“Foi um choque: faltava pouco para ele se tornar padre”, conta leitora sobre quando se apaixonou pelo atual marido

Foto: Elis Behenk
Foto: Elis Behenk

A jornalista Lílian Martins descobriu que estava apaixonada por Ademir Schneider no dia em que soube que já estava definida a data em que ele se tornaria padre. A seguir, ela conta como um amor que parecia impossível teve final feliz.

Um ano após o nascimento de Lucas, Ademir recebeu a dispensa do sacerdócio. Lílian e ele já podem se casar na Igreja

Nossa história começou em 16 de dezembro de 2005. Era um sábado de assembleia na paróquia de que eu participava em Gravataí. Como a jornalista responsável pelo jornal da paróquia, estava encarregada de apresentar o novo projeto gráfico. E naquele dia um novo integrante foi apresentado, o então Frei Ademir Schneider. O tempo foi passando, e, em 2007, ele assumiu como frei responsável na equipe do jornal. Foi aí que começamos a conviver mais, pois fazíamos o fechamento da publicação todos os meses. Nascia uma amizade.

Passados dois anos, fui surpreendida com a informação de que a ordenação diaconal (uma etapa prévia antes da ordenação) do frei Ademir estava marcada. Foi um choque: significava que faltava pouco para ele se tornar padre. Então, começou meu dilema: naquele momento, tive certeza de que o que sentia por ele não era só amizade.

Meses depois, o frei Ademir comunicou que sua ordenação sacerdotal seria novembro. Naquele momento, perdi o chão. Sentia que estava deixando escapar o amor da minha vida e não sabia o que fazer para impedir isto. Não tinha coragem de falar dos meus sentimentos a ele até porque nunca havia notado nada que pudesse sugerir que meu amor era correspondido. Por medo, não contei nada.

Novembro chegou, e eu, com o coração despedaçado, fui à ordenação realizada na cidade natal dele, São José do Inhacorá, no noroeste do Estado. Chorei do início ao fim e, como estava tirando fotos para o jornal da paróquia, procurei ficar bem longe dos conhecidos para não chamar atenção. Na manhã seguinte, foi realizada sua primeira missa, e eu passei mal, quase desmaiei.

O tempo passou. Tentei muito esquecer o Ademir. O ano de 2009 chegou, e fui viajar de férias com uma amiga para Salvador. Tirei um tempo pra mim, pra pensar na minha vida e buscar forças para esquecê-lo de vez, pois já era tarde demais para fazer alguma coisa. Mas não consegui.

Voltei de Salvador e no outro dia tínhamos o aniversário de uma amiga em comum. Conversamos bastante e notei que ele não estava feliz. Um tempo depois, tirei coragem não sei de onde e perguntei se ele se sentia realizado como padre, e, para minha surpresa, ele disse que não. Fiquei tão feliz com a resposta que não me contive e sorri dizendo “Que bom”. Sem pensar em mais nada, ali emendei com a declaração do meu amor platônico por ele. Então, ele me disse que o sentimento era recíproco. Naquele momento, nos abraçamos e choramos muito.

Eu estava muito feliz! Meu grande amor era, sim, correspondido! Mas, ao mesmo tempo, sabíamos que teríamos que encarar muita coisa antes de viver o nosso amor. Do dia em que falamos sobre nossos sentimentos pela primeira vez até sua saída foram seis longos meses onde passamos por um processo de discernimento, muito mais dele do que meu. Afinal de contas o Ademir já estava na vida religiosa há 18 anos. Sabíamos que tínhamos que ser transparentes para poder tomar uma decisão baseada em sentimentos verdadeiros. Escolhemos pessoas próximas para compartilhar o que estávamos sentindo e deixamos que nos questionassem para sabermos se era aquilo realmente o que queríamos.

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No dia 14 de julho de 2009, foi feito o comunicado na paróquia de que o Ademir estava deixando o sacerdócio. Nós tínhamos uma certeza: não poderíamos exigir que as pessoas aceitassem nossa decisão, mas, sim, que a respeitassem. Pouco depois, resolvemos morar juntos.

Nós não sentimos tanta dificuldade porque não ficamos no dia a dia da paróquia. Eu já estava morando em Cachoeirinha, e o Ademir arrumou emprego em Porto Alegre. Continuamos participando da equipe do jornal, que nos apoiou desde o começo. Mas esperamos quatro meses para participar das missas e de outros eventos – queríamos dar um tempo para as pessoas assimilarem a ideia de que o Ademir não era mais padre e agora tinha uma namorada que praticamente havia crescido dentro daquela igreja.

Das nossas famílias, recebemos apoio desde o começo. A minha porque sabia dos meus sentimentos por ele desde sempre. Por parte dos meus pais, existia o receio de como seríamos tratados, mas esse nunca foi um medo meu ou do Ademir. Certamente, por estarem no dia a dia da paróquia, foram os que mais sofreram. Ninguém gosta de ver alguém falando mal dos filhos, não é?

A família do Ademir também apoiou, pois, mais do que qualquer outra coisa, queria a felicidade dele. Claro que, como a cidade é pequena e a ordenação tinha acontecido lá há pouco mais de meio ano, não deve ter sido fácil conviver com os comentários. Mas a família nunca nos falou nada sobre isso. Demorei um ano e meio para ir lá com o Ademir pela primeira vez e, talvez por isso, tenha sido supertranquilo.

Quanto a amizades, não perdemos nenhuma. Pelo contrário, ganhamos mais amigos. Pessoas que nos conheciam pouco, ou me conheciam pouco, se aproximaram e a partir dali passaram a nos admirar pela nossa transparência e coragem de continuar participando ali, mesmo que um ou outro ficasse de cara feia. Claro que comentários maldosos de algumas pessoas existiram, mas não eram pessoas próximas a nós. De vir falar alguma coisa na nossa cara, nunca aconteceu.

No dia 16 de novembro de 2012, nos casamos no civil. Ademir encaminhou o pedido de dispensa do exercício da Ordem para o Vaticano, mas sabíamos que poderia demorar muito e que, talvez, nunca acontecesse. Planejávamos ter filhos. E o resultado positivo do teste de gravidez veio em agosto de 2013. Era o Lucas, um lindo gurizinho, “a cara do papai”. Um ano após o nascimento do Lucas, o Ademir recebeu a dispensa do sacerdócio do Papa Francisco. Hoje, nada mais impede nosso casamento no religioso: e, sim, isto está nos nossos planos para o futuro.

Moramos em Cachoeirinha, mas estamos nos mudando para o interior do Estado. Nosso destino será São José do Inhacorá. Optamos por mais tranquilidade, qualidade de vida e segurança para criar nosso pequeno grande amor. Pedi demissão do meu emprego e criei um blog (gurizinhoestiloso.blogspot.com.br) para trocar ideias com outras mamães sobre roupas e acessórios de meninos.

Da minha história, só tenho a agradecer a Deus por nunca ter me permitido desistir do meu grande amor. Por mais difícil que as coisas pareçam, quando queremos com amor, fazemos acontecer.

Este espaço é seu: cada semana uma leitora conta uma experiência marcante por que passou aqui nesta seção. Participe!

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