Fernanda Carvalho, jornalista e ativista: “Precisamos falar sobre as conquistas das mulheres negras”

Foto Christopher Polk/Getty Images/AFP
Foto Christopher Polk/Getty Images/AFP

Por Fernanda Carvalho
Jornalista, feminista, ativista do movimento negro

Precisamos falar sobre as conquistas das mulheres negras. Como mulher negra, constantemente me pego comemorando algumas vitórias e lamentando o fato de ter que comemorá-las logo em seguida. Nas últimas semanas, isso aconteceu três vezes. No último domingo (26), Viola Davis foi anunciada a vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por Um Limite entre Nós. Assim, ela se tornou a primeira mulher negra a ganhar um Oscar, um Tony (maior premiação de teatro nos Estados Unidos) e um Emmy – há dois anos ela havia sido a primeira negra a vencer na categoria Melhor Atriz em série dramática. E também foi a primeira negra a ter sido indicada três vezes ao Oscar. Antes disso, nenhuma outra.

Outro exemplo: recentemente, li a notícia de que, pela primeira vez, uma mulher negra irá chefiar a secretaria da Casa Militar do Estado de São Paulo. Desde 1920, quando a pasta foi criada, Coronel Helena Reis é apenas a segunda mulher a ser nomeada ao cargo, e a primeira negra.

Coronel Helena durante assinatura da posse da Casa Militar | Foto: Gilberto Marques, Assessoria de Comunicação do Estado de São Paulo

Coronel Helena durante assinatura da posse da Casa Militar | Foto: Gilberto Marques, governo de São Paulo

Logo que li, pensei: uau! Que máximo! Uma mulher negra responsável pela segurança do governador e coordenando a Defesa Civil do estado de São Paulo é uma conquista e tanto. Mas não consigo negar que ao perceber que em quase cem anos, esta ser a primeira vez que isto acontece, tem seu lado triste também.

Parece que não estou em 2017 quando uma notícias dessas causa surpresa, vira notícia ou até suscita críticas.

Outra situação que me fez pensar foi assistir a Léa Garcia na novela Sol Nascente, na Rede Globo. O deleite de ver o primor que é Léa em cena durou só alguns segundos… Logo me veio a mente o drama na vida real que atores e atrizes negros enfrentam para conseguirem ter uma carreira estável. Fugir de papéis estereotipados então, nem se fala. Não é raro sabermos de artistas em situações complicadas, financeira e emocionalmente, apesar de serem talentosíssimos. Chegar aos 83 anos, idade de Léa, atuando chega a emocionar. Vale ressaltar que a própria Léa, não posso afirmar se por opção, não está nas telas, pelo menos em telenovelas, com a frequência com que poderia, tendo por base sua trajetória.

Lea Garcia | Foto: Globo/Paulo Belote

Léa Garcia | Foto: Globo/Paulo Belote

Nessa mesma novela, e por coincidência, na mesma semana, pudemos ver a volta de Laura Cardoso, outra grande atriz, depois de uns dias fora do ar por problemas de saúde. A volta da atriz de 89 anos foi, merecidamente, comemorada, inclusive em outros programas da casa. Não pensem que estou, levianamente, comparando as carreiras ou dimensionando o reconhecimento que essas atrizes têm ou deveriam ter. Temos que pensar que elas não são casos isolados. A ameaça de ostracismo é realidade da grande maioria dos atores negros, assim como trabalhar até o fim da vida é um privilégio frequentemente gozado por atores brancos.

Viola, Léa e Coronel Helena são exceções em seus meios de trabalho, justamente porque as pedras encontradas por elas no caminho são comuns a nós, mulheres negras, quando escolhemos profissões que fogem do que grande parte da sociedade “reserva” para nós. Por isso, histórias bem sucedidas como as delas, apesar da triste raridade que denuncia a desigualdade racial que ainda enfrentamos, têm que ser ressaltadas, apontadas e também celebradas. Para além da representatividade, precisamos dessas inspirações para continuarmos acreditando, individualmente, que é possível. Porque é. Tem que ser. Sempre foi, na verdade. Nós, mulheres negras, sempre lideramos e fizemos acontecer. A diferença é que até bem pouco tempo, era só em alguns espaços. Deste tempo pra cá, e cada vez mais, não aceitaremos mais ver nossos talentos segregados… será onde bem entendermos.

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