Assédio é comum nas universidades e a vítima não percebe a violência, aponta estudo

Por Fernanda da Costa*, São Paulo

O machismo é tão naturalizado no país que tanto vítimas quanto agressores desconhecem o que é a violência contra a mulher. Foi isso que revelou uma pesquisa inédita realizada com quase 2 mil universitários, das cinco regiões do país.

Quando questionadas se já haviam sofrido algum tipo de violência no ambiente acadêmico, apenas 10% das universitárias responderam sim. No entanto, quando os entrevistadores perguntaram se elas já haviam passado por alguma situação em uma lista de violências, 67% assinalaram afirmativamente. O mesmo se deu com os homens: apenas 2% dos universitários admitiram de forma espontânea ter cometido algum ato de violência. Questionados a partir de uma lista de situações violentas, 38% deles reconheceram ter praticado alguma ação.

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Encomendada pelo Instituto Avon ao Data Popular, a pesquisa foi divulgada no início do mês no Fórum Fale Sem Medo, em São Paulo. A escolha do recorte para o ambiente acadêmico, conforme Alessandra Ginante, presidente do Conselho do instituto, é porque esse é um espaço de formação cultural, onde deveria haver maior igualdade de gênero. Mas o machismo da sociedade brasileira não é impermeável aos muros do Ensino Superior.

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– Apesar de haver 120 mulheres para cada 100 homens nas universidades, elas não têm acesso ao poder – afirmou Alessandra.

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O levantamento também serviu para desconstruir dois mitos: um de que os jovens não são machistas e outro de que a violência contra a mulher está ligada à baixa escolaridade. Entre os universitários, quase 30% disseram não considerar violência abusar da garota que está sob efeito de álcool, por exemplo.

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Conforme a especialista em Direito das Mulheres Tâmara Biolo Soares, há no país uma cultura de tratar a mulher como objeto sexual e desvalorizar o feminino na sociedade, colocando as mulheres em posições subalternas. As próprias mulheres estão inseridas nesse contexto de naturalização do machismo: sofrem com essas situações, mas não as caracterizam como violência. Mas, destaca, Tâmara, há mudanças em curso:

– Estamos num processo histórico bonito de caracterizar novas condutas como violência. Estamos avançando e dizendo que não é normal. Só assim vamos combater o machismo.

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Outro desafio a ser superado é o medo da denúncia. O levantamento mostrou que, embora dois terços das alunas entrevistadas tenham sofrido violência, 63% não denunciaram. A maioria delas por medo de ser exposta (61%). Das que contaram o episódio, um terço sofreu represálias, como ser hostilizada, ficar isolada ou ser exposta na universidade.

A promotora Silvia Chakian, coordenadora do Grupo de Atuação Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica do Ministério Público de São Paulo, afirmou que as mulheres fazem as denúncias se sentindo culpadas, como se tivessem, por algum comportamento, contribuído para o abuso.

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– Como se as meninas não tivessem o direito de recusar investidas, frequentar festas, beber ou usar uma saia curta. A vítima nunca é culpada, isso precisa ser desconstruído – afirma a Silvia, que palestrou no Fórum Fale Sem Medo.

As vítimas também sentem medo de não acreditarem nelas, da exposição, do julgamento moral e da discriminação. Outra dificuldade é que, muitas vezes, elas são forçadas a permanecer no mesmo círculo social do abusador, o que gera constrangimento.

– As pessoas imaginam o agressor como alguém com ficha criminal extensa, que escolhe uma vítima desconhecida, mas a maior parte desse tipo de violência é feita por pessoas conhecidas – relata a promotora.006

Na pesquisa, 49% das alunas afirmaram terem sido desqualificadas intelectualmente com piadas ou sátiras de gênero. Para a coordenadora do Coletivo Feminino Plural, Télia Negrão, essa conduta tem duras consequências. Além de deixar as mulheres fora dos espaços de decisão, contribui para que elas tenham seus discursos desacreditados, o que gera o medo de fazer denúncias.

– Acabar com a violência contra a mulher não passa apenas pela responsabilização dos agressores e pelo acolhimento às vítimas. É preciso também promover uma mudança cultural – diz Télia.

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Uma das fundadoras do Coletivo Feminista Geni, que atua na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) desde 2013, Ana Luiza Cunha afirma que as mulheres precisam de espaços para falar sem medo. O Geni denunciou publicamente casos de assédio sexual e cultura do estupro no ambiente da faculdade, que resultou na CPI sobre Violações de Direitos Humanos nas Universidades Paulistas.

– Existe uma reação hostil à criação dos coletivos, dizem que é “mimimi”. Militar é um aprendizado, encarar opressões de frente como as que já naturalizamos, tipo a desqualificação intelectual, o machismo velado – destaca Ana Luiza.

Já a reposta positiva da sociedade às pautas femininas foram a grande adesão às hashtags #meuprimeiroassedio e #meuamigosecreto, pelas quais mulheres de todo o país tornaram públicos casos de assédio que sofreram e condutas machistas. A integrante do Coletivo Juntas e acadêmica de Relações Públicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Kassiele Nascimento, afirma que os movimentos também serviram para revelar que esses casos ocorrem nas universidades, muitas vezes durante a aula, como provou a pesquisa. Por isso, as instituições precisam ter espaços específicos para que trabalhem o acolhimento das vítimas, a responsabilização dos agressores e a prevenção a novos casos, como aponta Kassiele:

– Nas ouvidorias comuns, não sabemos se os casos de machismo vão ser analisados por homens ou mulheres, por exemplo.

* Repórter viajou a convite do Instituto Avon

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