Livro de jornalista comenta, com boas doses de sinceridade, como é chegar aos 40 anos

Divulgação/Editora AGE
Divulgação/Editora AGE

A letra da música Epitáfio, dos Titãs, embala a seleção de temas dos capítulos de 40 na Cabeça (Editora AGE, 96 páginas, R$ 29), da jornalista Magali Schmitt, 45 anos. Especialmente os versos que falam sobre “ter trabalhado menos” e “arriscado mais”.

Não que a obra trate somente de lamentações, pelo contrário. Mas, ao chegar aos 39 anos, nas vésperas da virada para os temidos “enta”, a gaúcha passou a se questionar sobre tudo o que fizera até então. Fechar quatro décadas de vida deixaria de ser apenas mais um aniversário: passaria a marcar “a metade do caminho”. “Porque depois dos 80 tudo vai ser lucro. E a sensação de vida passando é o primeiro sinal”, define Magali sobre a crise experimentada (e superada) por meio da escrita.

enfim40 magali-cabeca

A cobrança da sociedade que valoriza a juventude, o mercado de trabalho competitivo (que a impedia de saber se fazia chuva ou sol lá fora enquanto cumpria horário no escritório) e a eterna falta de tempo para tudo gera um sentimento desconfortável: a culpa. Culpa por não dar atenção aos filhos, ao marido, à vida pessoal. “Cheguei à metade do caminho e ainda não li um terço dos livros que desejo, não assisti aos filmes que pretendo, não viajei o suficiente, não adquiri conhecimento suficiente. Não isso, não aquilo. Neste tranco, lá pelos 75 terei tempo”, desabafa.

Leia também
:: “Enfim, 30″: Com humor, livro traz um manual de como não entrar na crise dos 30 anos

No meio da caminhada de autodescoberta, seus medos e suas inquietações crescem: “Tenho que ser boa profissional, bonita, magra, inteligente, bem-humorada”. Até que de repente, essa soma de emoções atinge um estágio de aceitação. Magali larga um belo “f***-se” e deixa de carregar o piano, em suas próprias palavras, e que outras pessoas, em diferentes fases da vida, segurem o peso. “Trata-se apenas de um número besta, que tem o poder demoníaco de endoidar as pessoas. Pena que só se descobre isso depois da festa.” E então a frase final de Epitáfio, “ter feito o que eu queria fazer”, poderá ser colocada em prática.

 Entrevista

Qual o principal drama da crise dos 40?
Magali Schmitt – É dar-se conta de que a vida está passando e, com ela, nossos sonhos. No afã de correr atrás, vamos deixando coisas importantes de lado. Amigos, convivência com os pais, momentos com os filhos, leituras, amores, tempo só para nós. E, de repente, 40! É difícil não se cobrar e reavaliar.

O que é esperado de uma mulher de 40 pela sociedade?
Magali – A juventude é valorizada como um todo, independentemente do gênero. E assim, inconscientemente, acabamos também por nos cobrar, seja pela aparência ou capacidade. Queremos de volta a década que passou. Afinal, continuamos jovens, somos mais maduras e experientes, estamos bem resolvidas na vida amorosa. Mas não temos mais 30. E é impossível competir igualmente quando há uma cultura de reconhecimento aos mais novos.

O que você mesma se cobra ao chegar aos 40?
Magali – Eu me cobro por ter perdido coisas valiosas como a convivência familiar. Me cobro por ter entrado na ciranda sem me dar conta e só ter saído quando já havia danos. No corre-corre, não levantamos a cabeça para olhar por cima da cabeça dos que estão conosco na batalha e enxergar além. E a visão de cima é espetacular e reveladora.

O que é ser bem-sucedida aos 40?
Magali – É ser feliz em todos os aspectos da vida. É viver com qualidade, conhecer-se. Não é possível anular uma parte sua para ser feliz.

Quais são as autossabotagens e os medos mais frequentes aos 40 ?
Magali – Ficar falando a idade, como se isso fosse um estigma, para mim é a principal autossabotagem. Não queremos ser as “tias quarentonas”, mas ao mesmo tempo ficamos lembrando tanto os outros quanto a nós mesmas de que temos 40. É como um rótulo estampado na testa.

Nunca imaginei que quando chegasse aos 40 eu…
Magali – Estaria falando tão abertamente em público sobre meus sentimentos. Mas isso, creio, é resultado do amadurecimento.

Qual conselho você daria para a Magali de 30 anos?
Magali – Aos 30 estamos num momento de conquistas. Comprar apartamento, pensando no primeiro filho, no mestrado, em viajar e trocar de carro. É hora de se firmar na vida profissional e financeira. E não há problema algum nisso, desde que os 40 não nos cobrem as escolhas da década que passou. Por isso, aconselharia a Magali de 30 a harmonizar, a pensar mais no ser, não apenas no ter.

O que é…

Saúde aos 40
“Exercício e alimentação saudável já integram o meu dia a dia. O negócio é manter a mente também em sintonia. Se meus filhos seguirem meus passos, serei avó depois dos 70. E vocês acham que vou perder isso? Por nada neste mundo! Quero andar de bicicleta com meus netos!”

Beleza aos 40
“Posso acordar hoje e não me maquiar, não escovar o cabelo, não perder duas horas me arrumando? Posso parar de gastar fortunas em sapatos, em acessórios, perfumes, tratamentos para o cabelo? Quero me livrar desta guerra da beleza, desta competição acirrada para ver quem vai trabalhar mais bonita.”

Carreira aos 40
“É um fato duro. A vida está passando e eu aqui, gastando o horário nobre do meu dia no trabalho. Vou passar, pelo menos, uns bons 40 anos (outros!) canalizando minha produtividade para alguém. E eu? Será que não há um jeito de fazer algo em meio-turno, ganhar algum dinheiro e ter tempo para mim e os que amo?”

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna