Mulheres preparam marcha histórica para firmar posição diante do governo Trump

Por Gabriele Branco, especial, de Nova York

Um dia depois de Donald Trump assumir oficialmente seu posto na Casa Branca, mulheres de todo o país ganharão as ruas de Washington D.C para dar seu recado ao novo presidente dos Estados Unidos. Para a posse, nesta sexta-feira, foram solicitadas cerca de 300 autorizações ao departamento de trânsito da cidade para estacionar ônibus em áreas reservadas. Para a Marcha das Mulheres, foram emitidas mais de 1,2 mil autorizações. Uma pequena demonstração do que se pode esperar da manifestação que deve reunir 200 mil participantes e que é apontada pela imprensa americana como um dos movimentos mais progressistas em curso no país.

A organização da marcha teve início apenas um dia após a eleição de Trump, depois de uma campanha marcada por polêmicas e comentários considerados machistas. A iniciativa partiu de mulheres que não se sentiam representadas com a escolha dos eleitores que compareceram às urnas – de acordo com as regras do sistema eleitoral americano, baseado no voto indireto do colégio eleitoral, Hillary Clinton perdeu a eleição mesmo tendo recebido quase 2,9 milhões de votos a mais do que o candidato republicano.

No Facebook, a designer de moda Bob Bland lançou o convite para a marcha e, espontaneamente, dezenas de mulheres começaram a se juntar e tomar a frente de ações necessárias para dar forma ao movimento. Breanne Butler, uma das organizadoras, conta que logo depois das eleições viu amigos falando sobre a marcha nas redes sociais e entrou em contato com Bob para oferecer ajuda. A ideia viralizou, outras mulheres fizeram o mesmo que Breanne e, desta forma, o evento foi tomando grandes proporções.

O manifesto lançado no site do movimento convida pessoas de qualquer gênero, idade, raça, cultura ou afiliação política a se juntar ao grupo. Nas quatro páginas do texto, o nome do presidente eleito não é citado uma só vez: a ideia é não ser um protesto contra Trump, e sim uma reafirmação do poder de organização das mulheres nos Estados Unidos. Para Paula England, socióloga e professora da Universidade de Nova York, a Marcha das Mulheres é uma forma de mostrar que Trump não representa a hegemonia do pensamento norte-americano:

— Os participantes aceitam o fato de que ele é o presidente, mas querem que o mundo saiba que são contra esse governo e vão lutar, talvez elegendo outra pessoa daqui a quatro anos ou tentando convencer as pessoas no Congresso a não seguir algumas das ideias de Trump.

MARCHA
Breanne conta que foi procurada por pessoas de diversos países oferecendo apoio, o que levou às mais de 50 marchas-irmãs que serão realizadas ao redor do mundo neste sábado, além de outras 300 em território norte-americano – com cerca de 500 mulheres envolvidas na organização.

— Trump foi particularmente desrespeitoso e imprudente em relação às mulheres e seus direitos, e isto foi a gota d’água – afirma Breanne. — As pessoas finalmente chegaram ao seu limite. Então, mulheres de todas as partes estão se unindo para terem suas vozes ouvidas.

Com a hashtag #WhyImarch (por que eu marcho?, em tradução livre), mulheres vêm espalhando cartazes nas redes sociais explicando os motivos pelos quais fazem questão de tomar parte no movimento. Mayra Rodriguez, professora aposentada que vive em Massachusetts, conta que o resultado da eleição trouxe uma sensação diferente:

— Enquanto em outras ocasiões eu superei quando meu candidato não ganhou, desta vez sabia que não poderia ficar sentada. Precisava lutar pelos meus direitos.

A Marcha das Mulheres deve ser a maior manifestação relacionada à posse de um presidente nos Estados Unidos – o maior número até hoje foi registrado em 1973, quando cerca de 60 mil protestaram contra o segundo mandato de Richard Nixon. Um dos homens a marchar neste sábado, Ira Kaplan, vocalista e guitarrista da banda Yo La Tengo, lamenta a necessidade de lutar por princípios tão básicos quanto a igualdade de gênero:

— Não é exatamente um prazer participar porque é horrível termos de fazer isso. Mas, se tem que acontecer, estou feliz de ser parte dessa história.

Entre os temores de quem não apoia a nova administração, estão a possibilidade de um Departamento de Justiça que permita retrocessos em questões relacionadas a direitos humanos, a deportação em massa de imigrantes, preconceito religioso e redução de acesso ao planejamento familiar sem custo, promovido por ONGs que hoje recebem dinheiro do governo e tiveram o auxílio ameaçado por representantes do Partido Republicano. É contra isso que as mulheres marcharão, avalia Larkin Grimm, cantora e ativista:

— Somos metade da população. Tudo o que precisamos para alcançar direitos humanos básicos é pedir por eles.

Mas nem todas as participantes são tão otimistas. Linda Zwiren, professora universitária aposentada, marcha para garantir a consciência limpa:

— Não espero nada além de saber que eu me posicionei e expressei minha opinião.

Já o objetivo das organizadoras é que este seja o primeiro passo de uma grande força que deve aparecer em outros momentos da administração de Trump.

— Nossa meta é baseada em três pontos: educar, organizar e mobilizar. É o começo de uma conversa, já estamos nos mobilizando para o Dia Internacional da Mulher. É o princípio de um movimento que não será dispersado — declara Breanne. — Unidos, podemos mudar o mundo, fazer a diferença.

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