulheres não veem problema, outras acreditam que o termo não pode ser aplicado para os homens.

“Essa parcela considera que só pode se denominar feminista quem for vítima institucional do machismo, ou seja, as mulheres. Os homens defensores das bandeiras feministas seriam chamados, nesse caso, de pró-feministas. Segundo essa visão, a terminologia seria mais adequada para enfatizar que o movimento feminista tem como protagonistas as mulheres, e que os homens participam como apoiadores”, escrevem no portal naomekahlo.com.

mamasm]

 

Da teoria para a prática

Nas redes sociais – e, pouco a pouco, fora delas também –, é perceptível a necessidade de alguns homens mostrarem empatia com as causas feministas e solidariedade em episódios marcantes como o estupro coletivo.

— Não sou capaz de identificar como “os homens” reagem a isso. É um grupo heterogêneo demais. Parece que há os que acham tudo isso terrível, os que julgam irrelevante e os que acreditam ser importante e tentam demonstrar algum tipo de apoio ainda que sem saber exatamente como. Eu estaria nesse terceiro grupo — divide o doutorando em Desenvolvimento Econômico Thomas Victor Conti, 26 anos, de São Paulo. — Mas é difícil mudar hábitos enraizados de adultos.

:: Apresentadoras do “Saia Justa” respondem 3 perguntas sobre feminismo
:: Em entrevista, Astrid Fontenelle convoca as mulheres a praticarem a sororidade

E, afinal, qual seria a saída para começar a desconstruir atitudes machistas diárias e entrar de vez na luta pela igualdade de gênero? Na opinião do biólogo Rafael Carvalho, 27 anos, a solução seria colocar o tópico em pauta sempre que possível.

— Machismo precisa ser assunto de homem. Temos de falar disso em todos os espaços masculinos, do futebol ao grupo de Whats App. Precisamos que as atitudes machistas deixem de ser vistas como “vantagens” sociais entre os homens, e também que certas atitudes sejam percebidas como machistas. Pode parecer difícil para as mulheres acreditarem, mas muitos homens não percebem suas atitudes machistas pois nós fomos criados assim. Para nós, é “normal” — explica.

mais

O apresentador Marcelo Tas ressalta que a mudança precisa começar individualmente, quando o próprio homem reconhece quando pratica uma ação machista.

— Ou também quando concordo com um grupo que está tendo uma atitude machista e não tenho coragem de deixar de participar ou até apontar o dedo. Quando estamos em turma, temos uma tendência imediata de nos tornar muito idiotas, sendo bem sincero. Conseguimos reduzir o número de neurônios. É uma reeducação que pode levar muito tempo, mas precisa ser iniciada já. Mas temos que começar por nós mesmos.

:: Sai pra lá, assédio! Aplicativo ajuda mulheres a denunciarem assédio
:: 5 famosas que não se calaram e revelaram terem sido abusadas
:: Pesquisa aponta que 36% das mulheres já sofreram assédio no trabalho, mas apenas 10% denunciariam

Outro ponto que gerou bastante polêmica nos últimos dias, em virtude do caso da adolescente estuprada no Rio, é a chamada indignação seletiva. Há quem tenha se mostrado indiferente ao ocorrido por conta de, por exemplo, a adolescente ser mãe de uma criança de três anos. Tas também lembra que é comum alguns homens se revoltarem com o que acontece com familiares e conhecidos – quando a filha é assediada na rua, por exemplo -, mas não opinarem quando a vítima é uma desconhecida.

— Nós temos que tomar muito cuidado para não nos indignarmos baseado nosso santuário que é a mulher e a filha, e agir lá fora como um troglodita. É um comportamento comum, inclusive no machismo. Ele olha para dentro de casa com suposta compaixão e da porta para fora sai acelerando a caminhonete para cima das mulheres. É claro que sou impactado por ter uma garota de 10 anos (a filha Clarice) e vê-la crescer nesse cenário, mas temos de nos colocar no barco da civilização. A sociedade brasileira está dentro de uma barbárie que é inadmissível, mesmo se eu não tivesse uma filha menor ou não tivesse filhos. Temos de nos indignar no mesmo tom porque essa visão também reforça o machismo. É uma visão machista e retrógrada pensar no lar e na eventual filha como algo a ser protegido e olhar para fora como algo que não temos nenhuma responsabilidade.

:: Esta mãe ensinou ao filho como respeitar o corpo de uma mulher de uma forma completamente diferente

consent

 

O estupro em números

A cada 11 minutos, uma mulher é estuprada no Brasil, de acordo com dados divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), ONG que analisa dados sobre violência no país.

Mas apenas de 30% a 35% dos casos de estupro são registrados.

No Brasil, apenas 10% das vítimas registram ocorrência, segundo a pesquisa Estupro no Brasil: uma radiografia a partir dos dados da Saúde, produzida pelo Ipea.

Roraima lidera o ranking estadual, com 55,5 casos a cada 100 mil habitantes.

No Rio Grande do Sul, foram 2.722 estupros registrados em 2014.

Também no Estado, as delegacias receberam a denúncia de 818 tentativas de estupro.

90,2% das mulheres afirmam ter medo de sofrer violência sexual.

Ou seja, em média, 65% dos crimes não foram nem registrados.

Assim, é possível que ocorra cerca de um estupro por minuto.

 

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna