Como o preconceito afeta as chefes de família? Pesquisa mostra os desafios de ser mãe solteira

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Stefanie Cirne, especial

Se criar os filhos com um parceiro já não é moleza, criá-los sozinha é um desafio ainda maior. Por isso, a maioria das mulheres não se programa para ser mãe solteira. Foi atendendo quem vive esta situação que a terapeuta de família e casal Fabiana Verza detectou uma regra: apesar das diferenças (culturais, de idade, classe social etc), todas as mulheres compartilhavam angústias muito parecidas. O interesse pelo tema resultou em uma tese de doutorado, defendida em julho na PUCRS.

Focando na classe média, Fabiana reuniu depoimentos de 10 mulheres com idades que vão dos 30 até depois dos 60 anos. Todas se tornaram mães solteiras por conta de gravidez não planejada ou de divórcio, quando os ex-companheiros deixaram de conviver com os filhos. De forma geral, a pesquisa concluiu que mesmo quando podem bancar a situação, as mulheres enfrentam dificuldades para chefiar a família.

– Muitas vezes, mesmo tendo condições para isso, a própria mulher não se permite assumir a liderança do lar – diz Fabiana. – Isso se deve a uma carga patriarcal muito forte que ainda guia o nosso modelo de família.

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Apesar de ser um estudo qualitativo, a tese de Fabiana dialoga com o cotidiano de um grande número de mulheres. Há mais de uma década, as mães solteiras e seus filhos compõem o segundo arranjo familiar mais comum no Brasil, ficando atrás apenas dos casais com filhos. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) divulgada em 2014 pelo IBGE, 15% das famílias brasileiras (algo em torno de 33 milhões de pessoas) são formadas desta maneira.

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De acordo com dados do IBGE, há mais de uma década, as mães solteiras e seus filhos formam o segundo arranjo familiar mais comum no Brasil. (Foto: Pexels)

Divisão tradicional de papéis impõe desafios às chefes de família

Nas últimas décadas, a organização dos lares começou a mudar no Brasil. Mais escolarizadas e independentes financeiramente, as mulheres ganharam protagonismo dentro de casa: segundo o PNAD, entre 1995 e 2015, dobrou o percentual de brasileiras (casadas e solteiras) que se declaram chefes de família (de 20%, passou a 40%). Mas no imaginário popular, o pai ainda é quem representa os ideais de autoridade e segurança financeira – cabendo à mãe ser a figura sensível, que tudo compreende e acomoda.

Em sua tese, Fabiana explica que essa divisão de papéis familiares é um dos maiores obstáculos a serem superados pelas mães solteiras. Cabe somente a elas cumprir funções ditas “masculinas”, como sustentar a casa e impor limites aos filhos – e é comum que elas se sintam menos aptas a desempenhá-las. Quando tentam manter o lar em ordem, encaram ainda o medo de serem rígidas demais. Com um pé no papel de chefe e outro no de cuidadora, essas mulheres lidam frequentemente com a insegurança e a culpa – e sentem falta de alguém para compartilhar as questões do dia a dia.

– Entre duas pessoas, dá para discutir e chegar a um consenso, mas quando tu estás sozinha, os erros são só teus – afirma a pedagoga em educação especial Ionara Volkweis, 51 anos, uma das entrevistadas pela tese de Fabiana.

Ionara se separou do ex-marido quando a filha Victoria (hoje com 18) tinha quatro anos. Por algum tempo, esteve às voltas com apertos financeiros e a adaptação da menina à ausência do pai. Mas hoje, casada pela segunda vez, a pedagoga diz ter conseguido preservar a filha dessas dificuldades e relata uma experiência tranquila como mãe solteira.

– Eu levei tudo numa boa, mas teve momentos pesados e não é fácil pra todo mundo – reconhece Ionara.

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Segundo o PNAD, entre 1995 e 2015, dobrou o número de mulheres (casadas e solteiras) que se declaram chefes de família no país. (Foto: Pixabay)

Instabilidade financeira está por trás do estigma em torno das mães solteiras 

Para algumas mães solteiras, o auxílio de conhecidos pode não vir ou ser insuficiente. Ao mesmo tempo em que a desigualdade de gênero implica salários mais baixos para as mulheres, a maternidade às vezes não é bem recebida pelas empresas – o que gera, além de dificuldades financeiras, problemas para encontrar e manter uma ocupação.

– Existem relatos de mulheres que abrem mão do emprego para cuidar dos filhos, porque o gasto que teriam para colocá-los na escola ou deixá-los com alguém seria muito alto – diz a socióloga Maíra Saruê Machado, diretora de pesquisa do Instituto Locomotiva.

A dificuldade de conciliar as funções de mãe e trabalhadora contribui para que, geralmente, os lares chefiados por mães solteiras sejam mais pobres.

– Pensa-se que essas famílias são desestruturadas, mas a grande questão é que se apenas uma pessoa contribui para o lar, a renda tende a ser mais baixa – pondera Maíra.

Desconstruir o estigma da pobreza em torno dessas famílias foi inclusive um dos objetivos da tese de Fabiana, que identifica este preconceito também no ambiente acadêmico. A crítica que permanece é a de que as implicações do gênero não podem ser ignoradas.

– As dificuldades enfrentadas pelas mães solteiras são as mesmas independentemente da classe. As mulheres mais pobres têm apenas menos recursos para lidar com elas – resume Maíra.

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Quando se adaptam à nova rotina, as mães solteiras relatam mais independência emocional e autonomia para conduzir a vida em família. (Foto: Pixabay)

Orgulho e independência emocional são aspectos positivos da vida como mãe solteira

Especialmente no início dessa jornada, é comum que as mães solteiras pensem estar falhando com os filhos por privá-los de uma família “completa”. Porém, conforme se adaptam à nova rotina, elas tendem a ganhar confiança em si mesmas. Ao entrevistar mulheres mais velhas, Fabiana percebeu claramente como elas substituíram a vergonha pelo orgulho:

– Ao se empoderarem e terem uma noção melhor do que representam para as suas famílias, elas passam a outro patamar de satisfação – relata.

As mulheres ouvidas pela pesquisa relataram que ao deixar os antigos relacionamentos, ganharam independência emocional e autonomia para conduzir a vida em família. Elas também contavam com uma rede de apoio maior e mais organizada do que a de muitas mães casadas, salientando para a Fabiana o problema da “solidão a dois”. A terapeuta observa que quando os parceiros não participam de fato da rotina doméstica e do cuidado com os filhos, as mulheres também podem ficar desamparadas – até porque os outros acreditam que o casal é uma equipe.

– Quando não há um parceiro junto, as pessoas parecem ter mais empatia e disponibilidade para ajudar [na criação dos filhos]. É importante validar a experiência de quem, mesmo acompanhada, se sente sozinha – destaca Fabiana.

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