Mulheres contam como posar para fotos sensuais contribui para autoestima

foto: Fabricio Garcia, divulgação
foto: Fabricio Garcia, divulgação

Como tantas outras jovens ao completar 18 anos, Deise Winck fez as numerosas aulas de direção para tirar a Carteira Nacional de Habilitação. Na hora da prova, ocorria sempre a mesma coisa: o nervosismo fazia a perna tremer, e os erros bobos aconteciam em situações que ela treinara dezenas de vezes. Foram quatro reprovações até decidir abandonar as pretensões ao volante. Anos se passaram até agosto de 2016, e lá estava novamente Deise, agora aos 25 anos, na fila de candidatos a motorista lidando com os nervos. Mas agora ela tinha passado por uma experiência que permitira se ver de um outro jeito: havia posado para fotos sensuais com nenhuma outra finalidade a não ser se sentir bem na própria pele.

– Eu havia feito o ensaio no mês anterior, e o fotógrafo começava a me mandar as fotos. Estava com uma delas no celular, abri e fiquei admirando. Não sei explicar o que aconteceu, mas me senti tão bonita e poderosa que entrei naquele carro e não perdi nenhum ponto no teste – conta a estudante de Gastronomia.

nu2

Deise Winck por Fabricio Garcia

Deise é exemplo de um comportamento já consolidado demais para ser chamado de tendência ou moda. São mulheres anônimas que, em busca de autoconfiança e autoconhecimento, procuram ajuda profissional para realizar um ensaio íntimo. O apelo não é necessariamente erótico, mas geralmente envolve nudez em um ambiente em que a mulher se sinta bela, sensual, confortável e em contato com o corpo. Em fotografia, o termo é “boudoir”.

Embora haja variações do resultado dos ensaios conforme o estilo de modelos e fotógrafos, alguns pontos em comum chamam a atenção de profissionais como Fabricio Garcia, que retratou Deise e hoje trabalha quase exclusivamente com esse tipo de fotografia:

– Quem me procura, em geral, são mulheres já não tão jovens, boa parte com filhos, que sentem o desejo de realizar algo para elevar a autoestima. Estimo que uns 40% sejam do ramo da saúde: médicas, enfermeiras, biólogas… Aquilo me intrigava, e comecei a perguntar o motivo. Uma delas disse: “É óbvio, né, Fabricio? Pensa como é ser mulher e trabalhar horrores o dia inteiro debaixo de um coque e coberta por um jaleco.”

Dariane Moura | Foto: Fabricio Garcia

Dariane Muria por Fabricio Garcia

É o caso de Dariane Muria Gonçalves, 30 anos, bacharel em Enfermagem, estudante de teatro e uma das recentes modelos de Fabricio. Questionada sobre as razões de ter posado, ela começa pela frase mais ouvida ao longo desta reportagem:

– Sempre quis fazer um ensaio. Acho que toda mulher tem certa curiosidade de se enxergar através da lente de um profissional. A gente passa pelo espelho muitas vezes correndo. Ali, durante as fotos, tu estás focada em ti e em um momento raro de contato físico e mental com teu corpo. Fora isso tem todo um barato de escolher um lugar, comprar e testar as lingeries… O resultado é que comecei o processo com a confiança muito frágil e, no dia das fotos, embora ansiosa, estava muito, muito segura.

Tanto fotografadas quanto fotógrafos valorizam o momento da conversa prévia olhos nos olhos.

– Gosto de convidá-las para um café. De saber sobre o momento de vida delas, pelo que elas estão passando. Porque meu objetivo como fotógrafa é que as imagens transmitam de alguma forma o que aquelas mulheres estão sentindo. Não raro tem alguma história de decepção amorosa no meio – conta a fotógrafa Cris Santoro.

A primeira modelo de boudoir de Cris é um bom exemplo sobre a relação entre os ensaios e os momentos de vida. Embora isso não estivesse perfeitamente claro para ela à época, há cerca de três anos, Duannee Cerutti, hoje aos 26 anos, posou para a lente da amiga de infância como um meio de libertação de um relacionamento “de certa forma abusivo”.

Duannee por

Duana Balbinot por Gustavo Razzera

– Estava deixando de ser eu mesma. Poxa, eu era uma guria do Interior. Sempre fui comunicativa. Então, em Porto Alegre, eu era do tipo que dava “oi” para as pessoas no supermercado. Esse meu namorado dizia que não podia sair comigo porque “eu era legal com todo mundo”. Então, para uma pessoa com a mentalidade assim, imagina como ele encararia eu fazer fotos mostrando o corpo? – questiona Duannee, que posou justamente na casa em que cresceu, em Frederico Westphalen.

São variados os papéis de maridos e namorados (ou ex-maridos e ex-namorados) nesse processo.

Duannee Cerutti por Cris Santoro

Duannee Cerutti por Cris Santoro

Há mulheres que procuram o serviço para reencontrar a feminilidade depois de uma separação. Outras fazem as fotos justamente para surpreender os parceiros – algumas trazem o companheiro para participar da ideia. Embora a produção em geral não passe por eles, é bonita a forma como as fotos, na maioria das vezes, aproximam o casal de maneiras inusitadas:

– Eu pretendia fazer em segredo, mas como não aguento guardar nada, acabei contando antes para o meu namorado (risos). Ele disse que tinha uma única exigência em relação às fotos: que eu não cobrisse minhas sardas, porque ele adora. Imagina como é bom ouvir isso do teu parceiro se tu és alguém apelidada de “bombril molhado” na infância? – conta Deise.

Eis uma das mágicas do processo: ao se enxergarem pelos olhos dos outros, tanto dos fotógrafos quanto das pessoas para quem elas mostram as fotos, é comum mulheres fazerem as pazes com partes do corpo que antes eram motivo de complexo. Cris cita como exemplo a jovem Raquel Stefanello, que ela pensa ter “ajudado a desabrochar como mulher”.

Raquel Stefanello por Cris Santoro

Raquel Stefanello por Cris Santoro

– Eu não gostava de fotos. Costumava me esconder quando alguém puxava um celular. Me achava magra demais, cheia de ossos. No ensaio, tu te enxergas por ângulos pelos quais nunca havia te visto. Simplesmente não era como eu me enxergava – conta a estudante de Odontologia, que aponta como uma das fotos prediletas justamente uma que a coluna desenha a curvatura das costas contra a luz.

Entre mulheres mais velhas, como conta a fotógrafa Carla Zigon, o impacto de receber fotos em trajes e ângulos do corpo há tempos inexplorados é ainda maior.

– Uma cliente de 54 anos disse, antes do ensaio, que o maior trauma dela desde menina era não ter bunda. Fiquei com aquilo na cabeça e, na hora das fotos, fiz de propósito uma posição em que a dita cuja ficou linda. Aos 54 anos, fiz uma mulher se emocionar ao descobrir sua bunda (risos) – conta.

Carla começou a fotografar boudoir de mulheres mais velhas de tanto que, nos aniversários de criança, era puxada para o lado e questionada se ela não fazia ensaios sensuais. No ano passado, registrou um domínio na internet (fotografiademulher.com.br) e começou a oferecer o serviço. Atraiu principalmente mulheres entre 35 e 50 anos.

Amanda Selbach por Fabricio Garcia

Amanda Selbach por Fabricio Garcia

– Comecei ao ver uma demanda, mas hoje também é o tipo de trabalho que acho mais gratificante. É indescritível a felicidade delas ao receberem as fotos. Tanto que um dos meus próximos projetos envolve encontrar parceiros, como marcas de lingerie e maquiagem, para fotografar mulheres carentes. Imagina propiciar essa sensação a quem nunca pensou em se enxergar assim?

Enquanto muitos ensaios se amparam na ideia de elevar a autoestima de mulheres propiciando a elas luz, cenários, ângulos e tratamentos de imagem profissionais, cresce também a procura por fotos mais naturalistas. Pessoas que desejam ser retratadas com bom gosto, mas que fazem questão de registros em fotos nuas e cruas como forma de afirmação de uma beleza mais realista:

– Quem me procura são pessoas que desejam dizer alguma coisa com o corpo delas. Hoje, o ensaio é artístico, mas também político. É como se dissessem: eu sou assim, meu corpo é assim e eu também sou bonita – conta Gustavo Razzera, fotógrafo e ator que há seis anos comanda o site Pouts Plaf.

É preciso testemunhar para entender. Na tarde em que Donna acompanhou o trabalho de Gustavo, o cenário foi um inusitado apartamento em reforma na Cidade Baixa, e o ensaio é uma performance, em que o fotógrafo interage e sua quase tanto quanto a modelo. Com Caroline Morandi, Gustavo girou pelo apartamento fazendo cabo de guerra com uma peça de roupa. Duana Balbinot transformou uma furadeira em arma, em uma pegada super-heroína. Janaína Lourenço, que posava pela primeira vez, se encantou pela banheira do apartamento e ali ficou.

Caroline Morandi por Gustavo Razzera

Caroline Morandi por Gustavo Razzera

– Posar é uma experiência. Cria vínculos, explora diferentes culturas eróticas. O ensaio é quase um registro jornalístico disso, e as melhores fotos surgem dessa espontaneidade – conta Gustavo.

O nome do site de Gustavo é uma onomatopeia desse momento. Quando depara com uma grande foto, ele comemora com uma interjeição (Pouts!) e em seguida bate palma (Plaf!).

Seja qual for o estilo do ensaio, um aspecto em comum é a divulgação posterior pela própria modelo, pelos menos das fotos menos ousadas. Pesam a satisfação pessoal com o resultado, mas também a aprovação do outro, como resume Deise sem meias palavras:

– Ninguém publica nada se não é pra ganhar umas curtidas.

Nas contas de Fabricio, a cada 10 das suas clientes, apenas uma não publica. Mesmo entre aquelas que juraram que não publicariam. Até porque a repercussão raramente é negativa. Amanda Selbach, por exemplo, há mais de cinco anos sonhava em fazer um ensaio que envolvesse a sua paixão por confeitaria. Dona de uma pâtisserie em Canela, a Holic, Amanda publicou fotos no Instagram pronta para algum tipo de julgamento da clientela mais tradicional:

– Se alguém não gostou, não me disse. Me surpreendeu justamente o contrário. A quantidade de mulheres de todos os tipos e idades me dizendo que também são loucas para fazer também.

Amanda Selbach por Fabricio Garcia

Amanda Selbach por Fabricio Garcia

Agora, Amanda vive o segundo ponto em comum entre as entrevistadas dessa reportagem: o desejo de repetir a dose. É o que fez Sayonara Ritter (foto abaixo), 31 anos, ao posar para a capa de Donna nesta edição após a sessão de fotos. No ano passado, aconselhada por seu psicólogo, procurou Carla Zigon para retratá-la. Passava por uma fase complicada: lidava com a depressão e a baixa autoestima. O ensaio deu a ela confiança para outras viradas, que incluíram uma separação e a perda de mais de 20 quilos.

Antes de posar pela primeira vez, passou um mês pesquisando roupas, poemas inspiradores e músicas que ela gostaria que fizessem parte da experiência. Na hora do ensaio, uma letra foi especialmente marcante. Eram versos de Não Enche, de Caetano Veloso: “Me deixa gozar, me deixa gozar. Me deixa viver. Na luz desse dia D.”

Sayonara Ritter por Jefferson Bottega

PRIMEIROS PASSOS

Com base em conselhos dos fotógrafos entrevistados nessa reportagem, Donna elaborou uma lista de cuidados importantes na hora de escolher um profissional para as fotos:

  • Atente ao portfólio para ver se o estilo do fotógrafo combina com o que você tem em mente.
  • Busque referências, consulte mais de uma pessoa que já tenha sido retratada pelo profissional e não se constranja de perguntar sobre episódios de assédio.
  • Converse com o fotógrafo antes sobre o seu momento de vida e o objetivo das fotos. Se ele for um bom profissional, fará questão de ter essa conversa.
  • Combine previamente preços e esclareça o que o valor inclui em termos de estrutura, como aluguel de locação, maquiagem e afins.
  • Não caia em “indiadas”: fotos em áreas externas, por exemplo, exigem estrutura que nem todo profissional é capaz de propiciar.
  • Certifique-se de que as fotos serão entregues a você de forma segura, para evitar vazamentos.
  • Leia com atenção o contrato, especialmente sobre os direitos de exploração das imagens.
  • Amadureça a ideia de fazer o ensaio antes de procurar o fotógrafo e não se tenha medo de desistir se em algum momento do processo não sentir confiança.

Entrevista com Fernanda Nicaretta*

*Fernanda é psicóloga em Lajeado e mestranda em Psicologia Social
pela UFRGS. Autora de uma pesquisa sobre o nu em ambientes digitais

Quando o nu passou a ser visto como algo sensual?

Desde a Grécia Antiga, o nu passou por diversas mudanças na forma como é visto ou referido. É a partir da sociedade moderna que o nu começa a ser “estranhado”. A Igreja teve um papel importante nesse processo, basta olharmos para a diferença entre as esculturas gregas e as imagens de santos católicos. O nu passou a ser vestido, os órgãos sexuais escondidos. Atualmente, já há outra mudança operando. O nu não é nem expresso naturalmente, nem totalmente velado. Agora, é sensualizado, ou melhor, sexualizado.

O registro fotográfico do nu teve a ver com isso?

As mudanças na relação com a fotografia podem ter influenciado nossa relação com o registro do próprio corpo. Dada a possibilidade de fotografar e de enviar a foto a alguém, um certo convite fica evidenciado. Obviamente, o narcisismo sempre esteve em nós, mas não podemos desconsiderar a facilidade e o estímulo que as tecnologias oferecem aos nossos desejos. Ver-se nu e poder se fazer ver por outros pode ser uma forma de alimento aO nosso narcisismo. Há uma busca pelo olhar do outro, que confirme minha posição e existência.

O nu já não deveria estar mais naturalizado?

Seja um uso para afirmação de padrões de beleza (se, baseado em padrões estéticos, sei que meu corpo agrada), ou se para uso político (vou usar o meu nu para mostrar como outras formas também podem ser sensuais, por exemplo), o nu dificilmente passa despercebido. Talvez seja herança dos tempos modernos: ainda temos certa dificuldade para nos relacionarmos com o nu. Ainda parece um ato de coragem, ou loucura, se mostrar nu. No entanto, todos sabemos o que há embaixo de nossas roupas. Um total paradoxo.

Hoje parece haver um fetiche maior em relação à nudez de uma pessoa anônima. Você concorda? Arrisca um motivo?

O nu amador interessa mais porque aproxima a cena da realidade, além de supor que a pessoa desejou aquilo, que não está sendo paga para isso. Há, sim, um fetiche em saber que o outro quer aquela exposição. Saber que o nude vem acompanhado de um desejo talvez seja o diferencial. Além disso, não é do ator, da apresentadora de TV, a quem nunca terei acesso, mas, sim, de alguém conhecido, de alguém que sei que existe e de quem, talvez, possa me aproximar. O realismo incita sexualmente.

Leia mais
:: Como melhorar a autoestima e se sentir mais sexy: veja as dicas da sensual coach Fátima Moura
:: Sexo sem tabus: 6 canais do YouTube que falam abertamente sobre o assunto
:: Emagrece, desestressa, aumenta a imunidade e mais: 5 coisas que um (bom!) beijo faz por você

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna