Hashtags como #meuamigosecreto dão voz ativa às mulheres nas redes

#meuamigosecreto pega todas as menininhas de 14 anos, mas, se souber que a irmã dele que tem 14 anos beijou na boca, ele morre!

 #meuamigosecreto acha o cúmulo uma menina transar no primeiro encontro, mas, se um cara conta que transou com uma no primeiro encontro, ele é o fodão.

 #meuamigosecreto se diz um homem íntegro e de respeito, mas se aproveita de sua posição para assediar mulheres no ambiente de trabalho.

As frases acima compõem um movimento virtual que tomou as redes sociais nessa semana. Com a hashtag #meuamigosecreto, mulheres denunciaram práticas e comportamentos machistas de homens (e de outras mulheres também) que conheciam, sem revelar nomes. De ações violentas a comportamentos machistas despercebidos por serem naturalizados, relatos e mais relatos se espalharam pelas timelines. Assim que viu a hashtag circulando no feed de notícias, a técnica de segurança do trabalho Bruna Souza criou a página “Meu Amigo Secreto” no Facebook.

– Imaginei que, assim como eu, outras mulheres poderiam querer aderir à campanha, mas não podiam publicar na própria linha do tempo – conta. – Tenho recebido muitas mensagens para serem postadas anonimamente.

:: #meuamigosecreto: Conheça a campanha que expõe pensamentos machistas

A ação que alcançou o topo dos termos mais comentados e replicados no Facebook e no Twitter não é a primeira mobilização via hashtag que ganhou relevância nos últimos meses. As mulheres têm feito das redes uma das principais ferramentas de denúncia e empoderamento.

Em outubro, manifestações masculinas nas redes sociais de assédio a uma participante de 12 anos do programa MasterChef Júnior levou as mulheres a veicular a hashtag #meuprimeiroassedio. Somente no Twitter, vieram à tona 82 mil relatos, a maioria deles ocorridos quando as autoras ainda eram crianças. Em 2014, a divulgação de uma pesquisa do Ipea em que 26% dos participantes concordaram com a afirmação “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros” levou mais de 40 mil mulheres a divulgarem fotos de seus corpos expostos com a hashtag #EuNãoMereçoSerEstuprada.

Mas, afinal, o que uma simples hashtag é capaz de fazer?

– Ela não vai limpar o machismo da sociedade, mas é uma ferramenta de conscientização. Dá voz ativa para a mulher que tinha vergonha de falar. E isso pode acontecer de uma forma irônica e extremamente criativa, como no caso do #meuamigosecreto – garante Estela Rocha, criadora da ONG digital Empoderamento da Mulher e participante do Núcleo de Pesquisa sobre Gêneros, Sexualidades e Feminismos da PUCRS.

Para grupos e movimentos que se propõem a descontruírem padrões, o ativismo digital tem feito diferença. Historicamente, o feminismo sempre encontrou formas midiáticas alternativas, e agora é a vez das redes. Para Jane Felipe, professora da UFRGS e pesquisadora do Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero, ações como o #meuprimeiroassedio e #meuamigosecreto possibilitam que relatos de abuso ou assédio tenham visibilidade e impacto. Inclusive para aqueles que cometem esse tipo de violência.

– Os próprios homens se assustaram ao saber que suas mulheres e filhas passam por situações constrangedoras – diz Jane.

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A pesquisadora vai além. Segundo ela, as próprias mulheres, por vezes, custam a se dar conta do quanto elas mesmas naturalizaram situações machistas no dia a dia. Como criticar quem usa roupas bem justas e curtas ou culpar automaticamente a mulher por um caso de infidelidade.

– Existe uma espécie de micromachismos, que são pequenos machismos diários, quase imperceptíveis, que nem homens e mulheres se dão conta – destaca Jane.

O primeiro passo – tornar os casos mais perceptíveis – está dado. Agora cabe a mulheres e homens não repeti-los. #FicaADica.

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