Abre alas! Mulheres conquistam espaço na bateria dos blocos de Carnaval de Porto Alegre

(Jefferson Botega/Agência RBS)
(Jefferson Botega/Agência RBS)

Rossana Silva, especial*

Protegidas do sol do verão pelas árvores, dezenas de pessoas dançavam e pulavam no último ensaio aberto do Bloco da Laje, em uma manhã quente de janeiro, no Parque da Redenção, em Porto Alegre. Era tanta a euforia ao redor da bateria que os cantores pediram ao público que se afastasse, para deixar os ritmistas respirarem. Após alguns segundos observando os músicos, um folião chamou a atenção do amigo:

— Você viu o tamanho do tambor daquela mina?

Na última fila da orquestra, três mulheres tocavam surdo, um tambor de cerca de sete quilos, responsável pela marcação da música – o coração do samba. Uma delas era a pedagoga Raquel Matzenbacker Steinmetz, 34 anos, apaixonada pelo som do instrumento. Ela lista os comentários que costuma ouvir quando está tocando:

— A estranheza e admiração quanto à escolha do surdo é evidente no olhar e nas expressões. E vêm acompanhadas de frases tipo “Mas, tão grande assim!”, “Imaginava qualquer instrumento menos esse”, “Nossa, que mulher de braço” ou “Que personalidade, hein!”.

Como se vê, a ala feminina, que costumava se concentrar em instrumentos leves como o chocalho, espalhou-se por tudo nos últimos anos. Naquela manhã, a bateria do Bloco da Laje estava formada por 58 ritmistas — 37 deles mulheres.

— Isso significa que se elas não quiserem tocar, não tem samba — brinca Vinicius Silva, mestre de bateria da Laje e da Turucutá.

:: Para cair na folia! Bailes de Carnaval infantil em Porto Alegre e no Litoral
:: Musas do Carnaval 2016: famosas no aquecimento para os desfiles das escolas de samba

Nos chocalhos, agogôs, tamborins, caixas, surdos e repiniques, as mulheres fazem o samba acontecer nos blocos de rua do Carnaval de Porto Alegre. As baterias de bloco e de escola de samba têm dinâmica similares, mas se diferenciam especialmente pela responsabilidade. Enquanto no desfile oficial, na avenida, o desempenho dos ritmistas vale nota, nos blocos há mais liberdade para brincar. Mas tanto na quadra quanto nos blocos por muito tempo imperou a hegemonia masculina. Em 2007, o então presidente da bateria da Mangueira, Ivo Meirelles, causou burburinho ao decidir colocar mulheres para tocar o samba-enredo da Estação Primeira.

— Na Mangueira, falava-se muito da “tradição”, mas havia uma discriminação mesmo contra as mulheres. Sofri muitas críticas por ter colocado elas a tocar. Os dirigentes da escola e parte da velha guarda da bateria perturbaram minha vida. Elas chegaram tarde, mas nunca mais sairão de lá! – afirma Meirelles, em entrevista por e-mail.

(Fernando Gomes/Agência RBS) Em um ensaio do Bloco da Laje neste mês, dos 58 ritmistas, 35 eram mulheres

(Fernando Gomes/Agência RBS) Em um ensaio do Bloco da Laje neste mês, dos 58 ritmistas, 35 eram mulheres

No Carnaval de Porto Alegre, o mesmo movimento é observado pelo presidente da Associação dos Diretores de Bateria (Asdiba), Estevão Renato Pereira, que destaca o aumento no número de mulheres ritmistas nas escolas da Capital e, ainda, com estilo próprio.

— Muitas chegam já conhecendo bem os instrumentos. Aprendem na internet, veem vídeos e ainda aperfeiçoam a técnica — opina.

Nos blocos, a participação das mulheres ganhou força com a retomada do Carnaval de rua, nos últimos anos. O principal elo de aproximação entre garotas e instrumentos é a Turucutá. O coletivo funciona como bloco carnavalesco e grupo musical, além de realizar oficinas de percussão durante o ano: todo sábado, dezenas de pessoas aprendem o beabá da batucada na quadra da escola Imperadores do Samba. Desde 2009 no projeto, o mestre Vini Silva acompanha como, vem aumentando a quantidade de mulheres nas oficinas, até elas hoje ocuparem a maior parte das vagas. De idades e profissões diversas, as garotas costumam ter em comum pouca ou nenhuma familiaridade com um instrumento musical – e muito além do chocalho.

— Hoje, as mulheres ocupam instrumentos essenciais para o desenvolvimento da música — diz Vinicius.

:: 7 ideias de fantasias para a folia com acessórios que você tem em casa

(Fernando Gomes/ Agência RBS)

(Fernando Gomes/ Agência RBS)

Integrante da formação original da banda De Falla, a baterista Biba Meira atestou na prática o interesse crescente das mulheres pela percussão. Em 2013, foi cofundadora da Escola Batuca de bateria e percussão e, dois anos depois, criou um bloco misto, que nunca foi além dos 12 integrantes. Então, teve a ideia de reunir mulheres para criar uma orquestra percussiva: logo no primeiro encontro de As Batucas – Orquestra Feminina de Bateria e Percussão foram oito interessadas, que pularam para 15 no segundo até chegarem às 60 participantes de hoje – com direito à fila de espera para novas vagas.

— A procura foi muito grande. Elas mesmas me falaram que sentiam mais à vontade e mais seguras só entre mulheres. E eu digo: “Gurias, vão para a rua, vão para o palco”. Ainda há muito poucas mulheres no palco – afirma Biba. — Esse é o momento de a mulher procurar seu espaço e lutar por ele: é possível batucar, tocar bateria, ser mestre de bateria…

(Fernando Gomes/Agência RBS)

(Fernando Gomes/Agência RBS)

Em espaços como a Turucutá e As Batucas, nos quais as mulheres se descobrem ritmistas, o contato com outras apaixonadas pela percussão dá origem a blocos e batucadas autônomos. Quando se cria afinidade com os instrumentos, é comum querer tocar em mais blocos. E uma incentiva a outra. Não raro, mulheres que se aproximam da bateria para dançar puxam assunto com as ritmistas e são incentivadas a entrar para o time.

— As gurias vêm falar comigo e dizem que querem muito tocar, mas acham que não conseguem — conta a estudante de Fisioterapia Júlia Fontoura, 24 anos, que toca caixa e surdo. — Digo que eu também não sabia, mas que a batucada é para todas.

:: Marchinhas estampam camisetas de Carnaval
:: 7 dicas fáceis para desintoxicar e desinchar dos exageros de Carnaval

Um bloco só para elas

Uma situação inusitada ocorrida no verão de 1998, no Rio de Janeiro deu origem, quase duas décadas depois, a um bloco de Carnaval de rua em Porto Alegre formado só por mulheres, o “Amor, Volto Já”. Naquele ano, cinco amigas foram passear na Cidade Maravilhosa com seus companheiros. Certa tarde, na semana de Carnaval, o grupo estava no hotel quando os namorados e maridos deram uma “saidinha”, que acabou se transformando em horas de ausência. E as mulheres lá, esperando o retorno. Quando desceram para buscar os sumidos, encontraram um bloco no Leme chamado “Meu Bem, Volto Já”. De volta a Porto Alegre, as amigas seguiam se reencontrando toda semana em um bar na orla. Em dezembro do ano passado, a vontade de participar da folia fez a turma lembrar daquele fato e batizar o bloco utilizando a famosa “desculpinha furada” dos homens.

— Chegou a hora de dar o troco – brinca a diretora do “Amor, Volto Já“, Ilcamari Silva.

amorvoltoja

O bloco tem 15 mulheres atualmente e estreou no sábado passado (dia 23) desfilando no Humaitá. Mesmo que o bloco seja feminino, os rapazes são convidados a participar: a bateria é formada pelos Meninos da Vila, da escola de samba IAPI, O “Amor” irá participar do encerramento oficial do Carnaval de POA, em 13 de fevereiro, e aceita mais mulheres em sua composição até lá.

Treinando com a caneta Bic

A administradora Danielle Rangel Dal Moro, 29 anos, sequer conhecia os nomes dos instrumentos de uma bateria quando, em 2011, chegou à oficina de percussão da Turucutá. Tentava tocar o agogô quando, por perto, soou o barulho estridente do tamborim. Foi amor à primeira audição. Considerado um instrumento complexo, o tamborim exige dedicação, e Danielle passou a praticar a técnica a cada brecha do trânsito (chegava a usar um CD e uma caneta Bic para simular o instrumento). Hoje, toca com o bloco na rua, em eventos e em casas noturnas. O hobby volta e meia contagia também as pessoas ao redor.

00b69e1b

— Como o tamborim costuma se posicionar mais à frente da bateria, chama muito a atenção do público. Ao fim de uma apresentação, sempre acontece de o pessoal se aproximar para perguntar como faz para aprender a tocar, como foi que eu comecei, se eu já tocava algum instrumento antes. Tem muita curiosidade — conta Danielle.

Com a família no samba

Batucar é coisa de família para Eduarda Moreira, 30 anos, que ensaia para se apresentar tocando rocar (um tipo de chocalho) na saída da Turucutá, em 12 de março. O marido, Maurício, faz parte do mesmo bloco, e o filho do casal, Joaquim, dois anos, já frequenta os ensaios junto às avós. Eduarda sempre admirou sambas-enredo e percussão, mas fazer parte de uma bateria parecia distante até frequentar as aulas de música, em 2014.

— Faço uma ginástica para participar, mas vale a pena. É uma superação investir nosso tempo para ajudar a difundir a cultura popular — diz a pedagoga, que trabalha 40 horas semanais em escola pública estadual.

00b686d0
Na opinião de Eduarda, o cenário mudou porque as baterias de blocos e escolas de samba colocavam as mulheres apenas em lugares que valorizavam a exposição do corpo e a beleza, mas pouco a pouco as mulheres conquistaram mais espaços e mostraram outras habilidades.

— Estar na bateria é uma referência para encorajar mais mulheres a participar. Estes momentos são não só de divertimento, mas também de empoderamento — opina.

:: VÍDEO! Estilista dá dicas de customização de camiseta para o Carnaval
:: VÍDEO! Maquiador da Grande Rio ensina a fazer um make cintilante para o Carnaval

Ao som do surdo

Raquel Matzenbacker Steinmetz caiu cedo no samba. Com um mês e seis dias, foi levada ao Carnaval pela mãe. A pedagoga de 34 anos cresceu em meio a rodas de samba e começou a participar de batucadas, em 2013. Descobriu no surdo um novo amor: carrega para cima e para baixo até os ensaios, que chegam a três vezes por semana no verão.

— Quando anunciaram uma oficina da Turucutá em que apenas o desejo de aprender bastaria para participar, não sendo necessário o domínio do instrumento, tomei a decisão de aceitar esse lindo convite. Nem mesmo minha grande timidez me fez mudar de ideia – conta Raquel. — Desde que comecei, sou mais sensível, consigo expressar melhor meus sentimentos e entendo melhor a ideia de coletivo.

00b686d1

A pedido de Donna, Raquel perguntou às amigas o que elas achavam quando a viam tocando surdo ao lado de outras ritmistas. E se surpreendeu com a empolgação das respostas: “É demais de verdade, amiga. Que orgulho de vocês!”.

Motivação que contagia

Até 2013, a estudante de Fisioterapia Júlia Fontoura, 24 anos, nunca havia segurado baquetas. Este ano, toca caixa e surdo em dois blocos de Porto Alegre. A batucada é compromisso sério: os ensaios são seu momento de prazer na semana, e ela só falta “se estiver doente ou se o mundo cair”. Tanto treino faz sentido quando ajuda a arrastar a multidão a cair no samba, como ocorreu no Bloco da Laje no último domingo.

00b686d6

— É o momento que vemos a magnitude de fazer parte de um bloco. Tudo faz sentido. Choro de emoção em todas as saídas – conta. O amor de Júlia pela percussão já a fez convidar outras pessoas a participar das oficinas, mesmo quem acha que não leva jeito para tocar. – Acabamos sendo uma referência para incentivar outras mulheres, é a questão de alguém dar o “start” – opina.

 ONDE APRENDER

Oficinas de percussão da Turucutá

facebook.com/turucuta
instagram.com/turucuta

As Batucas Orquestra Feminina de Bateria e Percussão

escolabatuca.com.br
bibagmeira@gmail.com

Confira a programação oficial dos blocos de rua de Porto Alegre

CIDADE BAIXA

29 de janeiro – Panela do Samba e Do Jeito Que Tá Vai

30 de janeiro: Galo de Porto e Maria do Bairro

6 de fevereiro (sábado): Banda DK

9 de fevereiro (terça-feira): Baile Infantil da Rua do Perdão

21 de fevereiro (domingo): Areal do Futuro e Satélite Prontidão

12 de março (sábado): Turucutá e Bloco do Isopor

ORLA DO GUAÍBA

27 de fevereiro (sábado): Filhos Do Cumpadi Washington, Bloco da Trinca e Ziriguidum

28 de fevereiro (domingo): Império da Lã, Bloco do Kiridão e Skafolia

Leia mais
Comente

Hot no Donna