Grupo de advogadas gaúchas incentiva mulheres a ocuparem cargos de liderança no meio jurídico

Foto: Camila Domingues, Especial
Foto: Camila Domingues, Especial

Rossana Silva, Especial

No carro a caminho de uma audiência, há alguns meses, uma advogada gaúcha escutou do chefe, sentado a seu lado, após serem cortados no trânsito por uma mulher:00

– Essa deve estar atrasada para tirar a panela do fogão!

O comentário, naturalizado a ponto de muitas mulheres e homens sequer perceberem seu teor machista, levou a advogada a apresentar outra possibilidade ao interlocutor:

– Talvez ela também esteja a caminho de uma reunião de trabalho.

Horas mais tarde, depois de encerrada a sessão, a situação foi compartilhada com cerca de 90 saias em um grupo no WhatsApp. É assim, com o nome de peça do vestuário que tradicionalmente identifica a mulher, que quase uma centena de gaúchas se identificam entre si para trocar informações sobre o meio jurídico e incentivar mais mulheres a alcançarem posições de liderança dentro das empresas. Elas são o Jurídico de Saias, rede formada em 2009 por advogadas com cargos de chefia em grandes corporações. No Brasil, a criadora do grupo foi a diretora do departamento jurídico da General Eletric, Josie Jardim. No ano seguinte, participantes gaúchas se uniram para a versão regional da iniciativa.

Com o passar dos anos, o perfil do grupo foi ampliado para absorver advogadas nas mais diferentes fases da carreira. O que não mudou, no entanto, foram os desafios enfrentados pelas saias. Embora já sejam a maioria em muitas empresas e nos cursos de Direito, a proporção não é observada na sociedade de grandes escritórios de advocacia ou na liderança dos departamentos jurídicos de empresas. Nos cargos de chefia, elas ainda são minoria. E, talvez por isso, algumas sentem dificuldade em assumir seu lugar em mesas de negociação ou tomar a frente para reivindicar desafios. A percepção é da coordenadora do Departamento Legal da Thyssenkrupp Elevadores, Ana Amélia Ramos de Abreu, 37 anos. Cearense radicada em Porto Alegre há 12 anos, ela é uma das entusiastas das saias.

Encontro das advogadas no escritório Souto Correa (Foto: Camila Domingues, Divulgação)

Encontro das advogadas no escritório Souto Correa (Foto: Camila Domingues, Divulgação)

— Observamos que as mulheres ainda têm tendência a não se candidatar a desafios para os quais não se consideram 100% preparadas. Já os homens, se acham que estão 70% prontos, ou até menos, levantam a mão e vão. E ninguém está completamente pronto. O Jurídico de Saias existe para dizer às mulheres: “Não te preocupa, a gente não vai te deixar sozinha. Vai, que a gente te ajuda — explica a advogada.

Discutir a situação das mulheres em ambientes que muitas vezes ainda repercutem o machismo histórico não costuma ser fácil. A experiência do grupo aponta que temas como maternidade e aumento salarial ainda são sensíveis de serem tratados entre mulheres e empresas. E brincadeiras e piadinhas costumam vir à tona quando questões de gênero são trazidas à mesa. É normal escutar dos colegas homens indagações como “Por que precisamos falar de feminismo se temos tantas mulheres nessa sala?”. A própria Ana Amélia responde a questão:

— Tem muitas advogadas nesta sala, sim, mas elas ganham menos, são menos promovidas e têm menos oportunidades do que os homens. Por quê? É algo que só agora as empresas estão começando a se dar conta. Estudos estão mostrando que empresas com maior equidade têm melhor desempenho. As mulheres levam novas visões e diferenças às empresas. E isso se reflete em lucro.

coordenadora do Departamento Legal da Thyssenkrupp Elevadores, Ana Amélia Ramos de Abreu (Foto: Camila Domingues, Divulgação)

coordenadora do Departamento Legal da Thyssenkrupp Elevadores, Ana Amélia Ramos de Abreu (Foto: Camila Domingues, Divulgação)

No WhatsApp, por e-mail ou no blog do grupo, dúvidas técnicas ou sobre gestão são rapidamente respondidas. E volta e meia a rede também é acionada para fins pessoais. Há espaço tanto para indicações de processos de trabalho ou escritórios de advocacia em outros Estados quanto para indicar uma babá de confiança para socorrer uma colega em apuros. Os encontros presenciais ocorrem mensalmente em escritórios de advocacia como o Souto Correa, onde foi registrada a foto dessa reportagem, no início do mês. No fim de semana passado, muitas delas voltaram a se encontrar para um brunch, com um cardápio variado de temas.

— Quando as mulheres estão reunidas, não é para falar assuntos “mulherzinha”, mas para discutir negócios, execuções de processos e grandes negócios com a diretoria da empresa — afirma Ana Amélia.

Projeto Madrinhas

Em ano de crise, ajudar umas às outras tornou-se ainda mais necessário. Ao retornar da licença-maternidade da segunda filha, em fevereiro, Ana Amélia Abreu percebeu, no blog do grupo, que estavam cada vez mais frequentes relatos de mulheres contando terem sido demitidas, algumas na mesma situação que ela, retomando a atividade profissional meses após dar à luz. A advogada procurou a colega Josie Jardim, e, juntas, desenvolveram o projeto Madrinhas, em andamento desde abril. A ideia é que uma profissional ativa no mercado de trabalho auxilie outra que esteja buscando a recolocação.

— Tivemos saias que foram demitidas com 10, 15, até 20 anos de empresa e não sabiam como recomeçar — explica Ana Amélia.

As madrinhas se mobilizaram para ajudar as colegas a refazer o currículo, participar de cursos de capacitação, retomar a rede de contatos e buscar vagas apropriadas a cada perfil. Deu resultado: das cerca de 25 “afilhadas”, 12 conseguiram se recolocar até novembro.

Outra iniciativa é a Woman in law mentoring, no qual advogadas experientes atuam como mentoras de jovens em início da vida profissional. Foi assim que Bruna Zani, 27 anos, conseguiu uma recolocação profissional. Ela havia sido desligada do trabalho no final de 2015, quando o hospital para o qual seu escritório trabalhava reduziu os serviços na área de advocacia.

— Nessa fase, as mentoras foram essenciais para assimilar a notícia e buscar uma recolocação. Elas me deram dicas e me prepararam para a seleção — lembra.

Em setembro, sete meses após ser contratada por uma multinacional, foi promovida à advogada responsável pela empresa no Brasil.

— Em menos de um ano, passei de desempregada a um cargo significativo. E isso graças à mentoria que recebi e ao Jurídico de Saias. É como uma irmandade mesmo, todo mundo se ajuda a todo o momento.

Leia mesmo que você não seja advogada: dicas para a carreira

Listamos os principais desafios detectados no grupo Jurídico de Saias — compartilhados com mulheres de todas as profissões — e pedimos dicas dos coaches Adriana Duval e Jeferson Duval:

• Pedir aumento de salário
Apresente dados sobre seu bom desempenho: metas alcançadas, produtividade da equipe, otimização de processos etc. É importante ter foco na performance profissional, sem abordar necessidades pessoais para justificar o aumento.

• Comunicar a gravidez
Ao dar a notícia, apresente uma proposta de planejamento, detalhando suas atribuições, os projetos nos quais está envolvida, quem você propõe que assuma temporariamente estas tarefas e como fará essa transição.
— Também pode-se organizar um treinamento para quem a substituirá e uma previsão de situações que podem ocorrer durante sua ausência, indicando caminhos a serem tomados — sugere Adriana Duval.

• Reivindicar cargos de liderança
Assumir uma nova posição gera desafios e aprendizados. A autoconfiança é uma construção e pode ser desenvolvida com cursos preparatórios para cargos de liderança.

• Assumir um lugar na mesa em uma reunião
Demarque seu espaço para fala, começando com frases como “Eu gostaria de cinco minutos para colocar os resultados que obtive junto a um cliente”, destacando o que pode contribuir em relação ao tema em discussão.

— Quando a pessoa deixa explícito sobre o que vai falar e de quanto tempo precisa, tem atenção focada das pessoas. Aos poucos, a participação nas reuniões se torna natural — indica Jeferson Duval.

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