Mulheres engraxates: como elas adentraram o segmento masculino e o trouxeram de volta à moda

Fotos: Alessandro Grassani/The New York Times
Fotos: Alessandro Grassani/The New York Times

Por Gaia Pianigiani, The New York Times

Em um país famoso pelos produtos de couro refinados e pela noção de moda, engraxar sapatos nunca foi uma profissão particularmente exaltada. A prática foi importada durante a II Guerra Mundial, quando soldados norte-americanos e britânicos pagavam para os garotos na rua para polir as botas, às vezes em troca de chocolate e cigarros.

Até mesmo uma das maneiras de designar a atividade – “sciuscià”, que batizou o filme homônimo de Vittorio De Sica, de 1946, lançado no Brasil como Vítimas da Tormenta – vem do dialeto napolitano que imita o som da palavra inglesa “shoeshine” (engraxar sapatos). E, certamente, essa nunca foi uma função feminina.

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Mas não conte nada disso a Eleonora Lovo. Ela é o exemplo mais recente de como as mulheres entraram no segmento claramente fora da moda, antes um domínio exclusivo dos homens, e o tornaram estiloso. Hoje, Eleonora, 43 anos, caminha por Verona usando sapatos masculinos pretos, uma saia que desce abaixo dos joelhos, camisa branca e grandes óculos pretos ovais. Em seu antebraço pende uma bolsa retangular de couro marrom cheia de sapatos polidos com atenção, que ela mesma retira e devolve aos clientes.

O laboratório de Eleonora é um canto da sala de estar de sua família. Recentemente, sentada em uma cadeira de madeira, cercada por livros de arte, cera de abelha, graxas coloridas, todos os tipos de escovas e um relógio cuco, ela começou tirando a poeira e a terra de um de seus “bebês”, e descreveu o trabalho que é sua paixão.

— Não creio que este seja um trabalho somente para homens. Sempre adorei sapatos masculinos. Eles têm uma história, os modelos, as formas como são costurados. Isso não acontece com os sapatos femininos.

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A segunda mulher na Itália a ganhar renome por escolher o trabalho nos últimos anos, Eleonora abriu seu negócio em casa, e em vários congressos empresariais, hotéis e feiras de sapatos, em 2014. Desde então sua reputação se espalhou. Contudo, antes de começar, ela aprendeu a arte e o ofício de tratar o couro em livros e em um curtume local, começando a engraxar os sapatos de familiares e amigos.

— Quando estava aprendendo, cheguei a estragar os sapatos finos de um amigo. Não consegui dormir naquela noite —, conta.

— Meu desafio é dar uma vida nova aos sapatos —, acrescentou, sorrindo, enquanto limpava um par de sapatos norte-americanos marrom, com uma década de uso, com um tecido de microfibra azul embebido em um delicado líquido detergente. — A coisa que mais gosto no meu trabalho é ver o rosto do freguês quando recebem os sapatos engraxados.

Embora engraxe principalmente sapatos masculinos, Eleonora deve seu sucesso principalmente às mulheres, ela reconhece. Por um lado, ela assumiu o lugar da dona de casa italiana tradicional, que costumava ficar em casa e, entre outras tarefas, limpava os sapatos. Agora, a maioria das mulheres trabalha e não têm mais tempo para isso. Por outro lado, suas primeiras divulgadoras foram suas amigas.

— Algumas mães me pediram para limpar suas bolsas de couro e fizeram minha fama no boca a boca —, contou ela, explicando que as mulheres também são suas principais promotoras na mídia social. — Os homens, por sua vez, confiam nas mulheres nesse tipo de trabalho. Para eles, é como confiar os sapatos às mães ou namoradas.

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Eleonora não é a primeira engraxate mulher. Em 2000, outra empreendedora, Rosalina Dallago, 51 anos, abriu uma engraxataria no centro de Roma. Ex-modelo e depois dona de restaurante, Rosalina escovou gentilmente os sapatos da elite italiana, incluindo os do ator Alberto Sordi e de diversos políticos. Sua pequena e estreita engraxataria fica aninhada entre o “sagrado” – a igreja de São Lourenço em Lucina – e o “profano” – a casa baixa do Parlamento.

— Quando comprei a loja, o dono de 72 anos me deu suas escovas — , contou Rosalina, passando suavemente escovas de madeira com cerdas de crina de cavalo. — Foi uma verdadeira passagem de bastão. Fiquei com vontade de chorar.

Em 16 anos, sua carreira cresceu rapidamente. Ele mantém uma engraxataria dentro do aeroporto de Fiumicino e outra em um clube romano, manteve um programa de 12 minutos em rede nacional de televisão e realizou cursos de empreendedorismo para mulheres. Ela colabora com uma sapateira. Todas as suas empresas são administradas por mulheres.

Retratado como uma forma glamorosa e sensual de engraxar sapatos, seu negócio ganhou manchetes em publicações do mundo inteiro, da Alemanha ao Japão. A fama, no entanto, não gerou muito concorrência até Eleonora surgir, 500 quilômetros ao norte.

— É um trabalho que suja as mãos e você passa o dia inclinada. Poucas mulheres, e as pessoas em geral, gostam disso —, disse Rosalina, com um sorriso irônico.

Tradicionalmente, engraxar sapatos é considerado um serviço humilde na Itália, que não está em demanda há décadas. O número de engraxates vem diminuindo nos últimos anos. Embora seja comum ver engraxates em aeroportos internacionais ou até mesmo em áreas de compra nos Estados Unidos ou na Grã-Bretanha, uma cidade como Roma tinha menos de dez engraxates mesmo na era dourada da década de 50. Todos eram homens.

— Era um serviço historicamente dominado por homens – só que agora as coisas mudaram um pouco —, disse Tommaso Cancellara, diretor executivo da Micam, principal feira de sapatos da Itália.

Eleonora e Rosalina concordam que ser mulher pode ser uma vantagem em sua profissão. A segunda falou em flores ou caixas de Cartier que recusou ao longo dos anos, mas garantiu que nenhum a fez se sentir a “Mata Hari do ano 2000”.

Eleonora tem uma atitude diferente.

— Sou uma mulher cavalheira. Não consigo ver homens bem vestidos caminhando com sapatos sujos. É somente por isso que comecei a engraxar sapatos —, disse ela, sorrindo, com seu cabelo curto despenteado.

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