Organizadora de vidas: Micaela Góes fala sobre sucesso após o programa “Santa Ajuda”

Foto: Alexandre Campbell, divulgação
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Conforme conta a própria Micaela Góes, as palavras do título desta reportagem não são dela. Tampouco de Donna. Quem cunhou o termo “organizadora de vidas” foi Camila Pitanga, a amiga de longa data, dos tempos em que ambas eram estudantes de artes cênicas. Foi a amiga a primeira a recomendar que a atriz transformasse seu dom e gosto por organizar vidas alheias em ganha-pão. A trajetória do programa apresentado por Micaela no canal a cabo GNT é exemplo de como sua carreira como organizadora profissional e apresentadora cresceu desde então. Em 2011, quando estreou, o Santa Ajuda era quase uma vinheta: uma atração de 15 minutos. Logo dobrou de tamanho e entrou na grade fixa. Há duas temporadas, novamente dobrou de duração.

– As pessoas começaram a pedir nas redes, dizendo que estava curto, que era pouco, que queriam acompanhar mais tempo o processo de organização. O canal me consultou, se eu achava que rendia, e resolvemos experimentar um programa de uma hora – conta Micaela, que bolou novos quadros dentro da proposta de conciliar um programa sobre organização pessoal com boas histórias, humor e fazendo relações entre uma vida organizada e bem-estar.

Fora do ar, Micaela também se tornou grife. Somente neste ano, lançou o livro Santa Ajuda com Micaela Góes (Editora Globo Estilo, 2017) com as dicas mais bacanas do programa cômodo a cômodo (confira algumas delas espalhadas nas páginas a seguir) e assinou uma linha de móveis na loja online Meu Móvel de Madeira em parceria com designers do Estúdio Baobá. De passagem por Porto Alegre para o lançamento do livro e para uma aula especial de organização pessoal na Perestroika, realizada no final de setembro, a apresentadora conversou com Donna sobre bagunça, organização e felicidade. Confira os principais trechos da conversa.

Foto: Alexandre Campbell, divulgação

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Recentemente houve um boom de publicações sobre os benefícios da organização pessoal. Como é ver o meio em que você trabalha há tanto tempo virar uma febre?

Lá fora essa profissão já é superinstitucionalizada, em termos de produtos, congressos, eventos, associações. Quando comecei nesse universo de organização, há mais ou menos uns 10 anos, a gente mal conseguia encontrar cabide e caixa. Eu ainda tinha de me explicar muito: o que fazia, qual era minha proposta de trabalho, como poderia ajudar a facilitar a vida da pessoa e coisa e tal. Hoje em dia, vejo que existe um mercado em formação aqui no Brasil, e acho que o Santa Ajuda teve um papel importante, no sentido de apresentar essa profissão, esse universo da organização como um benefício para a vida, uma coisa leve, solta, sem ser um sacrifício. Eu, na verdade, já trabalhava com isso antes do programa. Já tinha a minha empresa, já trabalhava, já fazia mudanças e organizações residenciais há algum tempo. Essa é uma característica bacana do canal. Todos os apresentadores são especialistas nas suas áreas, não são só meros apresentadores.

Teve um dedo da sua amiga Camila Pitanga nesse início, não? Nos conta como foi essa história.

Sim, foi a minha comadre Camila quem escreveu o prefácio do meu livro. Nós fomos colegas de faculdade e somos muito amigas. Descobri que a organização, que era uma coisa natural para mim, poderia ser um serviço quando ela me convidou para arrumar a casa dela. Depois que eu terminei de arrumar tudo, ela falou: “Você tem que fazer isso.” Respondi: “Mas isso o quê, Camila?.” E ela falou: “Você tem que fazer isso profissionalmente. Você organiza vidas”. A partir dali, eu comecei a estudar, ler, procurar saber. Porque, na realidade, naquele tempo nem tinha curso de formação, nada disso.

Por que será? Será que o brasileiro convive melhor com a sua bagunça? São pessoas mais bagunceiras ou particularmente mais desorganizadas em algum sentido?

Uma diferença entre Brasil e Estados Unidos é que as pessoas lá se tornam acumuladoras por ter muito acesso a crédito, à compra, pela facilidade de ter. No Brasil, não é uma regra, mas existe mais o medo de não ter. Por ter esse medo de faltar, a pessoa acumula, guarda, não consegue se desfazer de nada. Mas é difícil de responder a essa pergunta. Bem como responder, por exemplo, quem é mais desorganizado, o homem ou a mulher. O que eu percebo é que a desorganização não tem a ver com o gênero, não tem a ver com idade e não deve ter muito a ver com nacionalidade também. Tampouco tem a ver com classe social. Você pode ver um morador de rua extremamente organizado e um milionário extremamente desorganizado, uma criança organizada filha de uma família bagunceira. Então, minha aposta é que algumas pessoas têm uma pré-disposição e ou uma melhor percepção do quanto isso facilita sua vida.

Foto: Alexandre Campbell, divulgação

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Você acredita que esse boom do tema pode ter a ver com o sucesso dessa associação entre organização e bem-estar? Porque essa sempre foi a pegada do programa, não foi?

É, exatamente. A minha missão, o meu esforço, é fazer com que a organização seja uma coisa fluida, leve e que te traga benefícios imediatos. Acho que a organização devia fazer parte da educação infantil, devia ser ensinada na escola. Você deveria ter princípios de organização enraizados na sua formação, como a gente tem tantos outros, como hábitos alimentares, de higiene pessoal. Organização é um hábito, como fazer três refeições por dia, assim como escovar os dentes depois das refeições. Deveria ser cultivado desde a sua formação escolar porque isso vai ajudar a criança a ser um estudante mais eficiente, um profissional mais eficiente no sentido de conseguir administrar o seu tempo e as suas tarefas.

Há lógicas da organização da casa que a gente pode levar para outros aspectos da vida?

Na verdade, uma coisa puxa a outra. Vejo a organização como uma ferramenta de facilitação do dia a dia. A gente já tem muitas demandas para gastar tempo procurando coisa. Isso se reflete em diversos outros aspectos além da casa, porque aí você ganha tempo, ganha positividade, desperdiça menos, tem uma engrenagem mais funcional. E isso se reflete em tudo, da engrenagem doméstica propriamente dita às estruturas de família. Você muda a pulsação da casa quando a organiza. Falo brincando, mas nem é tão brincadeira assim, que organização é saúde, é qualidade de vida, porque reduz o estresse com coisas desnecessárias.

Esse discurso se aproxima do que diz outra guru da organização que recentemente fez sucesso no Brasil, a japonesa Marie Kondo, autora de A Mágica da Organização. Qual é a sua opinião sobre ela? 

Acho que ela tem ensinamentos valiosos, embora mais direcionados àquele estilo de vida minimalista oriental. Aquilo que ela propõe, de pegar cada peça nas mãos e se perguntar se ela te faz feliz, é parecido com o que fazemos no início do Santa Ajuda, naquela fase de selecionar item por item o que vai ser mantido, doado ou descartado nos cestos coloridos. O que me incomoda um pouco é o nome “a mágica da organização”. A mágica à que ela se refere é a sensação de liberdade depois que você consegue dominar a bagunça, mas não existe mágica no processo. Existe suor, ralação, entrega, dedicação, entendeu? Não existe a feiticeira que torce o nariz e resolve tudo. O envolvimento é que é a mágica. Essa é a exata diferença entre arrumar um ambiente e organizar um ambiente. Arrumar é encontrar lugar. Organizar é pensar na lógica da coisa. No porquê de cada objeto estar em cada lugar.

Sempre me pergunto se aquelas casas não voltam a ficar bagunçadas depois do programa…

Sabe que me perguntam muito isso? (risos) A gente custou muito a encontrar o formato de hoje, em que a pessoa se envolve na organização desde o início do processo, porque acho isso determinante na manutenção futura. Além de perceber o absurdo do ponto a que chegou, a pessoa precisa colocar a mão na massa, se envolver, suar, ralar, olhar pra cada coisa, pensar se precisa manter aquilo, se não precisa. Eu percebo quem vai manter a organização nessa hora. Se a pessoa não se envolve nessa hora, é sinal de que não vai rolar, que ela não vai manter.

E a Micaela, também tem uma mania de bagunça?

Claro, eu sou uma pessoa normal. Tenho momentos em que a minha mesa de trabalho fica cheia de papel acumulado pra arquivar, que as demandas se acumulam, e eu deixo para quando tiver mais tempo… Não sou perfeita. Mas faço um bilhão de coisas ao mesmo tempo, então me esforço muito pra manter a vida em ordem, porque percebo que só é possível dar conta com organização. Eu vivo exatamente o que eu prego. Algumas pessoas acham que sou a louca da organização. A obsessão por isso é um defeito, e a obsessão pela bagunça também. Os extremos não fazem bem pra ninguém.

Os bagunceiros são todos iguais ou também se diferenciam entre si? 

Eu tenho me interessado por isso! Comecei a fazer um pequeno estudo sobre esses tipos de bagunceiros. Tem o acumulador de oferta, que fica viciado em encarte de supermercado que sai correndo. Tem o acumulador tecnológico: aquele que saiu a nova versão do telefone e o cara sai correndo pra comprar, e aí vai fazendo coleção daqueles equipamentos antigos que ainda funcionam mas que já foram substituídos pelos novos. Tem o desorganizado digital, que tem todas as fotos de todas as viagens, mas não consegue achar um arquivo, uma foto, nada, porque é tudo sem critério nenhum de organização no computador. Tem o desorganizado sentimental: aquele que guarda os desenhos da criança desde o primeiro ano de vida, mesmo quando a criança já está casada e ele já é avô, aí passa a guardar os desenhos dos netos. Tem o desorganizado emocional: o que guarda toda a bagunça dentro do armário, fecha a porta e vai embora. Então, tem vários tipos…

Daria outro livro…

Está aí, ó! Um perfil psicológico de cada um deles. (risos) Vai ser meu próximo livro!

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