Movimento “Vamos Juntas?” vira livro com depoimentos sobre assédio e lições de sororidade

Foto: Yago Barbosa, Divulgação
Foto: Yago Barbosa, Divulgação

No trajeto de ônibus em Porto Alegre quem acompanhava Babi Souza naquela sexta-feira à noite era uma passageira nada agradável: a insegurança. Mas a jornalista se deu conta de que não estava só. Aquelas jovens e senhoras com quem compartilhava a viagem dividiam também o medo de percorrer sozinhas as ruas escuras da Capital. Então veio o insight do que seria o movimento Vamos Juntas?.

vamosjuntaslivroA ideia virou uma página no Facebook em julho de 2015. A primeira proposta era simples: sugeria que mulheres convidassem umas às outras para transitar pela cidade. Em menos de 24 horas, atingiu 5 mil curtidas. Duas semanas depois, já alcançava 100 mil seguidoras e se abriu a outros exemplos envolvendo três palavras-chave: sororidade, empoderamento e feminismo. O livro Vamos Juntas? – O Guia da Sororidade Para Todas (Editora Galera/Record, 144 páginas, R$ 34,90) surgiu da necessidade de explicar esses conceitos, propor soluções e difundir os depoimentos mais bacanas coletados na página.

 

Entrevista!

Donna – No livro, você traz três palavras como guia: sororidade, empoderamento e feminismo. Como esses três conceitos se refletem na vida da mulher, na sua opinião?
Babi – Ter sororidade com a mulher que está ao lado é empoderá-la. E no momento que empoderamos a mulher que está à nossa volta, empoderamos a nós mesmas. Empoderando as mulheres a nossa volta buscamos um mundo mais igualitário, e isso é ser feminista. Sororidade não é amar todas as mulheres, mas é não odiar as mulheres pelo fato de elas serem mulheres. A rivalidade entre nós é naturalizada. Desde a infância a gente ouve discursos que fortificam a ideia de que as mulheres não têm capacidade de ser irmãs, assim como os homens têm de ser fraternos. “Mulher não é amiga de mulher”, “Mulher só dá resteira em mulher”, “Toda mulher tem uma rival”, frases como essas a gente só ouve quando o sujeito é uma mulher. Em vez de irmos nos empoderando e, juntas, vencendo barreiras sexistas, a gente se boicota. O mercado de trabalho é um bom exemplo. Homens não querem mulheres acima deles, e mulheres também não. Mas, quanto mais mulheres no poder, mais fácil de estarmos no poder será. Ter sororidade não é utopia, não é mimimi. Não vamos conseguir uma sociedade menos machista se estivermos perdendo tempo brigando entre a gente.

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Donna – Como você lida quando uma menina pede ajuda pela página?
Babi – Recebo mais de 100 mensagens por dia, e a grande maioria é uma espécie de pedido de socorro. É bem intenso e bem difícil. Posso dizer que agora que estou começando a lidar melhor com isso. No início sentia uma carga emocional muito grande. Mas eram justamente esses pedidos de ajuda que não me deixavam desistir do movimento.

Donna – Ao que você atribui o sucesso do Vamos Juntas?
Babi – Creio que três pontos ajudaram. O movimento não foi criado em uma sala, na frente de um computador, ele simplesmente aconteceu. Tive a ideia na rua, com medo, e acho que isso trouxe muita verdade para ele. O Vamos Juntas? também sugere uma solução. Pessoas dizendo que ser mulher é muito ruim vemos todos os dias, mas soluções são poucas, e o movimento traz uma sensação de esperança. E também tem o fato de que a página é muito positiva. Apesar de tratar de um assunto muito tenso que é a violência de gênero, faço um filtro bastante tendencioso quando escolho aquelas histórias que possam trazer uma atitude e uma sensação boa para as apoiadoras. Quero que cada mulher que entre em contato com a página se sinta melhor do que antes. A internet está sedenta dessa sensação de esperança.

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Donna – O movimento já tem oito meses de existência. Como você avalia esse período?
Babi – Acho que nesse período o Vamos Juntas? se transformou e se ramificou em muitas coisas. O livro e o app que estamos criando são provas disso. Mas é engraçado ver que todos os dias têm centenas de mulheres que conhecem o movimento. Acho que ele ainda tem de atingir muita gente. É interessante também o fato de que nesse tempo o movimento rompeu a barreira nacional e já foi pauta em diversos portais e jornais do Exterior, como The Guardian, por exemplo. Há pouco mais de um mês criamos também a segunda página oficial do movimento, o Vamos Juntas? Argentina e, com ela, muitas mulheres de diversos países como Uruguai, Paraguai, México e Costa Rica entraram em contato conosco, querendo criar páginas oficiais. Por enquanto temos grupos para esses países, mas quero muito poder expandir para outros
países em forma de página também.

Donna – Como avalia o poder das redes sociais para ampliar o alcance de projetos como o seu?
Babi – As redes sociais têm um fator muito determinante que é a barreira da tela, a segurança e o anonimato que elas proporcionam. Isso é verdade quando a gente fala sobre os ataques que recebo diariamente, mas também é uma verdade quando a gente pensa que centenas de mulheres só conseguem desabafar e pedir ajuda por saber que ali, do outro lado, está alguém que não as conhece pessoalmente. Diversas mulheres chegam a criar perfis falsos para poder desabafar por mensagem. Acho que um exemplo bacana nesse sentido é a história de uma menina que contou ter sido estuprada aos 15 anos. Ela tinha 20 anos e há cinco guardava esse segredo. Conversamos muito e tive a ideia de pedir na página para que as meninas enviassem palavras de apoio pra ela. Ela recebeu mais de 400 mensagens de mulheres que diziam que a culpa não era dela e que ela não estava sozinha. Até a melhor amiga dela enviou mensagem pra ela sem saber que era ela. Esse apoio a ajudou demais. Ela, depois disso, procurou ajuda psicológica, e hoje seu namorado já sabe do ocorrido. Em que outro ambiente que não na internet ela teria o apoio de mais de 400 mulheres sem sequer se identificar?

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