Mulheres cineastas se organizam para diminuir disparidades de gênero

(Hilary Swift/The New York Times)
(Hilary Swift/The New York Times)

Melena Ryzik, The New York Times

Foi o encontro de fim de ano de mulheres do Local 600, um sindicato de cineastas, que fez surgir a ideia. Reunidas em Nyack, Nova York, na casa de Ellen Kuras, indicada para o Oscar que filmou “O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, as diretoras de fotografia, assistentes e operadoras de câmera trocaram histórias sobre o mercado – e os desafios de ser sub-representadas nele.

Houve um sentimento de progresso entre elas, e o fato de estarem cercadas de quase três dúzias de outras operadoras de câmera profissionais foi inspirador, explica Autumn Eakin, cineasta que esteve no encontro no ano passado. Com o apoio de outras mulheres, ela decidiu agir a favor da camaradagem: alguns meses depois, inaugurou o Cinematographers XX, grupo de networking e site que mostra o trabalho de diretoras de fotografia. Sua esperança era destacar suas realizações ao invés de mostrar a escassez de profissionais.

:: 6 filmes feministas que toda mulher precisa assistir
:: “A única coisa que separa as mulheres negras de qualquer outra pessoa é oportunidade”, diz Viola Davis em discurso no Emmy

Sim, precisamos falar sobre o fato de que há poucas mulheres, porque é verdade. Mas também é importante advogar por pessoas que estão aí. Existem mulheres que filmam e contam histórias há décadas, pelo menos. Estamos aqui!

O Cinematographers XX, cujo site foi lançado em fevereiro, é um dos vários novos esforços entre as profissionais da indústria para corrigir a desigualdade entre os sexos. Outro é o Coletivo Internacional de Mulheres Cineastas, uma rede e site de dados que entrou em funcionamento em abril. Ele é formado, segundo uma assessora, “do desejo de se livrar da desculpa singular que ouvimos tantas vezes: ‘Simplesmente não há mulheres suficientes em direção de fotografia’”. Um documentário, “Cameraperson” (Operadora da câmera), sobre a cineasta Kirsten Johnson, está participando de festivais.

Autumn Eakin, a cinematographer who created a website showcasing the work of women in the trade, in New York, May 31, 2016. The website, Cinematographers XX, is one of several new efforts among professionals in the industry to correct its gender inequality. (Hilary Swift/The New York Times)

(Hilary Swift/The New York Times)

O Local 600, a Corporação Internacional de Cineastas, também está tomando medidas em favor de suas participantes, publicando um anúncio nos jornais do mercado em Hollywood com os nomes das diretoras de fotografia e operadoras de câmera, com um lembrete de que elas existem e estão prontas para serem contratadas, e fazendo reuniões com os estúdios e os produtores. Ramos do sindicato também organizaram conferências de mulheres, como a que aconteceu na casa de Ellen Kuras para as participantes da região leste. E em janeiro a corporação nomeou Xiomara Comrie sua agente de diversidade regional, um cargo novo, para coordenar e expandir o alcance das ações.

Se o histórico sombrio de Hollywood sobre as diretoras é bem conhecido, ultimamente, o foco mudou para outros membros das equipes, para quem os dados são igualmente notórios. Para os dois mil filmes de maior bilheteria entre 1994 e 2013, apenas 1,8 por cento dos cineastas eram mulheres, de acordo com um estudo realizado pelo produtor e pesquisador Stephen Follows. E os números globais para empregos técnicos vêm, na verdade, piorando para as mulheres desde 1994, diz ele.

:: Inspire-se nos melhores beijos do cinema
:: 5 filmes com Orlando Bloom que você precisa assistir
:: Depois de boneco do Star Wars, crianças negras fazem campanha: “Não me vejo, não compro”

Estamos falando sobre a quebra de um ciclo muito antigo” de contratações que favorece os homens explica Rebecca Rhine, que foi escolhida diretora executiva nacional do Local 600 em dezembro. Mesmo nomeá-la como líder, conta, foi um sinal de que o sindicato está aberto a mudanças, “e reconhece que tem trabalho a fazer” para aumentar os números de mulheres no mercado. Ainda assim, a maioria dos executivos é do sexo masculino.

As mulheres representam cerca de 12 por cento da lista de operadoras de câmeras do Local 600, afirma Rebecca. (O sindicato também representa publicitários da indústria de entretenimento.) Agora, o grupo está começando a contar os números das pessoas do sindicato que não são brancas.

Você não pode ter progresso a não se que olhe o ponto de partida. Essa situação não vai se consertar sozinha  diz ela.

Quando Autumn Eakin se formou na escola de cinema, não tinha ideia de que sua trajetória poderia ser diferente da de um cineasta do sexo masculino. Ela começou sua carreira em Saint Louis doze anos atrás, depois se mudou para Nova York e trabalhou continuamente em comerciais, documentários, televisão e filmes. Mas, durante esse tempo, descobriu que as percepções sobre seu sexo eram importantes.

Muitas vezes, quando se trata de mulheres, existe uma suposição de incapacidade que é oposta à suposição de capacidade dos homens  diz ela.

Rachel Morrison, cineasta que filmou alguns dos favoritos entre os independentes, como “Fruitvale Station: A Última Parada” e “Um Deslize Perigoso”, concorda que as mulheres precisam trabalhar mais para provar seu valor.

Já tive sete filmes apresentados no festival Sundance, um deles ganhou o Grande Prêmio do Júri. Reparei que os colegas homens que tiveram sucessos parecidos recebem telefonemas para fazer filmes de estúdio com grandes orçamentos. Eu não recebi essas ligações.

CINEMATOGRAPHERS-RYZIK-LSPR-060716

(Hilary Swift/The New York Times)

Na maioria das áreas, o momento da maternidade e o equilíbrio de suas demandas são obstáculos adicionais.

Os produtores ouvem que você vai ter filho em fevereiro e não querem te contratar para um trabalho que termina em janeiro  afirma Rachel.

Dividir maneiras de lidar com esse tipo de questões é um dos objetivos dos encontros do Cinematographers XX. O grupo não é afiliado ao sindicato, embora haja uma sobreposição: Autumn Eakin é membro do Local 600, e Rebecca Rhine, a diretora do sindicato, diz que vê esse site e outros como complementos de seu trabalho.

Autumn espera que o Cinematographers XX, que possui cerca de 40 diretoras de fotografia estabelecidas e 18 iniciantes, possa servir como uma fonte de contratações: produtores e estúdios não podem mais fingir que não há acesso a nenhuma cineasta do sexo feminino. As mulheres precisam se inscrever para participar, e são avaliadas por Autumn e outras; algumas foram recusadas ou foi pedido que atualizassem os dados sobre seu trabalho.

Por enquanto, o foco é em mulheres que possam trabalhar em Nova York ou Los Angeles, embora o grupo seja aliado do Coletivo Internacional de Mulheres Cineastas, que possui mais de 150 membros. Autumn conta que o Cinematographers XX e seu grupo no Facebook já conseguiram empregos para algumas das participantes.

Leia também:
:: Afinal, qual era o problema com a vencedora do Oscar de Melhor Figurino?
:: Kristen Bell escreve artigo sobre diferenças de gênero: “Por que ‘menininha’ é um adjetivo negativo?”

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna