Leitora enganada em app de paquera: “Tudo o que ele me dizia parecia ser verdade, e fui acreditando”

Foto: Pexels
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E se o cara que você conheceu no aplicativo de paquera não for quem ele diz ser?

 

Na seção Confidencial, que traz histórias de leitoras que preferem se manter no anonimato, uma empresária de 30 anos, de Porto Alegre, conta como teve um relacionamento de quase um ano com um homem que inventou um personagem apenas para se aproximar dela – e viver às suas custas.

Leia o relato:

Faz uns três anos. Eu estava solteira por quase um ano, depois de um relacionamento sério e longo. Não vou dizer aquela coisa de “nunca quis entrar em aplicativo de paquera, as minhas amigas que insistiram”, porque não seria verdade.

A febre dos aplicativos começou quando eu ainda namorava e me coçava de curiosidade de saber como funcionava, quem estava lá, como eram as conversas. Na época, o aplicativo ainda era relativamente novo. Criei um perfil semanas depois de ficar solteira, em casa, sozinha, sem ninguém me pressionar pra isso.

Eu trabalhava muito e tinha pouco tempo para sair e conhecer gente. E o meu círculo de amizades era muito pequeno. Com a vida que levava, a chance de conhecer alguém realmente novo e diferente seria mínima se não fosse o aplicativo. Mas não necessariamente usava o aplicativo com o objetivo de conhecer alguém, era mais uma brincadeira. Já ri muito do que passou na minha tela.

Vez que outra, alguém rendia uma conversa interessante. Eu nunca dava bola para quem chegava pedindo “foto de agora”, perguntando onde eu morava, qual o WhatsApp ou já querendo marcar de encontrar. Mas tinha um ou outro que chegava contando uma piada, fazendo graça com alguma coisa do meu perfil.

Se eu não me engano, era noite de entrega do Oscar quando comecei a conversar com ele. Deu match algumas horas antes da cerimônia, e a gente estava conversando há um tempo. A conversa foi muito boa, e ele mostrou ter o mesmo costume de escrever demais, então nossas mensagens eram enormes e os assuntos duravam horas. Não me lembro quais foram os primeiros assuntos, mas, sempre que eu trazia algo, ele respondia com um, “Capaz, eu também!”.

Fiquei empolgada, parecia que tinha encontrado alguém que tinha tudo a ver comigo. Era também interessante que a gente não tinha nenhum amigo em comum, então eu pensava, “Nossa, se não fosse o aplicativo, jamais teria conhecido esse cara!”.

Em mais ou menos um ano usando o aplicativo, eu só tinha encontrado um cara pessoalmente. Saí e fiquei com ele um dia, mas depois nunca mais quis ver. Mas, em ambos os casos, conversei muito, mas muito, por semanas, antes de marcar um encontro pessoalmente. Queria ter certeza de que era alguém de confiança.

Nos encontramos no centro de Porto Alegre. Ele comentou algo sobre não poder usar o carro dele naquele dia, e me ofereci para dar carona, já que era caminho. Ao invés de pegá-lo na casa dele, sugeriu que eu parasse na esquina, porque era “mais fácil” para mim. O encontro foi ótimo, conversamos muitas horas.

Ele era advogado, bem-vestido, trabalhava em um escritório bom e fazia pós-graduação. Não tenho amigos advogados, então sou completamente alheia ao meio. Tudo o que ele me dizia parecia ser verdade, e eu fui acreditando. Fomos para o meu apartamento, e ele não saiu mais de lá. Nós namoramos por quase um ano inteiro. Eu tinha um ótimo salário, meu apartamento tinha tudo pra acomodar nós dois muito bem. Eu nunca vi o carro dele, e sempre acabamos usando o meu.

Por ele ter dito ser advogado e pelas nossas primeiras interações, supus que a nossa situação econômica era semelhante. Ele se vestia bem, íamos a lugares relativamente caros e dividíamos a conta. Sempre fui muito independente e nunca gostei que pagassem a conta para mim: então, meio a meio me parecia o arranjo ideal.

Levou um pouco mais de um mês para eu apresentá-lo à minha família. A essa altura, eu já tinha percebido que a arrumação toda dele consistia, na verdade, em duas ou três roupas. E, pouco a pouco, ele foi parando de se oferecer pra dividir a conta, e, em alguns meses, eu já estava pagando tudo pra ele.
O meu irmão estava com um problema com uma empresa e precisava de assessoria jurídica.
Ele se ofereceu pra ajudar, entrou em contato com a empresa.

Se apresentou como advogado do meu irmão, orientou, aconselhou. O problema nunca se resolveu, mas, da forma como ele colocava, a culpa era da empresa.

Um dia, quando já estávamos juntos há uns quatro meses, eu encontraria os amigos dele pela primeira vez. Ele já praticamente estava morando na minha casa, representando o meu irmão como advogado, entrosado com a família. E eis que ele me chama para conversar e me conta que, na verdade, tecnicamente, ele não era advogado.

Era uma “mera formalidade”, ele dizia, porque faltava só um semestre do curso de Direito. As aulas a que ele ia, uma vez por semana, não eram do pós, e sim da graduação.

Eu não sabia onde me enfiar, talvez por estar na minha própria casa. Pensei nos meses mentindo para minha própria família, na lambança que ele deve ter feito com o problema do meu irmão. Fiquei sem ar e sem chão. Perguntei sobre o escritório onde ele disse que trabalhava e respondeu que, na verdade, era estagiário.

A minha decepção não era com o grau de instrução, cargo ou renda dele. Para mim, isso pouco importa. Mas ele ter mentido esses meses todos, na minha cara, para minha família, para os meus amigos, colegas. Eu não conseguia acreditar que, depois de tudo o que já tinham me aprontado na vida, eu ainda não tinha aprendido. Não conseguia acreditar que alguém criaria um personagem só pra atrair outra pessoa.

Mas eu queria me convencer de que o meu julgamento não tinha sido tão equivocado desde o começo e, por isso, dei mais uma, duas, três, 10 chances pro cara. Ele se mudou para minha casa e, por outros cinco meses, não pagou absolutamente nada. Um dia, chamei para uma conversa.

Eu disse que entendia que ele ganhava pouco. Mas era uma questão de responsabilidade contribuir com as despesas da casa onde vive, mesmo que a contribuição fosse pequena, simbólica. Sugeri que ele pagasse a conta de luz. Aluguel, condomínio, comida, internet, água e todas, todas as outras contas eu assumia.

Com frequência, eu chamava ele pra conversar a respeito da mentira dele, que ainda não tinha se graduado. Queria saber como estava o tal do diploma. O semestre já tinha passado, mas tinha dado um problema aqui, outro ali. Eu queria saber quando ele iria sentar com a minha família para contar que tinha mentido para eles. Ele mentiu, ele que desmentisse. Eu não resolveria o problema que ele havia criado.

Quando começamos a namorar, ele comentou que ia para Lisboa de férias. Em alguns meses, eu decidi que ia com ele. Mas, veja só, deu um problema no passaporte, ele perdeu a data e a passagem. Eu comprei as duas passagens pensando que ele iria, no mínimo, me pagar com o valor do reembolso da passagem dele. Moral da história: levei o cara pra Lisboa, a primeira viagem internacional dele, com todas as despesas pagas durante a pior cotação do real.

A gota d’água veio três meses depois da viagem. Morávamos juntos e ele não contribuía em nada. E nada tinha mudado. Nada de diploma. Nada de contar pra minha família. Eu sempre fui desligada com extrato bancário, mas um dia resolvi dar uma olhada em como estava a minha conta. Nós tínhamos saído três vezes naquela semana, e ele se retirou para pagar a conta as três vezes. Como era fim de ano, imaginei que ele tinha recebido algo a mais e aceitei a “gentileza”. Pois a gentileza fora feita com o meu próprio dinheiro. Por motivos que eu não sei, ou escolho não saber, eu tinha dado a minha senha para ele pra pagar um almoço com o meu cartão um dia. Desde então, todas as vezes que ele saía pra pagar, ele passava o meu cartão.

Eu o confrontei, decepcionada e sem forças pra acreditar em mais nada. Ele virou o argumento contra mim, dizendo que eu tinha problemas em confiar nas pessoas. Que seria insustentável pra ele ficar comigo se eu não conseguisse confiar nele. Que ele esperava mais de mim, não esperava que eu desse tanta importância para dinheiro. E foi só depois desse dia que eu quebrei o silêncio.

Família, amigos, terapeuta. Ninguém sabia o que estava acontecendo. Para todo mundo, nós dois éramos um casal apaixonado, divertido, que se dava bem. Eu sabia o quanto doía ter que engolir uma mentira atrás da outra e ainda me sentir culpada por confrontá-lo por elas. Terminei com ele em questão de dias.

Depois de terminar com esse cara, eu ainda entrei no aplicativo algumas vezes e até encontrei com um ou outro, mas nunca mais esperei nada sério vindo dali. Tenho amigos com relacionamentos que começaram no aplicativo de paquera e são felizes. O meu azar poderia ter acontecido tanto por ali quanto em uma festa, um bar.

A lição que ficou é de ter muito cuidado antes de confiar em alguém e, obviamente, se valorizar acima de paixões. Não consigo suportar desonestidade e poderia ter terminado tudo nas primeiras semanas, quando comecei a descobrir as primeiras mentiras. E só de pensar que se eu simplesmente tivesse dado um Google nesse cara, nada disso teria acontecido…
Se você quiser compartilhar a sua história neste espaço, escreva para a gente: contato@revistadonna.com.

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