Mães do milênio! O que muda na vida da mamães Geração Y e de seus filhos

(Diego Vara)
(Diego Vara)

Caue Fonseca, especial

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Da sala de casa, a mãe de primeira viagem compartilha um dilema. O pediatra aconselhara introduzir suquinhos na dieta da filha de sete meses. Já o doutor Google, sempre consultado ao menos para uma segunda opinião, não concorda de todo. Diversos sites e fóruns recomendam frutas na dieta infantil apenas in natura. Confusa, ela pede a opinião do Clube de Mães um grupo secreto no Facebook composto por mais de 6 mil mães e gestantes de Porto Alegre. E vêm os comentários:

“Imagina! Suco enche a criança e não alimenta. Só causa diarreia e gases. Está comprovadíssimo!”

“Criei meus dois filhos com suquinhos desde bebês e isso foi fundamental para que eles não bebam refrigerante até hoje.”

“Está claro: mães que PESQUISAM SOBRE O ASSUNTO dão frutas in natura. Mães IGNORANTES E DESINFORMADAS dão suco!!!!”

Pesa o clima. Entre ofensas em letras maiúsculas, links para reportagens explicativas e emojis de deixa-disso, o post se aproxima dos 300 comentários. A psicóloga Tanise Bernardes suspira. Como uma das moderadoras do grupo, cabe a ela intervir. Primeiramente, a mãe que xingou as demais é aconselhada por mensagem privada a editar o comentário. O “xixi da moderação” deixa a mãe briguenta ainda mais revoltada. O episódio termina com a exclusão da integrante do grupo.

– Considerando que são mais de 50 postagens por dia, chegar a esse ponto é um tanto raro. Mas acontece. São muitos hormônios envolvidos – brinca Tanise, mãe da Helena, de três anos.

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A crise do suco reflete uma porção de aspectos detectados pela revista norte-americana Time em uma pesquisa comparando os pais da Geração Y aos das duas gerações anteriores (ver quadro na página 15). A relembrar: compõem a Geração Y os chamados millennials. Jovens já não tão jovens nascidos entre as décadas de 1980 e 1990, eles fazem parte da primeira geração a encarar com naturalidade o impacto da internet no terceiro milênio. O que para os mais velhos foi uma revolução, para os millennials é simplesmente a vida. O que muda quando esta geração ganha a responsabilidade de criar os primeiros herdeiros?

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(Diego Vara/Agência RBS) Vanessa Torres as alegrias e os dilemas da maternidade compartilhadas nas redes sociais. Troca experiências com outras mães e começa a ter cuidado com as fotos do filho Bernardo

Em primeiro lugar, nunca a opinião alheia esteve tão presente na vida de uma mãe. Criar um filho, hoje, se aproxima à experiência de participar de um fórum público com muitos palpites e poucas certezas. Em outros aspectos, a Geração Y desenha um inusitado retorno aos clássicos. Há décadas, por exemplo, que a opção por ser “do lar” não fazia tanto sentido. Mas, antes de mais nada, o suquinho.

De olho no prato (até dos outros)

Nem toda discussão sobre o assunto descamba para uma polêmica incendiária como no episódio do suquinho mencionado no início desta reportagem, mas é unanimidade entre mães, pediatras e educadoras que os bebês de hoje terão a seu favor um exército de mães mais preocupadas com a alimentação dos seus rebentos. Dos seus e dos dos outros, diga-se. Segundo a Time, 30% dos pais millennials se preocupam com o julgamento dos outros pais sobre a alimentação dos seus filhos. É quase o dobro da geração passada (17%) e o triplo da anterior (10%).

Nesse caso, o percentual aponta não para uma mudança lenta e gradual como as típicas viradas geracionais, mas para uma guinada tão brusca quanto urgente, especialmente no Brasil. Segundo dados de 2015 do Ministério da Saúde, um em cada três brasileirinhos entre cinco e nove anos está acima do peso.

– Com a obesidade infantil atingindo o status de epidemia, chegamos ao ponto em que ou mudava ou mudava – declara a nutricionista carioca Gabriela Kapim, mãe de dois filhos “que se alimentam muito bem, obrigada”.

(GNT, divulgação) Os pais millennials se preocupam muito com a alimentação dos filhos. Assim, não falta mercado para consultores como a nutricionista Gabriela Kapim

(GNT, divulgação) Os pais millennials se preocupam muito com a alimentação dos filhos. Assim, não falta mercado para consultores como a nutricionista Gabriela Kapim

Gabriela é um reflexo midiático desta virada. Recém-formada e sem grana para montar um consultório, ela se propôs a visitar famílias incomodadas com a má alimentação das crianças. O formato de entrar na casa das pessoas, revirar armários e apontar maus hábitos deu tão certo que virou programa de TV. Socorro! Meu Filho Come Mal está na terceira temporada no canal por assinatura GNT.

Mas, se fosse fácil, não seria um bom programa. Se de um lado há pais mais preocupados e informados, de outro há filhos mais resistentes, dispostos a lutar com unhas e dentes pelo direito à bolacha recheada de cada dia. Também coisa da geração.

– Hoje a criança retruca, faz birra. Se distrai com o celular no meio da refeição. Sai da mesa. Nessas horas, os pais precisam de autoridade. Se a criança é cheia de vontades e argumentos, ela pode escolher o que quer comer de verde, por exemplo, mas não tem essa de “não como” – aponta Gabriela.

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Informação e improviso

É nas mães que reside o otimismo da pediatra Lucia Diehl não só em relação à alimentação, mas sobre qualquer assunto em que a enxurrada de informação vinda da internet é positiva. Uma das diretoras da Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul e profissional há 29 anos, Lucia não tem saudade alguma das mães da Geração X, aquelas mulheres independentes que saíram de casa por volta da década 1980 para conquistar o mundo, mas um belo dia engravidaram. Aí se viram em licença-maternidade com uma misteriosa máquina de chorar e preencher fraldas.

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– Nossa, me recordo que era a época do bipe. O meu era infernal. O telefone de casa, idem. Para eu comer, só tirando do gancho. Hoje, embora isso às vezes leve a diagnósticos equivocados, as mães já chegam ao consultório com uma pesquisa feita e uma noção bem mais clara da gravidade dos problemas – avalia a pediatra.

Outras impressões do consultório de Lucia se confirmam na pesquisa norte-americana. Segundo o levantamento, 42% dos entrevistados dessa geração consideram “extremamente importante” estar casado para ter filhos. Ainda é um bocado de gente, mas é o índice mais baixo da história, contra 49% da geração passada e 51% da anterior.

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– As mulheres parecem ter se dado conta de que, se forem esperar para o momento em que estiverem em um relacionamento perfeito, com tempo disponível e um salário confortável, elas não terão filhos nunca. Então, se o plano é tê-los, elas têm de uma vez enquanto são jovens e têm pique. Os problemas se resolvem pelo caminho – constata a pediatra.

Tudo isso com aliados importantes a menos. Lembra o tempo em que os avós mal terminavam de criar os filhos e já estava quase na hora de ser babá dos netos? Pois trata-se de uma lembrança cada vez mais remota. Uma das diferenças entre a Geração Y e a passada é que os avós já não se fazem tão presentes no dia a dia das crianças. Não necessariamente por vontade própria.

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– Se uma mulher de 30 anos tem filho hoje, é provável que a mãe dela tenha em torno de 60 anos. Uma mulher dessa idade é muito mais ativa que uma mulher de 60 anos das décadas passadas, e provavelmente ainda está inserida no mercado de trabalho. Elas bem que gostariam de estar mais próximas dos netos, mas precisam se virar – declara Lucia.

A ausência dos avós é apenas um dos percalços familiares cada vez mais comuns. Problemas que em outros tempos seriam tabus, como pais se separarem ou perderem o emprego, são encarados por essa geração com certa naturalidade. Inclusive pelos filhos. Há uma importante virada de valores aí. Mas, sem avós por perto e com os pais em relacionamentos e empregos menos estáveis, sobra para alguém: nesse caso, para a tia da escolinha.

Novos desenhos de família

Além do tempo chuvoso, ainda é “dia do brinquedo”. Ou seja, o fim de tarde na escolinha Sementinha de Vida, na Capital, está virado em um alegre gritedo do qual a diretora Simone Rosa Nobre se refugia para conceder entrevista. As profes Camila Brasil Preto e Sandra Alves de Souza se revezam para fazer colocações e tomar conta dos pitocos.

– Ih, aquele modelo de família tradicional. Aquele quebrou mesmo. A boa notícia é que as crianças, hoje, tiram de letra. Deixou de ser um trauma para elas, até porque a coleguinha ao lado provavelmente já passou por algo semelhante – declara Simone.

Entre as dezenas de pais da escolinha no bairro Menino Deus, Simone perdeu a conta de quantos tiveram os filhos solteiros, quantos se separaram, quantos têm filhos de casamentos diferentes… E sob os escombros do modelo clássico “papai + mamãe = filhos” ficou o preconceito aos alternativos.

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Uma pesquisa da PUCRS divulgada no início do mês com millennials brasileiros trouxe números de fazer o deputado Eduardo Cunha chorar de desgosto. Embora 88,1% dos entrevistados considerem o conceito de família muito importante, 61,5% declararam não se incomodar com modelo algum. Sobre as definições de figuras materna e paterna, somando os que responderam que ambos os sexos podem desempenhá-las ou que uma pessoa pode representar ambas, os números chegam a 79,1%. Ou seja, alheia aos sinais de fumaça do Congresso Nacional, a cada novo parto se consolida a família brasileira menos convencional da história.

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O papel da escolinha

Independentemente do modelo de família, crianças demandam atenção. Na falta de tempo de convivência, os pais da Geração Y passaram a eleger as escolinhas como embaixadoras dos valores que desejariam passar mais de perto. Na Sementinha de Vida, por exemplo, Simone observa a súbita popularidade de pontos que sempre preocuparam a escola, mas nem tanto os pais de outrora. Além da alimentação, a diretora destaca o veto aos eletrônicos e o método montessoriano, que adapta os ambientes ao tamanho das crianças e estimula a responsabilidade delas nas tarefas do dia a dia.

– Os pais ficam tranquilos, dizem “ai, que bom que vocês estimulam isso”. O ponto negativo é que alguns chegam em casa e, como não querem se estressar com os filhos no pouco tempo com eles, fazem todas as vontades. Ou seja, acabam “terceirizando” a educação toda pra gente – brinca a diretora.

E, ao falar sobre as vontades dos filhos, é impossível não citar um aparelhinho mágico chamado telefone celular.

Hipnose e hipercompartilhamento

A auxiliar de enfermagem Paula Nunes não nega. Em casa, sozinha com Maria Júlia, de dois anos, ela muitas vezes recorria ao celular para distrair a filha e executar alguma tarefa. Só assim para ela parar de sacudir as trancinhas coloridas correndo pela casa. O hábito cessou após o alerta do oftalmologista de que as crianças tendem a trazer a telinha para perto do rosto, e isso pode causar problemas de visão.

– Desinstalei os aplicativos infantis do telefone, mas precisa ver! Com dois anos ela desbloqueia o meu celular e ainda procura os joguinhos – conta Paula.

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(Diego Vara/Agência RBS) Paula Nunes tenta restringir o tempo em que a filha fica conectada depois de um alerta do oftalmologista

Não apenas os oftalmologistas torcem o nariz para o celular e seus efeitos quase hipnóticos. Embora o fenômeno seja recente demais para maiores conclusões, educadores e psicanalistas alertam para o risco dos celulares e tablets na primeira infância. O aparelho oferece recompensas muito espetaculares com pouco esforço, o que pode ser prejudicial na fase da vida em que a criança recebe os primeiros aprendizados sobre as consequências das suas ações. Melhor manter o celular só para as selfies fofas mesmo. Ou nem isso.

– Eu gosto de postar fotos dela. Mas dá margem para os palpiteiros, sim. Já recebi até mensagem das tias para colocar um casaco na Júlia assim que publiquei uma foto no Facebook – diverte-se Paula.

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Há problemas mais sérios. Vanessa Torres, por exemplo, decidiu não postar mais fotos públicas de Bernardo, de um ano. Ela se assustou ao descobrir imagens do seu bebê engatinhando por perfis falsos no Facebook, sabe-se lá com que intenções. Desde então, a mãe resolveu resistir ao sorriso fácil e aos olhinhos azuis de Bernardo e maneirar nos retratos, além de restringir os álbuns aos familiares mais chegados.

Além do mau uso das fotos, há toda uma discussão sobre a privacidade dos bebês. Quem disse que as crianças vão querer chegar à adolescência com a vida inteira retratada em público por terceiros? Por ora, eles não têm muita opção. Segundo a pesquisa da Time, apenas 19% dos pais da Geração Y nunca postaram uma foto dos filhos nas redes sociais.

Por uma vida mais lúdica

Professora na escola Sementinha de Vida, Camila é também recreacionista em festas infantis aos finais de semana. Observar as crianças de hoje brincando leva a conclusões curiosas:

– São crianças capazes de editar um vídeo no tablet, mas não sabem pular corda.

Frustração semelhante tinha Andressa Gabriele em relação à filha Clarissa, de nove anos. Embora a mãe morasse a metros da Redenção, no bairro Santana, a menina não sabia andar de bicicleta. Especialmente depois da chegada de Benjamin, dois anos, Andressa não se sentia segura e tampouco tinha tempo para frequentar o parque e vigiar duas crianças. Em fevereiro passado, após uma temporada na Praia do Rosa, em Imbituba (SC), ela e o marido resolveram largar os empregos, colocar o apartamento em Porto Alegre para alugar e se mudar de mala e cuia para a praia. Bem a tempo de descobrir que o terceiro filho estava a caminho. À beira-mar, Noah está prestes a completar o primeiro mês de vida.

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(Guto Kuerten/Agência RBS) Andressa Gabriele e o marido resolveram morar na Praia do Rosa para dar uma infância mais tranquila aos três filhos

– As pessoas ainda têm dificuldade de entender a minha opção. Mas, poxa vida, eu não conheço uma supermulher. E é a primeira vez que eu vejo a minha filha mais velha brincando, cercada de amigos – pondera a mãe, uma feliz e realizada dona de casa.

Lucas Grundling, o pai, rapidamente encontrou um emprego – primeiro como cozinheiro e hoje como gerente de um restaurante. Mas é cada vez menos raro que o pai seja o dono de casa, em vez da mãe. Quem vai ficar em casa é circunstancial. Não raro, a opção por um dos pais passar o dia tomando conta dos filhos é a mais em conta. Isso graças ao preço salgado da educação infantil e às maiores possibilidades de manter a renda via home office nos dias de hoje. Segundo a Time, 23,2% dos pais da Geração Y ficam em casa, um crescimento significativo frente aos 16% da geração passada e maior até que no tempo dos seus avós, quando o índice era de 22%.

Pesa na conta, também, Andressa ter sido criança na geração passada, quando a moda era os filhos serem tão ocupados quanto os pais. Escola, inglês, judô, natação, violão e, quem sabe, uma manhã livre para brincar. Ao buscar uma infância mais lúdica para os filhos, pais como ela compensam um pouco do que não tiveram.

– É evidente que sinto falta da convivência com amigos, mas até nisso a internet facilita. Neste primeiro momento, cultivo mais amizades por ali do que pessoalmente, e estou mais próxima da minha família.

E vida que segue, batendo papo com as outras mamães de Porto Alegre e postando cada dia mais fotos do pequeno Noah.

– Mas nunca de chupeta, porque me enchem o saco.

Compreende-se.

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