Milhões de crianças e adolescentes são vítimas de mutilação genital feminina no mundo inteiro

Foto: AFP
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Esclarecimento
* Na versão impressa da revista Donna de 31 de janeiro de 2016, a edição desta reportagem não estava clara no trecho sobre a luta contra a medicalização da mutilação genital feminina. O texto abaixo está ampliado.

O tema é tão delicado e de difícil solução que foi priorizado com data especial para motivar uma reflexão: 6 de fevereiro é marcado como o Dia Internacional de Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina, decreto da Organização das Nações Unidas (ONU). Trata-se de uma tentativa de impedir a prática, que ainda persiste em 29 países, e que marca para sempre o corpo e a vida das mulheres. A mutilação consiste na retirada parcial ou total da parte externa dos órgãos genitais femininos. Estima-se que cerca de 125 milhões de meninas e mulheres vivam, hoje, as consequências da mutilação genital feminina: só na África, mais de 3 milhões de meninas devem passar pelo procedimento neste ano.

“Devemos lutar para preservar o melhor de cada cultura e deixar para trás o que não é bom. Não há nenhuma razão religiosa, de saúde ou de desenvolvimento para mutilar ou cortar qualquer mulher”, defendeu o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, em comunicado sobre o assunto, na passagem da data, no ano passado.

Infligida a crianças de cinco anos até adolescentes de 14, a mutilação é justificada por uma mistura de fatores culturais, religiosos e sociais. Quem sofre suas consequências físicas e emocionais são as mulheres que sobrevivem ao procedimento. Centenas morrem durante a prática, geralmente realizadas por alguém da comunidade em que vivem ou até mesmo um membro da família – muitas vezes a mãe, que também foi mutilada –, em situações sanitárias adversas. Instrumentos como facões são utilizados sem cuidados de esterilização, provocando hemorragia, tétano, retenção urinária e infecções. A longo prazo, as mulheres mutiladas podem sofrer problemas de saúde que vão da infecção urinária à infertilidade, passando por dor constante, incontinência e, caso consigam engravidar, complicações no parto.

As garotas podem apresentar distúrbios comportamentais. Quando adultas, passam a sofrer de ansiedade e depressão, relacionadas à disfunção sexual. Evidentemente, para além das questões de saúde física e mental, o costume viola os direitos humanos das mulheres.

Organizações como o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e o Fundo de População (UNFPA) trabalham em conjunto no programa global para erradicação do procedimento e alertam para o que chamam de medicalização – a realização dos procedimentos de mutilação por trabalhadores da área de saúde. Outras entidades, como a Confederação Internacional de Parteiras, a Federação Internacional de Ginecologia e Obstetras e o grupo Médicos Sem Fronteiras travam a mesma batalha contra a medicalização. De acordo com relatórios da Unicef, uma em cada cinco meninas é cortada por alguém treinado, o que não diminui os riscos pontuais e futuros para a saúde e a dignidade da mulher.

Tais esforços têm estimulado a conscientização das próprias mulheres, que já questionam a necessidade da mutilação: quebrar o silêncio e desconstruir mitos são os primeiros passos para eliminá-la. Mães mutiladas, que antes entregavam as filhas para seguir a tradição, começam a proteger as crianças. Soluções pontuais, como no Quênia – onde os mais velhos da comunidade Meru proibiram a prática e prometeram penalizar quem quebre a ordem –, representam esperança no cenário mundial.

Por Andréa Lopes, especial

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