Futebol feminino e desigualdade de gênero: por que o gramado sintético sempre sobra pra gente?

Marta, meia-atacante da Seleção Brasileira de Futebol. Foto Minas Panagiotakis/Getty Images/AFP
Marta, meia-atacante da Seleção Brasileira de Futebol. Foto Minas Panagiotakis/Getty Images/AFP

Por Joanna Burigo, Especial 

Tá tendo Copa! Copa do Mundo de Futebol. Da FIFA. A mesma que, no ano passado, permitiu que parássemos o que estávamos fazendo para assistir jogos – com direito à pipoca, quentão, cerveja, amigos e buzinaço. Mas a deste ano é a Copa do Mundo de Futebol Feminino, e o interesse e a comoção, definitivamente, não são os mesmos.

Embora a campanha da nossa seleção nesta primeira semana do mundial tenha sido impecável – nos qualificamos para as oitavas, invictas: com 2×0 na Coréia do Sul, 1×0 na Espanha, e 1×0 na Costa Rica – e embora no domingo (21), às 14h, tenhamos um jogão agendado contra a Austrália, talvez essa seja a primeira vez que você esteja lendo sobre o torneio.

E a verdade é que, apesar da Marta, o futebol feminino ainda é muito pouco visível. A conversa a respeito das causas e consequências dessa falta de visibilidade tende a ser circular: não existe interesse porque não está na mídia; não está na mídia por falta de investimento; falta investimento porque não existe interesse… ou quaisquer outras permutações destes fatores. Mas o exercício de des/articulação de cada um desses pontos é vão, pois a raiz deste problema precede futebol, mídia e investimentos. A conversa precisa começar onde o problema começa: sexismo.

Talvez você tenha lido sobre a declaração do coordenador de futebol feminino da CBF, que ao não ver problema algum em celebrar ‘shorts mais curtos’ e ‘penteados mais bem-feitos’ como melhorias no esporte jogado por mulheres acabou por demonstrar uma certa falta de compreensão a respeito dos conceitos ‘melhoria’ e, bem, ‘esporte’ também. Ora, se penteado fosse sinal de progresso, essa seleção dos meninos já teria nascido classificada para a final! E francamente, eu nunca ouvi alguém dizer que o cumprimento dos shorts dos garotos pudesse atrair mais ou menos investidores.

Onde há fumaça de padrões duplos de tratamento baseado em gênero há fogo de sexismo.

Quem esteve antenado nas redes sociais na última semana talvez tenha percebido a profusão de imagens, veiculadas pelas próprias jogadoras do mundial, que mostravam feridas decorrentes de jogos nos gramados sintéticos. Ah, sim. Todos os jogos da Copa do Mundo do Canadá são em campos com gramado artificial. E as imagens vistas expõem o quão horríveis podem ser as consequências desses padrões duplos de tratamento.

gramasintetica
A norte-americana Sydney Leroux e a australiana Samantha Kerr publicaram fotos de arranhões e queimaduras causados pela grama sintética.

No texto abaixo – originalmente publicado pela Al Jazeera EUA e adaptado para Donna – a atleta Caitlin Fisher destrincha as razões pelas quais essa diferenciação, aparentemente inofensiva, não somente é prejudicial para muito além de canelas roxas, mas também configura sexismo, sim.

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“Aceitar que as mulheres devem jogar em campos precários é o mesmo que aceitar a diferença salarial entre gêneros”

Por Caitlin Fisher, Especial 

No dia 21 de janeiro de 2015 um grupo de mais de 40 jogadoras de futebol abriu um processo de discriminação de gênero contra a FIFA e a Associação Canadense de Futebol. A queixa fora apresentada em outubro do ano anterior, e se opunha à decisão de realizar a Copa do Mundo de Futebol Feminino em gramado sintético, não natural. O campeonato masculino nunca foi jogado em gramado artificial.

Mas o simbolismo de oferecer um gramado inferior para atletas do sexo feminino é mais profundo do que o que ocorre na superfície de um campo de futebol. Ao realizar a Copa do Mundo de Futebol Feminino em campos inferiores, a instituição responsável pelo rumo da modalidade reforça uma mensagem que vem sendo enviada para atletas mulheres há anos: o seu jogo é de segunda classe. Esta é a mesma mensagem subliminar enviada para meninas e mulheres em todos os lugares, todos os dias: “vocês merecem menos”. Ainda mais prejudicialmente, torcedores, administradores, familiares, treinadores e professores parecem estar confortáveis com o fato de as mulheres ficarem com menos.

Argumentos da FIFA em favor do gramado sintético estão relacionados às condições materiais e estruturais do campo – durabilidade, consistência e manutenção. Atletas enfatizam o efeito da grama artificial no desempenho e nos seus corpos: não é seguro e pode eliminar a criatividade no jogo. Estes argumentos opostos apresentam uma distinção sutil, embora significativa, que pode nos levar a pensar a respeito do que é valorizado por quem.

Frequentemente as mulheres se sentem sortudas apenas por terem um time e um campo para jogar e competir. A desigualdade é tão interiorizada que elas raramente falam e desafiam normas e padrões socialmente aceitos. E quando o fazem, suas vozes são muitas vezes desacreditadas ou silenciadas. Por exemplo, há alguns anos, uma jogadora de uma seleção feminina foi cortada da escalação por ter levantado um cartaz que pedia à sua federação nacional de futebol que fornecesse mais apoio ao futebol feminino. Da mesma forma, neste conflito sobre os gramados, algumas autoridades do futebol alegadamente teriam ameaçado jogadoras com suspensão caso elas protestassem.

A decisão da FIFA de usar gramado sintético reflete essa dinâmica profundamente enraizada em uma escala global. As corajosas jogadoras que desafiaram essa decisão degradante não poderiam fazê-lo sozinhas. Delas foi exigido que desistissem de seu caso legal para que se concentrassem na preparação para o campeonato. Mas nós temos a oportunidade de chutar essa bola que ficou quicando para garantir que este continue sendo um problema visível e relevante.

Nós podemos não ver campos de grama natural no Canadá em 2015, mas a conversa deve continuar durante a Copa, e para além do dia 6 de julho, data da final do torneio. E o debate não deve ser limitado às páginas de esportes dos jornais.

A decisão da FIFA quanto ao gramado da Copa do Mundo de Futebol Feminino afeta a sociedade como um todo e reflete valores arraigados e que raramente vêm à tona, mas cujas raízes se estendem para além do perímetro do campo. Aceitar que as mulheres devem jogar em campos precários é o mesmo que aceitar a diferença salarial entre gêneros. A questão do gramado não é um debate trivial do mundo dos esportes. Trata-se de direitos reais.

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Joanna Burigo mora em Porto Alegre, mas é de Criciúma, e o futebol corre no sangue de sua família. Fisher é de Cambridge, Massachusetts, e foi capitã da equipe de futebol feminino de Harvard, além de ter jogado profissionalmente no Brasil, Suécia e Estados Unidos. As duas são co-fundadoras do Guerreiras Project, um coletivo de atletas, acadêmicas, ativistas e artistas que usam futebol como ferramenta de promoção de diálogos sobre justiça de gênero.

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