Lições em quatro patas: donas de pets contam como animais mudaram suas vidas

Dona do golden retriever Gordo e da yorkshire Suki, Daisy Vivian lança livro sobre como os animais nos ajudam a encontrar bem-estar (Foto: Mateus Bruxel, Agência RBS)
Dona do golden retriever Gordo e da yorkshire Suki, Daisy Vivian lança livro sobre como os animais nos ajudam a encontrar bem-estar (Foto: Mateus Bruxel, Agência RBS)

Se a vida fosse um filme romântico, difícil pensar em um início melhor. Ela era solteira, tinha 27 anos e partia animadíssima para um doutorado na universidade Sorbonne, em Paris. Porém, em questão de horas, a empreitada foi se tornando gradativamente pior do que a jovem brasileira imaginava, a ponto do gênero do filme se transformar em drama com toques de suspense. Sua primeira experiência no metrô parisiense foi ter o celular roubado segundos antes da porta se fechar com o ladrão do lado de fora. No apartamento JK que alugara à distância, vivia aterrorizada com a presença de dois vizinhos asiáticos de cara fechada que nunca se apresentaram, mas, coincidentemente, sempre estavam no corredor quando ela saía do banho, no banheiro cujo único chuveiro era dividido entre os condôminos do mesmo corredor.

As experiências de convivência social eram de dois tipos: de um lado, o desprezo das francesas. De outro, aproximações mal-intencionadas de homens de todas as nacionalidades, graças à deturpada imagem da mulher brasileira. Ao longo dos primeiros meses, seu segundo maior medo (o primeiro ainda eram os vizinhos) era o de ser atropelada e socorrida como indigente. Até o dia em que a esposa colombiana de um colega de doutorado deu a ideia: por que ela não adotava um cão de guarda? O maior que encontrasse, de preferência? Certamente faria os vizinhos pensarem duas vezes antes de qualquer aproximação.

Hélios – que o pai dela, por foto, comparou a um pônei – era um leonberger. Raça alemã semelhante a um golden retriever, mas com o rosto negro. Trata-se de uma raça famosa pela afabilidade, mas ninguém precisava saber disso. Adotado de um albergue para cães previamente abandonados, o cão não deu apenas segurança à sua humana brasileira no lado de fora da porta do banheiro. Deu calor aos pés no inverno europeu durante maratonas de estudo, um bom motivo para desbravar as ruas parisienses e, quem diria, ajudou na socialização com os franceses, que pareciam gostar mais de cães do que de estrangeiros.

O problema se deu na hora de retornar ao Brasil, com o diploma debaixo do braço. Em razão da idade avançada e tamanho avantajado, o cão poderia não resistir a uma longa viagem de avião sob sedativos. Embora tenha tido um final feliz para o cão – ele seria adotado de bom grado pela amorosa família do seu veterinário –, a história de Hélios foi contada aos prantos pela sua dona no voo de volta de Paris à veterinária e jornalista gaúcha Daisy Vivian em 1996, em um voo da extinta Vasp. Ela é contada no capítulo 14 – O Soldado Grego, referência ao nome de Hélios, que significa sol no idioma – de um livro que inquietou a autora por duas décadas antes de sair do papel.

– Essa foi a primeira história que ouvi, mas haveria dezenas de outras depois dessa. Como sou veterinária, é normal os donos compartilharem comigo a história deles com seus pets quando eles estão no finalzinho da vida. Ao longo do tempo, criei essa convicção. Se os relatos aconteceram mesmo da forma como os donos contam, eles têm toda a razão de me dizer que o animal é um auxílio terapêutico na manutenção da autoestima deles – conclui a autora.

 Cães e Gatos Sabem Ajudar seus Donos a Superar Conflitos e Encontrar Paz Interior (Ícone Editora, 2017)


Cães e Gatos Sabem Ajudar seus Donos a Superar Conflitos e Encontrar Paz Interior (Ícone Editora, 2017)

O que Daisy fez, então, foi compilar as 24 histórias mais significativas e impressionantes – todas verídicas, embora romantizadas e narradas em forma de relatos em primeira pessoa – no livro Cães e Gatos Sabem Ajudar seus Donos (Editora Ícone, 2017), que ela autografa nesta feira do livro. Em múltiplas histórias, cães e gatos desempenham papéis mais importantes do que os seus donos esperavam para superar situações de crises como separações, mudanças de cidade, luto, tratamentos médicos e até violência doméstica.

Segundo a veterinária, também colunista de Donna no blog Animal Print, o papel do animal de estimação ganhou em importância nos últimos anos por oferecer constância e afeto em tempos de relações cada vez mais efêmeras entre humanos.

– Acabou aquela história de encontrar uma pessoa e um emprego e viver aquilo por décadas até se aposentar em um casinha na Serra. Atualmente, um dia se está noiva, no outro o parceiro fez as malas e se mandou. Em um dia se tem trabalho, no outro não. O animalzinho, em troca de comida e abrigo, te oferece a certeza de um afeto e constância – declara Daisy, que pretende escrever ainda dois outros livros: um apenas com histórias de animais adotados e um terceiro sobre os arquétipos mentais e o resgate histórico sobre cães e gatos.

Essa importância crescente dos pets vem sendo observado com atenção por especialistas em áreas da saúde, a ponto de se inserirem em diferentes terapias.

– Algo que me chama bastante a atenção, tanto em consultório quanto em ambulatório, é a quantidade de pessoas que relatam não ter se suicidado ou porque não teriam com quem deixar seus pets ou porque os donos não queriam submetê-los a essa perda. Algo que costumávamos ouvir sobre os filhos, em outros tempos – declara a psiquiatra Heloísa Fischer Meyer, que acrescenta: – Não é de hoje que animais são usados para tratamentos como facilitadores de interação social, e mais recentemente como prevenção ao suicídio. Eles têm uma grande vantagem que é o fato de não terem preconceito.

Os primeiros estudos usando animais como essa espécie de “facilitadores afetivos” datam da década de 1950, e começaram por acidente em um consultório nova-iorquino. Reza a lenda que por mais de um mês o psicólogo infantil norte-americano Boris Levinson tentava sem sucesso interagir com um menino de 10 anos com problemas de socialização. Um belo dia, o menino chegou adiantado ao consultório e deparou com Jingles, o labrador do doutor Levinson, descansando na sala de espera. Em minutos, diante do boquiaberto psicólogo, o menino confessava suas angústias, temores e dilemas enquanto acariciava seu confidente peludo.

Os primeiros resultados dos estudos de Levinson vieram em 1962, em artigo científico intitulado “O Cão como Co-terapista”, sobre os bons resultados do uso de cães no tratamento de pacientes autistas. O trabalho seria ridicularizado na comunidade científica. Justiça seja feita: mais pela forma do que pelo conteúdo. Além da temática inusitada, não ajudou para dar-lhe credibilidade o uso de termos como Doutor Jingles no texto. Nas décadas seguintes, todavia, as teorias de Levinson ganharam respaldo diante de resultados semelhantes em outros estudos.

Um deles, por exemplo, conduzido na Universidade da Califórnia, utilizou três grupos de pacientes hospitalizados que eram visitados por voluntários acompanhados de cães, outro só por voluntários e outro sem visitas. O primeiro era, de longe, o de melhor resultados em questões associadas à ansiedade, como a pressão arterial e a presença do hormônio epinefrina no organismo, associado ao estresse. Neste ano, o Hospital Centenário, de São Leopoldo, resgatou o projeto Visita Pet, em que pacientes interagem quinzenalmente com cães disponíveis para adoção no Canil Municipal. A experiência é inspirada em iniciativa semelhante aplicada pelo Hospital Albert Einstein (SP) desde 2009.

Mas conforme apontam os depoimentos colhidos por Daisy e por Donna para esta reportagem, a convivência com pets traz benefícios e mudanças no estilo de vida que não precisam ser medidos por um médico ou por um psicólogo para serem comprovados. A designer Taícia Barbosa Ribeiro é uma que parece não estar no livro de Daisy porque as duas jamais se encontraram. Tai se mudou de Porto Alegre em pleno verão de 2010 para Florianópolis em busca daquela visão idílica de Pequeno Rio de Janeiro que a capital catarinense evoca a todo gaúcho. Em vez de praia e qualidade de vida, encontrou uma cidade com poucas opções culturais, pessoas pouco dispostas a se abrirem a novas amizades e muito, muito trabalho.

Sozinha em uma cidade nova, Taícia Ribeiro adotou a gatinha Anita para ter companhia em casa (Foto: Mateus Bruxel, Agência RBS)

Sozinha em uma cidade nova, Taícia Ribeiro adotou a gatinha Anita para ter companhia em casa (Foto: Mateus Bruxel, Agência RBS)

– Com cada vez menos o que fazer fora do trabalho, quanto mais eu trabalhava, mais eu trabalhava. Adotei a Anita, na verdade, porque sentia falta de ouvir minha própria voz dentro de casa, e não queria ser uma louca falando sozinha. Preferia conversar com a gatinha, então – conta.

A solidão se assentou e trouxe junto sintomas de depressão e síndrome do pânico. Não fosse a presença da gatinha, batizada em homenagem à heroína farroupilha catarinense, Taícia não sabe se teria encontrado o caminho para fora da cama.

– Acho que ela era a minha força motriz. Quando eu me sentia no fundo no poço, pensava que eu precisava levantar para tomar conta dela. Às vezes, acordava com ela literalmente pulando em cima de mim. No início eu pensava que era só porque queria comida, mas comprovei que ela sabia mesmo quando eu estava mal no dia em que morreu o meu pai. Eu não falava com ele há 18 anos e fiquei em choque com a notícia de sua morte. Naquele dia, sem que eu tivesse esboçado nada, Anita não saiu de perto de mim. Me seguia e não desgrudava – conta a gaúcha.

De volta a Porto Alegre, para onde retornaria dois anos depois, a designer ainda tem na gata Anita uma guardiã – de tanto tomar conta da dona, desenvolveu certo ciúme de visitas – e agora companheira para sessões de reiki, técnica japonesa para canalizar energia para redução do estresse e relaxamento, que Tai faz em casa.

– Para ver como ela sente, eu estou em um estágio do reiki que não uso mais as mãos. E, sem eu fazer nada, ela sabe exatamente quando acabou a sessão. Simplesmente levanta e vai embora – conta a designer.

O reiki para pets, coincidentemente, é um ponto em comum entre Tai e a promotora de eventos Aline Nunes, dona das cadelinhas Zoeh e Preta, na capa da edição impressa da Revista Donna.

A ponto de a humana ter mudado até a alimentação para não afetar os mascotes.

– As pessoas que comem carne têm uma energia mais densa, em razão do sofrimento animal que afeta o alimento. Então parei. Como se trata de uma comunicação por sentidos, não quero passar isso para elas – justifica Aline.

Mas esse foi apenas o último dos hábitos que Aline mudou depois de comprar a shitzu Zoeh em 2008 e, sobretudo, adotar a cadelinha Preta em 2013.

Depois de comprar a shih tzu Zoeh e adotar a vira-lata Preta, Aline Nunes passou a viajar menos a trabalho e a passear mais pela cidade (Foto: Mateus Bruxel, Agência RBS)

Depois de comprar a shih tzu Zoeh e adotar a vira-lata Preta, Aline Nunes passou a viajar menos a trabalho e a passear mais pela cidade (Foto: Mateus Bruxel, Agência RBS)

– Encontrei a Preta prenha, prestes a dar cria em um bar de beira de estrada em Cachoeirinha, onde eu estava organizando um evento agrícola. Vi ela ser enxotada ao pedir comida e fiquei com aquilo na cabeça. Na volta, parei no mesmo lugar e ela ainda estava ali por perto. Confirmei que ela não tinha dono e coloquei no meu carro – conta Aline.

Dez dias depois, os cachorrinhos nasceram e foram adotados com sucesso, mas restava Preta, que, confessa Aline, ainda tinha a intenção de também repassar para adoção. Longe dos filhotes e, segundo Aline, pressentindo que seria a próxima da fila, Preta começou uma revolução particular contra chinelos, mobílias e tapetes. A reação de dona foi diferente da que a cadelinha esperava.

– Um belo dia cansei daquilo, olhei pra ela e disse: “Preta, relaxa. Tu fica”. Juro que o comportamento dela mudou da água para o vinho. Voltou a ser aquela cadelinha tranquila do início – conta Aline, que atribui à nova companheira toda uma nova rotina e hábitos e estilo de vida. – É impressionante como tu mora pertinho de uma praça e nunca tem o hábito de ir ali aproveitar. Um cachorro te dá não só isso, mas a oportunidade de interagir com as pessoas, de perceber que você está há muito tempo fora de casa, muito tempo sem pegar um sol.

Preta se tornou uma cadelinha tão sociável que Aline criou um instagram chamado @pretinha.rp – o RP se refere a “relações públicas”. O que vem ao encontro de um dos maiores insights da veterinária Daisy Vivian, após concluir seu livro:

– O animalzinho é um facilitador de relações sociais, sem dúvida. Mas sobretudo porque ele nos faz recordar de coisas importantes. Que tudo bem brincar. Que não tem problema parar e tirar um cochilo. Que não se deve trabalhar mais de oito horas porque nenhum outro animal trabalha mais do que isso. Costumam dizer por aí que estamos humanizando os animais. Na verdade é contrário. São eles que estão nos ensinando como deveríamos ser gente.

Lançamento na Feira do Livro

  • Cães e Gatos Sabem Ajudar seus Donos a Superar Conflitos e Encontrar Paz Interior
    (Ícone Editora, 2017)
  • 10/11 (sexta-feira), 16h30min – Praça de Autógrafos da Feira do Livro de Porto Alegre
  • À venda em livrarias e, na Feira, na barraca da Livraria Palmarinca
    (nº 71), R$ 35

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