Mulheres na TI: porque a tecnologia da informação ainda é uma área para poucas?

Camila Maccari, especial

Sabe os aplicativos que você tem instalados no celular ou os programas de computador que você usa no seu dia a dia? Eles provavelmente foram desenvolvidos por equipes majoritariamente masculinas. No Brasil, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, apenas 20% dos profissionais que atuam no mercado de tecnologia da informação são mulheres. Essa diferença não é exclusividade nossa: um censo realizado pelo governo americano em 2014 mostra que elas ocupam 25% das vagas do setor e ganham 10 mil dólares a menos que eles ocupando os mesmos cargos. Para entender o porquê dessa diferença, conversamos com a programadora Alda Rocha, criadora do Codamos, uma plataforma que pretende ajudar mulheres a encontrarem eventos de tecnologia que tenham a ver com seus interesses, e com Julia Machado, criadora do Anitas, grupo engajado no empoderamento feminino na área da tecnologia e empreendedorismo.

Meninos e Meninas

A programadora Alda Rocha explica que uma das razões para essa diferença está na infância. Enquanto os meninos são incentivados, as meninas aprendem a desenvolver características ligadas ao cuidado.

Durante muito tempo foi dito que elas deveriam brincar de bonecas e cuidar da casa e não serviam para ciência, matemática e coisas “mais complexas”. As poucas que conseguem sobreviver e arriscar seguir o sonho de estar ali no cenário “mais complexo”, acabam sofrendo questionamentos diários de quem está em volta se é isso mesmo que querem e muitas desistem baseadas no discurso do “não é pra mim”.

Julia Machado explica que essa diferença de tratamento entre gêneros também influencia na bagagem que eles vão levar para a vida profissional

– Meninos são incentivados e acabam tendo contato com a tecnologia desde cedo enquanto as meninas geralmente conhecem o assunto quando decidem por si próprias estudar. Daí já começa com uma diferença bem grande de base.

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Falta de exemplos

A falta de representatividade é outro problema, segundo as profissionais. Existem exemplos como Sheryl Sandberg, chefe operacional do Google e Marissa Meyer, diretora executiva do Yahoo, mas eles são poucos. Elas destacam que a falta de mulheres bem sucedidas donas de um app ou plataforma, por exemplo, acaba barrando outras mulheres.

– Quando você não tem exemplos nos quais se basear, fica mais difícil se ver em alguma situação. É como se automaticamente não fosse para você, já que não é para outras. Muitas chegam ao vestibular sem nem cogitar um curso na área – afirma Julia.

Alda ainda cita o estereótipo como uma barreira a ser superada.

– Aquela velha história de que toda pessoa que trabalha com T.I. é um homem branco, jovem, que não tem dinheiro, anti social, usa óculos e é nerd ao extremo. Difícil se identificar com algo que não é o que somos.

Ambiente nocivo

Elas chegam a ingressar na faculdade ou no mercado de trabalho, mas, depois de um tempo, desistem. No Brasil, por exemplo, dados da PNAD mostram que 79% das mulheres que entram nas faculdades da área abandonam o curso no primeiro ano. E o próprio ambiente acadêmico pode incentivar esse êxodo, destaca Julia.

– Você entra em uma sala de uma turma de engenharia, por exemplo e, entre 60 alunos, encontra duas ou três mulheres. Nem os professores sabem como lidar com elas porque não costumam ser a realidade.

Alda afirma que a situação no mercado de trabalho não costuma ser muito diferente

– Um profissional de T.I. trabalha em média de 8 a dez horas por dia imerso em códigos e junto com seu time, chefes e equipe. Lugares que não respeitam as mulheres ou têm comportamento agressivo e sem educação de colegas de trabalho são causas concretas de desistência de muitas.

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Mudanças

Alda fala sobre a necessidade de uma mudança de legado para que as mulheres ocupem outro lugar dentro da tecnologia da informação que não com a parte mais humana dos processos, como design e layouts. Para ela, o problema é cultural e a mudança precisa acontecer aos poucos.

– É gradativo. Não adianta inflarmos o setor e depois termos outra debandada e as elas voltarem a se sentir oprimidas dentro do ambiente de T.I. A mudança gradual pode significar que estamos caminhando para uma real transformação a longo prazo.

Julia aposta em uma discussão colaborativa sobre o assunto, onde tanto universidades quanto setor privado sejam colocados na roda.

– Esse é um problema das mulheres mas que não se resolve apenas com mulheres, não tem um caminho exato. Promovemos conversa com meninas nas escolas para falar sobre o assunto, incentivar. Recursos humanos de empresas do setor também precisam entender as dificuldades delas no meio para ajudar a resolver o problema. Professores precisam se preocupar em ter uma postura menos agressiva em sala de aula. É um esforço coletivo – completa.  

 

Lugar para tod@s

Além de profissional da área, Alda Rocha é militante pela inclusão das mulheres na tecnologia da informação. Em palestras, fala abertamente sobre as dificuldades que sofreu no mercado.

– Fui gradativamente fazendo a transição do design para desenvolvimento e ainda estou nesse processo de migração. Ao longo desses período, vivi muita coisa na pele, muito preconceito, muita ideia que foi podada por eu ser mulher e muita falta de confiança no meu trabalho pelo mesmo motivo. Existe muito preconceito ainda e cada dia é uma luta para provar que realmente somos competentes só pelo fato de ser mulher. Isso não deveria ser necessário, a tecnologia é horizontal, é pra todos e não tem raça, sexo ou biotipo.

Para quem sonha em se estabelecer profissionalmente em alguma das áreas de tecnologias de informação, Julia indica abrir mão da ideia de perfeição.

– Não dá pra ter medo de errar e de pedir apoio. Principalmente apoio de mulheres porque todas sabem que o meio não é fácil. Mas é bom sair da zona de conforto para perceber que quando somos desafiados, conseguimos fazer mais. Vale a pena, também, procurar por grupos de mulheres que se reúnam para ensinar e aprender programação, por exemplo, e criar uma rede a partir disso.

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