A força é delas! Novas heroínas da cultura pop refletem empoderamento feminino

Rey, a personagem do novo Star Wars, interpretada por Daisy Ridley
Rey, a personagem do novo Star Wars, interpretada por Daisy Ridley

Por Caue Fonseca, especial

É bem simples. Só é preciso responder sim a três perguntas para um filme ser aprovado no Teste de Bechdel, batizado em homenagem à cartunista americana que o elaborou, em 1985. São elas:

1. A trama tem no mínimo duas personagens mulheres (e elas têm nome)?

2. Elas falam uma com a outra?

3. Em ao menos um desses diálogos, elas não se referem a um homem?

O teste passou a ser um termômetro de o quanto as mulheres podem ser insignificantes nas tramas de Hollywood. Não que elas estejam fora da tela. Mas muitas vezes estão lá para cumprir papéis acessórios ao homem: são o interesse romântico, a mãe zelosa, a ajudante espevitada ou a mocinha em perigo. Em 2015, o site bechdeltest.com analisou 146 filmes, e 54 fracassaram.

:: Hashtags como #meuamigosecreto dão voz ativa às mulheres nas redes

00b52859

A saga Star Wars é um símbolo desse descompasso – e da mudança em curso. Dos seis episódios já lançados, apenas o I (1999) e o II (2002) passam no Teste de Bachdel, ainda assim de raspão, por diálogos quase monossilábicos. Nos três episódios que concluem a trama, lançados entre 1977 e 1983, nem mesmo a presença de um personagem feminino central, como a Princesa Leia, é suficiente para que os filmes passem no teste. Isso pelo menos até quinta-feira, quando estreia Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força. Pouco se sabe sobre Rey, a adolescente interpretada por Daisy Ridley. Porém, uma fala recente do diretor J.J. Abrams leva a crer que a jovem significa uma virada:

– Star Wars sempre foi uma coisa de garoto. Eu espero realmente que este seja um filme para o qual as mães possam levar suas filhas também.

Se Ray e outras tantas heroínas que estão ganhando espaço em filmes, séries e HQs são parte de um movimento espontâneo ou uma exigência de um público feminino cada vez mais presente e atento, pouco importa. Fato é que, de uma hora para a outra, a cultura pop se viu invadida por mulheres diferentes. Mais fortes, mais independentes e menos objetificadas. O desafio da nova onda de personagens é representar mais os anseios das mulheres do que os fetiches dos homens.

:: As praparadas! Mulheres recorrem a aulas de autodefesa para se sentirem seguras e confiantes

– Não sei o que mudou primeiro, se foram as heroínas ou as mulheres mesmo. Mas houve um boom, sim, não há dúvida. É natural, nesse contexto todo de feminismo, que as mulheres não se contentem mais em ver filmes em que o papel delas é ser o troféu da jornada do herói. Mulheres reais precisam ser representadas com realismo – declara Kaol Porfírio, ilustradora presente na lista das mulheres inspiradoras de 2015 da ONG feminista Think Olga.

Die Tribute Von Panem - Mockingjay Teil 1

Criada por Suzanne Collins na trilogia literária Jogos Vorazes, Katniss é grande estrela da saga

O exemplo máximo desta virada encabeça outro blockbuster da temporada: Katniss Everdeen, vivida por Jennifer Lawrence no último capítulo da série Jogos Vorazes. No cinema, os quatro filmes já somam US$ 1,3 bilhão de bilheteria. Na literatura, a revolução comandada pela jovem arqueira contra um regime totalitário se tornou, em 2012, o box de livros mais vendido da história da livraria Amazon, ultrapassando a série Harry Potter.

Nas histórias em quadrinhos, onde tradicionalmente se apontam tendências para toda a indústria do entretenimento, o sexismo vem tomando uma surra. Desde 2014, a encarnação do deus asgardiano Thor é uma mulher em tratamento de câncer. Em outubro, a Mulher-Aranha passou a combater o crime com um barrigão de grávida. A Ms. Marvel, outrora mais uma heroina peituda de maiô, agora é vivida por uma adolescente muçulmana de 16 anos e com um traje condizente à sua fé: coberta do pescoço às canelas. Aliás, aí está um tema sensível: figurino. Ou a ausência dele.

:: O caminho do feminismo de Simone de Beavouir até Beyoncé e Valesca Popozuda

Como aposentar um biquíni selvagem

À frente do site Minas Nerds, a jornalista e pesquisadora de quadrinhos há mais de 10 anos Gabriela Franco é eternamente grata à personagem Elektra. Cenas como a em que a heroína reúne força física e mental para escapar sozinha de um sanatório em Elektra Assassina, de 1986, serviram de inspiração para que a fã brasileira superasse um período difícil da vida. Com um porém.

– Poxa, ela não é uma ninja? Um ninja precisa ser o mais discreto possível, quase invisível. Por que então ela anda por aí de maiô e botas vermelhas?

Fetiche nerd, o traje de "Escava Leia" foi banido pela Disney

Fetiche nerd, o traje de “Escava Leia” foi banido pela Disney

Dentre as tantas coisas que irritam as fãs de super-heróis, talvez a maior delas seja enxergar todas as personagens femininas – mesmo as mais admiráveis – serem retratadas em trajes ínfimos para agradar aos homens. Por vezes a exposição beira o ridículo, desafiando a anatomia. Em 2012, a capa de um gibi da Mulher-Gato virou piada ao mostrar a heroína de um ângulo em que o peito e a bunda apareciam ao mesmo tempo, vistos de cima. Como alguns desenhistas demonstraram jocosamente, tal ângulo só seria possível dobrando a coluna da moça ao meio. A editora mudou o desenho, e aproveitou para subir o zíper do decote.

Nos bastidores do novo Star Wars, provocada a dar um conselho à novata Daisy Riley, a atriz que interpreta a Princesa Leia foi direto ao ponto:

– Lute pelo seu figurino.

Capa da Mulher-Gato desafia a anatomia

Capa da Mulher-Gato desafia a anatomia

Carrie Fisher se referia ao polêmico traje de Episódio VI – O Retorno de Jedi. No filme, Leia é capturada por um vilão grotesco e aparece vestindo um biquíni mínimo, acorrentada pelo pescoço. O traje de “Escrava Leia” se tornaria um grande fetiche nerd. Três décadas depois, a Disney anunciou que não licenciará mais produtos com a vestimenta.

A desculpa de que a nudez tem um propósito na trama é bastante comum, mas já não emplaca tão fácil. Redatora do site Collant sem Decote, a cineasta Rebeca Puig exemplifica com um caso recente dos videogames, do jogo Metal Gear Solid 5. Criticado por conta da personagem Quiet passar o tempo todo seminua, o criador do game justificou que ela respira pela pele. Vesti-la significaria sufocá-la.

00b53a39

Elektra: ninja nada discreta

– Engraçado é que há outro personagem com a mesma característica. Mas como é um homem velho, não anda pelado e ainda usa uma barba. A mulher, no entanto, é objetificada com essa desculpa furada – observa Rebeca.

Perguntinha: se uma mulher escrevesse o jogo, inventaria uma mulher que respirasse pela pele? E se fosse roteirista de cinema, Leia seria escravizada de biquíni? Aí temos outro problema.

:: #morewomen! O que acontece quando tiramos os homens do poder com o Photoshop?

Antes do collant, a caneta

Muito do preconceito de gênero no mundo dos collants vem sendo combatido à base da gritaria do público feminino. Porém, as especialistas apontam que a única forma de fazê-lo em definitivo é ter mais mulheres nos bastidores das histórias, como roteiristas, escritoras e diretoras. Redatora do site Pac Mãe, que mistura textos de cultura pop e maternidade, Nanda Café chama a atenção para a “Síndrome de Trinity”, uma referência à personagem da série Matrix:

– Muitas vezes, a personagem está lá e é bem construída. Mas a história não se desenvolve em torno dela, não se interessa por ela. Ao longo da trama, ela é automaticamente deixada de lado. Nem sempre isso ocorre por má-fé do roteirista, mas enquanto não houver mais mulheres escrevendo, vai faltar sensibilidade e empatia por esses personagens.

00b52852

Números do Instituto Geena Davis de Gênero na Mídia, bancado pela atriz de Thelma & Louise, evidenciam como essa perspectiva masculina influencia as histórias ao analisar a produção cinematográfica de 11 países, incluindo o Brasil. Em um mercado em que 79% dos cineastas são homens, e mulheres são apenas 7% dos diretores e 20% dos roteiristas, uma personagem feminina tem cinco vezes mais chance de receber um comentário sobre a sua aparência e o dobro de chance de acabar despida.

O sexismo também se reflete nos papéis. Mulheres correspondem a somente 31% dos personagens com falas, e conforme o papel, elas são automaticamente substituídas por homens. Quando há um médico na tela, a chance de ser um homem é de 85%, um juiz ou advogado, 93%, um esportista, 96%.

00b52855

No universo das heroínas, é animadora a perspectiva de ter mulheres também atrás das câmeras. A Mulher-Maravilha, que será apresentada em março no filme Batman Vs Superman – A Origem da Justiça, contará com um filme próprio em 2017 dirigido por Patty Jenkins, do seriado The Killing, outra história com uma mulher protagonista, a detetive Sarah Linden.

Se resta dúvida de que ter mulheres na produção faz a diferença, o sucesso recente de uma investigadora beberrona, malcriada e adorável não nos deixa mentir: ela atende por Jessica Jones.

:: Filha de Marcos Piangers surpreende com declaração feminista no programa ‘Encontro’, com Fátima Bernardes

Abuso, o supervilão

Produzido pela Marvel para a Netflix, o seriado Jessica Jones tem a assinatura de Melissa Rosenberg, com passagens por seriados como Ally McBeal, Dexter e The O.C. A série tem sido elogiada não só por colocar mulheres no centro da ação, mas por abordar questões caras a elas:

– Ela é dona da sexualidade dela. Não é uma mulher colocada na história para que outros personagens façam sexo. Além disso, ela é uma personagem que passou por abusos físicos e psicológicos. E em momento algum da série ela precisa de um homem para salvá-la – lista a cineasta Rebeca Puig.

Seu antagonista é o vilão Kilgrave: perdidamente apaixonado por Jessica (Krysten Ritter), ele usa do seu poder de comandar mentes para subjugar a garota. Trata-se de uma metáfora rica de como muitas mulheres se sentem ao se sujeitar a relacionamentos abusivos.

00b47f1a

“Jessica Jones”: mais do que um seriado de ação, um tratado contra a sujeição

Não é o único lugar na ficção em que as questões abuso e estupro têm aparecido como vilões. A lista é longa: no último filme Mad Max, a trama central é uma fuga de mulheres escravas comandada pela líder Furiosa. No apocalipse zumbi de The Walking Dead, Carol evolui de vítima de violência doméstica para uma das personagens mais fortes da série. Em Game of Thrones, Daenerys Targaryen passa de esposa arranjada a rainha e líder messiânica. Nos livros e filmes da série sueca Millennium, a hacker Lisbeth Salander se livra de um assistente social estuprador de forma épica e passa a investigar casos de abuso.

Logo alguns rapazes começaram a ficar incomodados.

:: Atriz de “Orange Is The New Black” critica pergunta de repórter do CQC: “misógina!”

O Império contra-ataca

Estudante de jogos digitais na Feevale, a ilustradora gaúcha Kaol Porfírio desenha para a marca de roupas Toda Frida. São brasões como os que ilustram esta página: personagens famosas com os dizeres “Fight Like a Girl” (lute como uma garota). Recentemente, a convite da ONG Think Olga, Kaol desenhou uma série com heroínas reais, como a paquistanesa Malala e a banda punk feminista russa Pussy Riot. Tudo lindo, não fosse por um problema sazonal.

– De tempos em tempos alguém descobre a página e rolam ondas de haters. São garotos que veem o meu trabalho como vitimização. Como um grande mimimi de quem vê machismo em tudo – relata a ilustradora. – É fácil acusar de vitimismo quando nunca se é a vítima.

00b52856

Sem exceção, as fontes consultadas para esta reportagem relatam episódios semelhantes. O site Minas Nerds, de Gabriela Franco, também nasceu depois de as criadoras serem expulsas de um grupo misto de Facebook por se manifestarem contra o sexismo das postagens. Desenvolvedora de um RPG (role playing game) exclusivo para mulheres chamado Corte de Copas, Evelini Andrade relata casos surpreendentes:

– Seguido descubro mulheres que escrevem com pseudônimos masculinos para serem aceitas nas editoras de RPGs. Nas traduções, há personagens mulheres que são transformadas pelas editoras em homens, para parecerem mais fortes e atrair jogadores.

00b52858

Se o problema da representação feminina na cultura pop parece estar no caminho de uma solução, os episódios citados evidenciam que há outro em ascensão: a ausência de diálogo. Com um público feminino vislumbrando independência e um masculino dedicado a manter as coisas como sempre foram, o receio é de que a fenda entre os sexos se amplie, exigindo produções diferentes para públicos distintos.

Ou seja, uma vez que as mulheres da cultura pop se tornem tão empoderadas quanto superpoderosas, heróis e heroínas terão pela frente um desafio ainda maior do que uma boa briga: estender as mãos.

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna