Trans gaúcha lança livro e conta sua história em série do GNT

Amanda mantém um canal no YouTube e acaba de lançar um livro sobre sua história (Foto: GNT/Divulgação)
Amanda mantém um canal no YouTube e acaba de lançar um livro sobre sua história (Foto: GNT/Divulgação)

Rossana Silva, especial

Há apenas dois assuntos sobre os quais Amanda Guimarães Borges não estende a conversa: a idade e o nome de batismo. O primeiro, “porque o pessoal começa a tachar dizendo que não posso falar de certos assuntos”, e o segundo, porque nunca se sentiu representada pela denominação escrita na certidão de nascimento – e por isso se tornou Amanda. Sobre qualquer outra coisa, o papo flui com risadas, brincadeiras e carões. Desde que ligou uma webcam para contar ao mundo que é transexual, a gaúcha de Gravataí ganhou notoriedade virtual, com quase 18 milhões de visualizações no canal Mandy Candy, do YouTube.

De Hong Kong, onde vive, Amanda explica de maneira didática seu processo de transformação em uma mulher transexual, a exemplo do vídeo Como era ter um pênis e por que hoje tenho pepeca, assistido por 1,5 milhão de pessoas. Ela acaba de lançar o livro Meu nome é Amanda (editora Fábrica231) e foi a primeira personagem retratado na série documental Liberdade de gênero, que o GNT exibe desde quarta-feira (19), às 21h30min.

Quem acessa o canal Mandy Candy conhece uma Amanda espontânea, extrovertida e desenvolta, que dá detalhes de situações íntimas como transar pela primeira vez com a vagina construída em cirurgia, além de responder com humor às curiosidades dos seguidores. É a Amanda renascida na Tailândia, pós-cirurgia de redesignação sexual. Até decidir fazer o procedimento, havia levado uma vida de poucas
palavras e passava a maior parte do tempo dentro do quarto, na região metropolitana de Porto Alegre.

– Era complicado, pois não conseguia olhar no espelho e me enxergar, tentava evitar ao máximo passar em frente a coisas que refletiam minha imagem. Além disso, vivi durante muitos anos confusa de quem eu era, pois não conseguia me ver como um menino gay. Só de pensar que outra pessoa queria se relacionar comigo sendo homem eu já ficava em desespero – conta, por e-mail.

Amanda com a família (Foto: GNT/Divulgação)

Amanda com a família (Foto: GNT/Divulgação)

A transição que culminou na Amanda conhecida na internet foi possível graças ao total apoio da família, um diferencial que está longe de ser regra para a maioria das pessoas que sofrem de disforia de gênero (como é chamada pela medicina a inadequação ao sexo designado ao nascer). Desde criança, a mãe e os irmãos sempre notaram o comportamento associado ao gênero oposto. Era comum colocar uma calça na cabeça para fazer de conta que tinha cabelo comprido ou pegar emprestadas as roupas da irmã, Melissa. Partiu dela, aliás, um dos maiores gestos de apoio: doou metade do seu guarda-roupa para Amanda uma semana depois de ela contar à mãe sobre sua condição. No vídeo Minha filha é transexual e eu amo ela, Amanda pergunta à mãe o que ela sentiu quando lhe revelou sua condição.

– Eu já sabia, né? Tu tava preparando o terreno para me dar aquele “choque”, mas a gente já sabia, desde o início – disse Maria Teresa, entre declarações de amor a Amanda e incentivos para que os pais apoiem os filhos independentemente de sua orientação sexual ou de gênero.

Foi quando se mudou à China para trabalhar com exportação de roupas para o Brasil que a gaúcha conseguiu juntar dinheiro para fazer a operação na Tailândia. O país asiático tem alguns dos maiores especialistas neste tipo de procedimento. Depois de vários anos se vestindo e se assumindo como mulher, Amanda viu o corpo finalmente adaptado ao gênero com o qual sempre se identificou.

– Quando tiraram a sonda e me sentei no vaso pela primeira vez para fazer xixi, caí no choro. Foi o momento mais mágico da minha vida – relembra, no YouTube.

Aos 23 anos, finalmente podia desfrutar da liberdade de ser Amanda. E quis fazê-lo sem alardes. De volta à China, criou um canal sobre videogames para ocupar o tempo livre na internet. Corria tudo bem até a paz da nova vida ser quebrada por um comentário dizendo que ela parecia uma travesti. Assustada, chegou a pensar que jamais voltaria a publicar qualquer coisa na internet. Mas, pensando melhor,
resolveu fazer todo o contrário. Com o cabelo preso em um rabo de cavalo, vestindo regata branca e fones de ouvido cor de rosa, ligou a webcam e começou a contar sua história na rede pela primeira vez:

– Sei que depois disso, minha vida nunca vai ser igual (…) Meu nome é Armanda Guimarães Borges, tenho 26 anos, nasci no Rio Grande do Sul. Para muitos ignorantes eu sou uma aberração da natureza, e para outros eu sou um objeto sexual, um fetiche. Por quê? Porque eu sou uma mulher transexual. Sei que muitos de vocês devem estar surpreendidos ou chocados, porque sempre omiti essa informação,
por medo de como eu seria tratada e de perder os poucos amigos que eu tenho – afirmou, em vídeo publicado em fevereiro de 2015.

Os haters, como é de se imaginar, não tardaram a aparecer. O que ela não tinha previsto era que o séquito de admiradores seria maior do que o de críticos, monopolizando a caixa de comentários com mensagens de apoio e elogios: linda, destruidora, perfeita, deusa, arraso.

– Posso postar um vídeo falando sobre games ou seriados a que assisto que sempre vem alguém falar que sou uma abominação, que vou para o inferno ou que deveria me matar. Era complicado lidar com tudo isso, mas com o tempo fui vendo que o carinho e o apoio sempre foram muito maiores. Então me foco neles, nas mensagens de amor que recebo – conta.

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Em Hong Kong, para onde voltou há poucos dias, após uma temporada no Brasil, Amanda diz levar uma vida normal. Vive com o namorado e trabalha como garçonete durante o dia. À noite, quando há vagas, é barwoman em um bar LGBT.

– A única coisa diferente é que uso todo meu tempo livre na criação de vídeos em meu canal no YouTube. Sonho em futuramente trabalhar somente com isso – explica, comentando que já imagina o dia no qual a conta com 335 mil inscritos conquistará o 1 milhão de seguidores. – Acho que vou ter um minienfarto!

Enquanto aumenta o número de inscritos no canal, Amanda ajuda outros trans e seus familiares a entenderem o que estão vivenciando. Quem não tem pessoas próximas passando por essa situação aprende a compreendê-la e a exercitar a tolerância. São inúmeros os relatos de quem conseguiu se aceitar melhor depois de assistir a seus vídeos. As gravações não falam apenas sobre transexualidade. Há espaço para games, relacionamento e histórias engraçadas:

– O YouTube mudou minha vida e não penso em parar de produzir conteúdo lá tão cedo. Tirando a internet, sempre tive o sonho de ser atriz, estudei durante alguns anos na escola de atores para TV e cinema em Porto Alegre. Quem sabe eu volte. Hoje em dia, temos mais oportunidades do que há uns oito anos, né?

Liberdade de Gênero

A nova atração do GNT percorre cinco Estados brasileiros para mostrar histórias de vida de pessoas que não se identificam com o gênero do nascimento. Os 14 personagens contam suas experiências na trajetória de redescoberta de si mesmos e mostram força e coragem para se voltar contra um padrão normativo que os oprimia. Dirigida por João Jardim, a série documental tem 10 episódios e estreiou na quarta-feira (19), às 21h30min.

Diversidade na tela

Na TV

  • ESTAÇÃO PLURAL
    Segundas, às 22h, na TV Brasil
    A partir da ótica de três apresentadores (a cantora e compositora Ellen Oléria, que é lésbica, o jornalista Fernando Oliveira, o Fefito, gay, e a integrante da banda Uó Mel Gonçalves, transexual), uma pessoa é convidada para debater temas de interesse geral, contemplando assuntos do universo LGBT que despertam o interesse ou a curiosidade do público.

Na Netflix

  • TOMBOY (2011)
    A menina francesa Laure, 10 anos, ao mudar de casa, faz amizade com uma grande turma de garotos da vizinhança, e se apresenta-se a eles como Mikael.
  • TRANSAMÉRICA (2005)
    A produção americana conta a história da transexual Bree, que está prestes a fazer a cirurgia de redesignação sexual quando descobre ter um filho adolescente.
  • XXY (2007)
    O filme argentino conta a história de uma adolescente intersexual que, devido a uma mutação genética, apresenta características de ambos os sexos.

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